Por Edina Araújo*
Neste 25 de novembro, celebramos duas décadas do Ligue 180, a central de atendimento à mulher do governo brasileiro, criada no primeiro mandato do presidente Lula em 2005. A data é emblemática: foi escolhida pela ONU como Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres.
Criado antes mesmo da Lei Maria da Penha entrar em vigor em 2006, o Ligue 180 nasceu como um espaço de escuta e acolhimento. Hoje, o serviço é mais do que um canal de denúncias – é um símbolo do compromisso brasileiro no enfrentamento à violência de gênero, articulado a uma extensa rede de proteção que inclui a Casa da Mulher Brasileira, Centros de Referência, Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher e Defensorias Públicas.
O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo na proteção às mulheres. A Lei Maria da Penha é reconhecida internacionalmente como referência no enfrentamento à violência doméstica. No papel, temos instrumentos poderosos. Na prática, a realidade nas ruas conta uma história diferente.
Siga o instagram do Fatos (CLIQUE AQUI)
Participe do grupo do Fatos (CLIQUE AQUI).
Mato Grosso é o caso mais emblemático desse paradoxo. Pelo segundo ano consecutivo, o Estado lidera o ranking nacional de feminicídios, com a maior taxa proporcional do país: 2,5 casos por 100 mil habitantes. Em 2024, foram 47 mulheres assassinadas por motivação de gênero. Em 2025, até o início de novembro, já são 48 feminicídios – o pior resultado desde 2020.
Os dados do Observatório Caliandra, do Ministério Público de Mato Grosso, revelam um padrão assustador: cerca de 70% dos feminicídios acontecem dentro de casa, onde as mulheres deveriam estar protegidas. A maioria dos crimes é cometida por parceiros ou ex-parceiros, frequentemente com histórico anterior de agressões e ameaças.
As principais motivações são ciúme, inconformismo com o fim do relacionamento e menosprezo à condição feminina. As vítimas são mortas principalmente com armas brancas ou de fogo. Em 2024, 49 crianças e adolescentes ficaram órfãos em decorrência desses crimes no Estado.
Mecanismos como o Ligue 180 são fundamentais e salvam vidas. Mas não bastam. A verdadeira transformação precisa começar em casa, nas pequenas atitudes cotidianas que formam mentalidades.
Quantas mães ainda acham que lavar louça, lavar roupa e cozinhar são "coisas de mulher"? Em pleno século XXI, perpetuamos comportamentos machistas ao não educar meninos para as tarefas domésticas. Quando ensinamos que essas responsabilidades são exclusivamente femininas, plantamos a semente da desigualdade que pode germinar em violência.
É preciso prestar atenção às atitudes dos filhos desde cedo. Aquela piada que deprecia mulheres, aparentemente inofensiva, vai gerando um grande mal no inconsciente coletivo. Frases como "ela sabe por que apanhou" não são apenas ofensivas – normalizam a violência.
Até expressões como "Ela não merece [ser estuprada] porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria" – ditas publicamente em 2014 pelo então deputado federal Jair Bolosnaro a uma colega parlamentar – revelam uma mentalidade doentia que precisa ser combatida desde a infância. Estupro não é sobre desejo. É sobre poder, controle e violência.
Quando uma primeira-dama do Estado afirma à imprensa que mulheres precisam ter 'passado limpo' para entrar na política, ela revela como o machismo estrutural opera: exigindo das mulheres uma conduta moral que não é cobrada dos homens na mesma medida.
Um dos pilares fundamentais que precisamos ensinar às novas gerações é o conceito de liberdade de escolha. Ninguém é propriedade de ninguém. Mulheres têm o direito de escolher seus parceiros, suas roupas, suas profissões, seus caminhos.
Quando um homem acha que tem o direito de controlar uma mulher porque ela é "sua" namorada ou "sua" esposa, estamos diante da raiz do feminicídio. O inconformismo com o fim de um relacionamento – uma das principais causas dos feminicídios em Mato Grosso – só existe porque alguns homens foram criados acreditando que mulheres são suas posses.
Precisamos criar meninos que entendam que "não" é uma resposta válida, que respeito é não-negociável, que relacionamentos são baseados em igualdade, não em submissão.
São essas atitudes cotidianas, aparentemente insignificantes, que podem transformar um menino em um homem respeitoso ou em um agressor. A violência de gênero não surge do nada – ela é construída diariamente, nas piadas, nos comentários, nos ensinamentos machistas que ainda permeiam muitas famílias brasileiras.
Celebrar os 20 anos do Ligue 180 é reconhecer um avanço importante. Mas também é admitir que estamos longe de vencer essa batalha. Enquanto Mato Grosso continuar liderando o ranking de feminicídios, enquanto mulheres continuarem sendo mortas por parceiros ou familiares, enquanto nossas crianças continuarem sendo criadas em ambientes que naturalizam o machismo, não poderemos dizer que vencemos.
O Ligue 180 salva vidas e reafirma uma mensagem fundamental: nenhuma mulher está sozinha diante da violência. Mas precisamos ir além.
Precisamos de uma revolução cultural que comece dentro de casa, nas conversas à mesa, nos valores que transmitimos, na forma como educamos nossos filhos e filhas.
A violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral contra as mulheres não é um problema "delas" – é um problema de toda a sociedade. E a solução também precisa ser coletiva. Do Estado às famílias, das escolas às rodas de amigos, todos temos responsabilidade na construção de um Brasil onde mulheres possam viver sem medo.
Neste 25 de novembro, que a celebração dos 20 anos do Ligue 180 nos inspire não apenas a aplaudir o que foi conquistado, mas a intensificar a luta pelo que ainda falta conquistar. Porque enquanto uma única mulher for violentada ou morta por ser mulher, nossa missão não estará completa.
Ligue 180: atendimento gratuito, sigiloso, 24 horas por dia, sempre feito por mulheres. Nenhuma mulher está sozinha diante da violência.
*Edina Araújo, é jornalista e diretora do VGNOTICIAS e Fatos de Brasília.









