21 de Abril de 2026
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Geral Domingo, 30 de Novembro de 2025, 17:03 - A | A

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VIOLÊNCIA DE GÊNERO

Mato Grosso lidera taxa de feminicídio no Brasil pelo segundo ano seguido

Estado registra 2,5 mortes para cada 100 mil mulheres em 2024 e já soma 51 vítimas em 2025

Rojane Marta/Fatos de MT

Mato Grosso aparece hoje no topo de um ranking que o país deveria se esforçar para extinguir. Em 2024, o estado registrou a maior taxa de feminicídio do Brasil: 2,5 mulheres assassinadas para cada 100 mil mulheres, liderança negativa pelo segundo ano consecutivo. Foram 47 vítimas no ano, em um cenário nacional que bateu recorde histórico, com 1.492 feminicídios – quatro mortes por dia. Em números absolutos, São Paulo permanece na frente, com 253 casos, mas é em estados como Mato Grosso que a letalidade proporcional atinge níveis mais altos.

Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e mostram que, desde a criação da Lei 13.104/2015 – que incluiu o feminicídio no Código Penal como circunstância qualificadora do homicídio –, o país nunca matou tantas mulheres apenas por serem mulheres. O aumento em relação a 2023 foi de 0,7%, mas a curva de longo prazo revela o quadro com mais nitidez: 1.355 vítimas em 2020, 1.359 em 2021, 1.451 em 2022, 1.449 em 2023 e, agora, 1.492 em 2024.

Enquanto as mortes violentas intencionais caíram 5,4% no país no mesmo período, os feminicídios seguiram trajetória oposta. A taxa nacional se manteve em 1,34 morte por 100 mil mulheres, mas com forte disparidade entre as regiões. O Centro-Oeste, onde se encontram Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, voltou a apresentar o pior indicador regional, com 1,87 feminicídios por 100 mil mulheres, muito acima da média brasileira.

MATO GROSSO NO TOPO DO MAPA DA VIOLÊNCIA

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Na distribuição por estados, o mapa traz um recorte incômodo para o Centro-Oeste. Mato Grosso lidera o ranking, com taxa de 2,5 mortes por 100 mil mulheres e 47 vítimas em 2024. Em seguida aparecem Mato Grosso do Sul (2,4 e 35 casos), Piauí (2,3 e 40 casos), Roraima (2,0 e 7 casos) e Bahia (1,4 e 106 mortes). Nas pontas inferiores estão Amapá (0,27), Ceará (0,47) e Sergipe (0,8).

A liderança de Mato Grosso não é um ponto isolado. Em 2023, o estado já havia figurado entre aqueles com maior proporção de feminicídios. Agora, os dados de 2025 indicam que o quadro permanece grave. De acordo com o Observatório Caliandra, do Ministério Público Estadual, 51 mulheres foram vítimas de feminicídio até hoje (30), número que já supera o total de 2024.

O painel mostra que a maior parte dos crimes continua acontecendo dentro de casa. Somados os registros em “residência” e “residência da vítima”, 72% dos feminicídios de 2025 ocorreram em ambiente doméstico. Em 2024, esse percentual chegou a 83%. Em 2025, o período noturno concentra quase metade das mortes (24 casos), e a quinta-feira aparece como o dia mais letal, com 16 ocorrências.

O perfil das vítimas confirma o que as estatísticas nacionais já sinalizam. No Brasil, 63,6% das mulheres assassinadas são negras; em Mato Grosso, os dados do Observatório indicam predominância de vítimas pardas (29) e pretas (8), seguidas por brancas (12). A maioria tem entre 18 e 44 anos, faixa em que se concentram 70,5% dos feminicídios no país; no estado, os grupos mais atingidos em 2025 foram mulheres de 25 a 34 anos e de 50 a 64 anos.

QUEM MATA E COMO MATA

O feminicídio continua sendo, majoritariamente, um crime cometido por parceiros e ex-parceiros. Dados nacionais mostram que 80% das vítimas são mortas por companheiros ou ex-companheiros e 67,4% dos casos são classificados como feminicídio íntimo. Em Mato Grosso, o desenho é semelhante: em 2025, 20 vítimas foram assassinadas pelo companheiro, 10 por ex-companheiros e 7 por ex-namorados. Somados, esses vínculos respondem por mais de dois terços dos casos.

O instrumento mais usado também se repete. No Brasil, entre 48% e 57% dos feminicídios são cometidos com armas brancas, como facas e facões; de 17% a 20% envolvem armas de fogo, e cerca de 13% recorrem à força física, espancamento ou estrangulamento. Em Mato Grosso, em 2025, 23 vítimas foram mortas com arma cortante ou perfurante, 18 com arma de fogo e cinco por asfixia ou esganamento.

Quando se observa a motivação dos crimes, as estatísticas praticamente traduzem, em números, a cultura do controle masculino sobre a vida das mulheres. No painel do Observatório Caliandra, “separação do casal ou tentativa de rompimento” aparece em 14 casos; “ciúmes, sentimento de posse, machismo”, em outros 14; e “menosprezo ou discriminação à condição de mulher”, em 13. Discussões genéricas respondem por sete registros, e motivos financeiros aparecem apenas em um.

ONDE O SISTEMA FALHA

Os dados também expõem falhas na proteção que o Estado deveria garantir. Em nível nacional, 101.656 descumprimentos de medidas protetivas foram registrados em 2024, uma alta de 10,8% em relação ao ano anterior. A taxa de descumprimento alcançou 18,3%, e ao menos 121 mulheres foram assassinadas entre 2023 e 2024 mesmo sob proteção judicial.

Em Mato Grosso, o padrão é semelhante. Em 2025, 44 das 51 vítimas de feminicídio não tinham medida protetiva ativa contra o agressor, o que indica dificuldade de acessar a rede de proteção ou de reconhecer o risco antes da escalada da violência. Mas os sete casos de mulheres mortas apesar de estarem sob medida protetiva revelam outra face do problema: mesmo quando a vítima rompe o silêncio e procura ajuda, a resposta institucional nem sempre é suficiente para impedir o desfecho fatal.

O registro de boletim de ocorrência também aparece como gargalo. Em 2024, cerca de 81% das mulheres assassinadas no país não haviam feito denúncia prévia, segundo o Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem). Em Mato Grosso, os dados de 2025 mostram cenário muito próximo: 40 vítimas não tinham B.O. anterior e apenas 11 haviam registrado agressões. A subnotificação, combinada com o descumprimento de medidas protetivas, ajuda a explicar por que a curva de feminicídios continua em alta mesmo com leis e campanhas.

CENTRO-OESTE: FRONTEIRA AGRÍCOLA E FRONTEIRA DA VIOLÊNCIA

O fato de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul liderarem o ranking por taxa de feminicídio coloca o Centro-Oeste em uma posição paradoxal. A região que ganhou projeção nacional como vitrine do agronegócio e do crescimento econômico passou a aparecer também como a mais letal para as mulheres. Com taxa regional de 1,87 feminicídios por 100 mil mulheres, o Centro-Oeste supera com folga o Nordeste, o Norte e o próprio Sudeste, onde os números absolutos são maiores, mas a proporção é menor.

Especialistas apontam uma combinação de fatores para explicar esse cenário: disseminação de armas de fogo, cultura de resolução violenta de conflitos, pressão do álcool e de outras drogas, distâncias geográficas que dificultam o acesso à rede de proteção e um ambiente social ainda fortemente marcado por estruturas patriarcais. Em muitas cidades do interior, a delegacia especializada mais próxima está a dezenas de quilômetros de distância, e a vítima convive diariamente com o agressor em contextos em que romper a relação significa, também, romper laços familiares, comunitários e econômicos.

POLÍTICAS PÚBLICAS E O QUE AINDA FALTA

Em 2024, o governo federal lançou o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, com previsão de R$ 2,5 bilhões e 73 ações coordenadas por 11 ministérios. A proposta inclui ampliação de casas-abrigo, fortalecimento de delegacias especializadas, campanhas educativas e integração de dados entre segurança, saúde e Justiça. Na prática, porém, boa parte dessas iniciativas ainda enfrenta dificuldades de execução nos estados e municípios.

No caso de Mato Grosso, a criação do Observatório Caliandra pelo Ministério Público é um avanço importante na produção e transparência de dados. O painel permite acompanhar, quase em tempo real, quem são as vítimas, onde os crimes acontecem, qual o vínculo com o agressor e em que etapa estão os processos. Mas medir não basta. A sequência de 47 feminicídios em 2024 e 51 casos em 2025, com tendência de nova alta, mostra que o estado que lidera a taxa de feminicídio no país ainda está longe de reduzir de forma consistente a violência letal contra mulheres.

O retrato que emerge das estatísticas é o de um problema estrutural, que não se resolve apenas com leis mais duras ou operações pontuais. Exige investimento contínuo na rede de atendimento, capacitação de policiais e profissionais de saúde, rapidez na concessão e fiscalização de medidas protetivas, políticas de renda e moradia para mulheres que decidem sair de relações abusivas e uma mudança cultural que leve o machismo e a violência doméstica a serem vistos, de fato, como intoleráveis.

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