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Artigos Segunda-feira, 03 de Novembro de 2025, 13:35 - A | A

Segunda-feira, 03 de Novembro de 2025, 13h:35 - A | A

Max Russi*

Mulheres decidem eleições, mas minoria chega ao poder!

Por Maxi Russi*

Neste 3 de novembro de 2025, o Brasil celebra os 95 anos da aprovação, pelo Senado, do projeto que instituiu o voto feminino no Brasil. Essa conquista histórica rompeu uma das mais profundas barreiras da vida pública brasileira, a que mantinha metade da população afastada das decisões políticas.

Passados 95 anos, porém, persiste a pergunta que atravessa gerações: essa vitória se traduziu, de fato, em igualdade nos espaços de poder?

Como presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, me deparo com uma realidade preocupante: nossa Casa conta hoje com apenas duas deputadas estaduais: Janaína Riva, que é titular de uma das 24 cadeiras, e Marildes Ferreira, que é suplente no exercício do cargo.

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No Congresso Nacional, temos igualmente duas representantes do Estado — Coronel Fernanda, a única eleita dentre os nossos oito representantes para a Câmara dos Deputados, e Gisela Simona, suplente no exercício do mandato.

Em resumo: hoje contamos com apenas quatro legisladoras em um Estado onde as mulheres representam a maioria da população e do eleitorado.

O retrocesso se acentua. As eleições de 2024 revelam dados preocupantes: apenas 13 mulheres foram eleitas prefeitas em Mato Grosso, o que representa 9,22% dos 142 municípios do Estado. Em 2020, haviam sido eleitas 15. Das 13 atuais, nove foram reeleitas — ou seja, apenas quatro novas mulheres chegaram ao comando do Executivo municipal.

Enquanto o Brasil avança na direção da equidade de gênero na política, Mato Grosso segue na contramão. Nacionalmente, o número de prefeitas eleitas passou de 656, em 2020, para 724, em 2024.
Esses dados não são meramente estatísticos — são o retrato de uma democracia que ainda exclui.

As mulheres mobilizam comunidades, decidem eleições, constroem bases políticas. Mas, quando chega a hora de ocupar cadeiras de poder, as portas permanecem fechadas. A presença feminina nos parlamentos ainda parece mais exceção do que regra.

As barreiras são conhecidas: financiamento que privilegia homens, estruturas partidárias dominadas por lideranças masculinas, machismo que questiona a competência das candidatas, dupla jornada e violência política de gênero. Tudo isso afasta as mulheres da política institucional.

Como homem em posição de poder, como presidente da Assembleia Legislativa, pai, marido, filho e avó, faço uma reflexão necessária: estamos abrindo portas ou apenas cumprindo protocolos?
Mulheres não podem ser tratadas como cotas a preencher ou escadas para angariar votos. Essa lógica perversa desrespeita sua capacidade, inteligência e competência para administrar. As mulheres trazem uma sensibilidade única para lidar com políticas públicas voltadas aos menos favorecidos — e isso não é fraqueza, é força que transforma realidades.

Sei o quanto é fundamental o papel da mulher em todas as áreas onde ela quiser atuar. Não por concessão, mas por direito e por mérito.

A sub-representação feminina em Mato Grosso não é culpa das mulheres mato-grossenses. É resultado de um sistema que impõe obstáculos onde deveria construir caminhos e oportunidades.
Bertha Lutz não lutou pelo voto feminino para que, 95 anos depois, as mulheres continuassem sendo exceção nos parlamentos. Ela lutou por igualdade real, participação efetiva e poder compartilhado.

A conquista do voto foi um passo fundamental, mas ainda incompleto. Hoje, precisamos avançar para a igualdade salarial plena — mulheres recebendo o mesmo que homens em todas as esferas, seja na vida pública ou na iniciativa privada. Competência não tem gênero. Salário também não deveria ter.

Precisamos admitir, a democracia brasileira continua incompleta. E a mato-grossense, mais ainda. Permanecerá assim enquanto metade da população estiver sub-representada.
O direito ao voto foi o primeiro passo. Noventa e cinco anos depois, o caminho segue longo — e precisa ser percorrido com urgência.

*Max Russi, deputado estadual e atual presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso.

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