21 de Abril de 2026
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Artigos Quinta-feira, 27 de Novembro de 2025, 09:55 - A | A

Quinta-feira, 27 de Novembro de 2025, 09h:55 - A | A

Valdir Barranco*

Lula, Belém e a floresta: como a COP30 reposicionou o Brasil diante do mundo

Por Valdir Barranco*

A COP30, realizada em Belém, foi mais que um encontro diplomático, representou um gesto político de grandeza histórica, capaz de reposicionar a Amazônia, e o Brasil, no centro do debate global sobre o clima. Vinte anos após a entrada em vigor do Protocolo de Quioto e dez anos depois do Acordo de Paris, a conferência marcou um novo ciclo de responsabilização internacional, com forte pressão científica e social para que os países acelerem a redução de emissões e ampliem financiamento para adaptação e mitigação. Inserida nessa trajetória, a COP30 simbolizou o amadurecimento do regime climático internacional e a percepção de que a crise ambiental é, cada vez mais, uma crise civilizatória.

Do ponto de vista histórico, a evolução das COPs mostra um esforço contínuo da comunidade internacional para construir mecanismos de resposta ao aquecimento global. Desde a COP1, em Berlim, quando o Mandato de Berlim reconheceu que os compromissos climáticos eram insuficientes, passando pela adoção do Protocolo de Quioto na COP3, pelos ajustes de implementação em Marrakesh, pelo Roteiro de Bali, pela tentativa frustrada de um grande acordo em Copenhague e pela assinatura do Acordo de Paris na COP21, o mundo vem buscando conciliar diplomacia, ciência e desenvolvimento econômico. A COP30 se insere exatamente nesse caminho, mas com um diferencial crucial, pela primeira vez, uma conferência dessa magnitude foi realizada no coração da maior floresta tropical do planeta.

O protagonismo brasileiro não caiu do céu. Em 2022, ainda presidente eleito, Lula anunciou que faria esforços para que um estado amazônico recebesse o evento. Em 2023, Belém foi oficialmente escolhida como sede, após uma articulação diplomática intensa. A decisão não foi simbólica, foi estratégica. A Amazônia é o epicentro das discussões sobre clima, biodiversidade, ciclo das águas, justiça ambiental e sobrevivência planetária. Trazer presidentes, cientistas, líderes empresariais, povos indígenas, organizações internacionais e a imprensa mundial para ver, presencialmente, a realidade da floresta foi uma vitória política que nenhum outro país teria capacidade de entregar naquele momento.

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O impacto disso se reflete inclusive no financiamento climático. Um dos avanços mais relevantes foi o compromisso de bilhões de dólares por parte das grandes potências para o Tropical Forests Forever Facility (TFFF), o Fundo de Florestas Tropicais para Sempre, uma iniciativa concebida pelo presidente Lula. O fundo parte de um desenho inovador, criar um mecanismo financeiro permanente para remunerar países que protegem florestas tropicais, garantindo previsibilidade, continuidade e escala.

Entre seus principais objetivos estão,

(1) conservar florestas intactas e reduzir o desmatamento a zero,
(2) financiar projetos de bioeconomia que gerem renda para populações locais,
(3) apoiar iniciativas de preservação da biodiversidade,
(4) fortalecer políticas de adaptação e transição justa,
(5) criar governança integral que permita alinhar governos, sociedade civil e comunidades tradicionais.

A proposta recebeu adesão imediata de nações desenvolvidas e organismos multilaterais, indicando que a COP30 realmente produziu efeitos concretos para além das salas de negociação.

Quanto aos custos, é importante separar fato de opinião. A realização da COP30 envolveu investimentos públicos relevantes, tanto em obras urbanas duradouras quanto na própria organização do evento. Estima-se que o governo federal tenha destinado entre R$ 775 milhões e R$ 1 bilhão à estruturação da conferência, enquanto investimentos totais em obras de infraestrutura ultrapassam R$ 4 bilhões, incluindo recursos federais, estaduais, municipais, aportes de Itaipu Binacional e cooperação com organismos internacionais como a OEI. Paralelamente, muitos shows e eventos culturais foram custeados por empresas privadas e parceiros, especialmente no caso dos grandes espetáculos, o que dilui o impacto direto sobre os cofres públicos.

Mesmo assim, a extrema direita tentou construir a narrativa de que a COP30 teria sido um “desperdício de dinheiro público” e que “trouxe prejuízos” ao Brasil. Essa crítica, porém, é ruidosa, mas rasa, fruto de uma análise simplista, incapaz de compreender o que está em jogo. Primeiramente, a COP ocorreria de qualquer forma, se não fosse no Brasil, seria realizada em outro país, com a mesma estrutura, o mesmo aparato e igual custo. Em segundo lugar, nenhum país sede organiza uma COP para “gastar dinheiro”, mas sim para atrair investimentos, fortalecer sua diplomacia, impulsionar obras estruturantes, gerar empregos temporários e permanentes, reposicionar sua imagem internacional e renovar sua agenda de inovação e sustentabilidade. Em terceiro lugar, e talvez mais importante, trazer o mundo para Belém permitiu que chefes de Estado, empresários, cientistas e negociadores vivenciassem a Amazônia como protagonista, não como abstração discutida em salas de hotel em Genebra ou Dubai.

As críticas também ignoram que eventos internacionais desse porte movimentam fortemente a economia local, aumentam arrecadação, estimulam setores como turismo, hotelaria, gastronomia e transporte, além de deixar um legado urbano direto, como melhorias em saneamento, mobilidade e revitalização de espaços públicos. Ignoram ainda que parte significativa dos gastos são compensados por aportes de organismos internacionais, parceiros privados e acordos de cooperação.

No balanço final, a COP30 deixa três legados fundamentais. O primeiro é urbano e social, Belém recebeu obras que permanecerão por décadas, além de investimentos em saúde, infraestrutura e espaços públicos. O segundo é político, o Brasil voltou ao centro da diplomacia climática internacional, liderando discussões cruciais sobre transição justa, financiamento e proteção das florestas tropicais. O terceiro é planetário, o TFFF inaugura uma nova lógica de financiamento ambiental, capaz de garantir que a preservação das florestas seja politicamente sustentável, economicamente viável e socialmente justa.

Ao sediar a COP30, o Brasil deu ao mundo uma mensagem clara, não é possível falar de futuro climático sem falar da Amazônia. Nem seria possível haver um debate global sério sobre sustentabilidade sem olhar, de perto, para o maior ativo ambiental do planeta. E se a COP teve custos, seus benefícios, diplomáticos, econômicos, ambientais e civilizatórios, serão sentidos muito além do Pará, muito além do Brasil e muito além desta geração.

*Valdir Barranco é Biólogo, professor e deputado estadual pelo terceiro mandato.

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