Por Edina Araújo*
Noventa e cinco anos. Quase um século desde que as mulheres brasileiras conquistaram o direito ao voto, em 1932. E o que temos para comemorar? Números que envergonham, uma realidade que sufoca e uma pergunta que não quer calar: até quando seremos apenas figurantes na política deste país?
A resposta está escancarada nos dados das eleições de 2024 em Mato Grosso. Apenas 13 mulheres eleitas prefeitas. Treze, em 142 municípios. Façam as contas: míseros 9,22%. Em 2020, eram 15. Retrocedemos. E o pior: das 13 atuais, nove foram reeleitas. Ou seja, apenas quatro rostos novos conseguiram furar o bloqueio masculino que domina o poder municipal. Quatro. É de chorar ou de rir da nossa cara?
A verdade nua e crua é que continuamos sendo números. Números para preencher cotas partidárias, aquela obrigação legal que os partidos cumprem com má vontade, empurrando candidatas laranjas, mulheres sem estrutura, sem recursos, sem voz. Somos o enfeite necessário para que eles, os donos do poder, possam dizer que estão cumprindo a lei. Mas na hora de distribuir os recursos do fundo partidário? Na hora de escolher quem vai ocupar os cargos de liderança? Ah, aí somos esquecidas. Convenientemente invisíveis.
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E quando uma mulher ousa chegar ao poder, quando ela rompe todas as barreiras e conquista seu espaço, o que acontece? É tratada com desdém, com desconfiança, com adjetivos pejorativos que jamais seriam usados para um homem na mesma posição. "Histérica", "despreparada", "emotiva demais". Os rótulos se multiplicam enquanto nossas competências são sistematicamente questionadas.
A culpa? Ah, não é nossa. A culpa é do machismo que corrói esta sociedade, que está tão entranhado na mentalidade masculina que virou "cultura". Cultura, essa desculpa esfarrapada que serve para justificar o injustificável, para manter privilégios, para perpetuar a dominação.
E os parlamentares? Aqueles que deveriam ser exemplo de civilidade, de respeito às instituições democráticas? Na primeira oportunidade, mostram sua verdadeira face. O recente episódio protagonizado pelo deputado federal José Medeiros é a prova viva dessa barbárie institucionalizada. Mandar uma advogada calar a boca, repetidas vezes, num acesso de fúria descontrolada, é mais do que um desequilíbrio momentâneo. É a demonstração cristalina de como o poder masculino não tolera ser confrontado, questionado ou contrariado por uma mulher.
Até quando vamos assistir a homens mandando mulheres calarem a boca? Até quando vamos enterrar mulheres assassinadas por homens que não aceitam ouvir um "não", que não suportam o fim de um relacionamento, que acham que somos propriedade sua?
O direito ao voto foi, sim, uma conquista histórica. Mas noventa e cinco anos depois, está mais do que evidente: conquista não é sinônimo de respeito. Conquista não é sinônimo de igualdade. Conquista não é sinônimo de segurança.
Enquanto formos tratadas como cotas a serem preenchidas, enquanto nossos corpos forem encontrados em estatísticas de feminicídio, enquanto nossa voz for silenciada em parlamentos e prefeituras, não temos nada a comemorar. Temos, isso sim, muito pelo que lutar.
E não vamos calar a boca, porque quem manda nela somos nós!!!
*Edina Araújo, jornalista e diretora do VGNOTICIAS e do Fatos de Brasília.









