Por Jalme Santana de Figueiredo Junior*
Peço licença ao leitor, pois desta vez fugirei um pouco do estilo de texto que geralmente publico nesta plataforma digital. Em vez de uma análise ou reflexão mais ampla, gostaria de compartilhar uma situação pedagógica que vivi recentemente em uma turma da educação básica da rede estadual, onde leciono Geografia.Peço licença ao leitor, pois desta vez fugirei um pouco do estilo de texto que geralmente publico nesta plataforma digital. Em vez de uma análise ou reflexão mais ampla, gostaria de compartilhar uma situação pedagógica que vivi recentemente em uma turma da educação básica da rede estadual, onde leciono Geografia.
Nos estudos geográficos, conforme as bases curriculares, discutimos frequentemente os processos de industrialização, a formação de cadeias produtivas e o papel do ser humano na transformação do espaço geográfico. Foi em uma dessas aulas, enquanto conversávamos sobre como os seres humanos produzem e transformam o espaço, que fui surpreendido por uma pergunta bastante interessante.
O sociólogo brasileiro Pedro Demo, ao refletir sobre processos educativos, utiliza um conceito importante: a curiosidade epistemológica. Para ele, trata-se de uma pergunta que expressa uma curiosidade genuína do sujeito que a formula. E foi exatamente isso que aconteceu naquela manhã. Em meio ao diálogo, uma das estudantes levantou a mão e perguntou, com toda sinceridade e espontaneidade: – Professor! Se a Eva não tivesse comido a maçã, nós precisaríamos vir para a escola?
A sala inteira abriu um sorriso e todos olharam para mim, ansiosos pela resposta. Retribuí o sorriso e disse:
– Bem... Deixa eu pensar um pouco. Após uma pequena pausa dramática, comecei a contar um “causo”.– Existiu um cientista chamado Erwin Schrödinger. Para explicar uma coisa muito difícil de entender, ele imaginou o seguinte: pensem em um gato dentro de uma caixa fechada. Quem está do lado de fora não consegue ver e nem ouvir o que acontece lá dentro. Sem abrir a caixa, tem como saber se o gato está vivo ou morto?
Parte da turma respondeu: – Tá vivo! Outra parte respondeu: – Tá morto! Então insisti: – Mas se ninguém abrir a caixa, tem como saber de verdade? Eles responderam: Não! Então, concluí: – Nesse caso, o gato estaria vivo e morto ao mesmo tempo.
Mas alguns dos mais atentos logo retrucaram: – Professor, mas o que isso tem a ver com a Eva não ter comido o fruto e a gente não precisar vir à escola?
Respondi:
– É a mesma lógica da caixa de Schrödinger. Não temos como saber, porque essa resposta está dentro da “caixa”. Portanto, é sim e não ao mesmo tempo. Talvez precisaríamos vir para a escola. Talvez não. Só poderíamos ter certeza se conseguíssemos abrir essa caixa.
Depois completei: – E como podemos abrir essa “caixa” para compreender o passado? A resposta está na própria escola: estudando história, geografia, lendo, interpretando, questionando e buscando evidências que nos ajudem a entender o que aconteceu, o que acontece e o que pode acontecer.
A turma fez aquela expressão típica de satisfação quando algo finalmente faz sentido. A estudante que havia feito a pergunta concluiu:
– É professor... acho que agora entendi.
Nesse momento, o sinal do intervalo tocou. Todos disseram “obrigado, professor” e correram para a fila da cozinha buscar a merenda do dia.
A escola é um lugar privilegiado. A experiência de vida e a curiosidade dos estudantes são fundamentais para o processo de aprendizagem. Perguntas como aquela surgem de diferentes camadas sociais, religiosas, políticas e subjetivas. Elas revelam formas próprias de interpretar e compreender o mundo à nossa volta. Que a curiosidade desses estudantes sirva de exemplo para a construção de uma sociedade que busca o conhecimento a partir de uma legítima curiosidade epistemológica, pautada na alegria de aprender e no respeito ao próximo.
Fontes consultadas: Pedro Demo. Educar pela Pesquisa. 2015.
*Jalme Santana de Figueiredo Junior, professor de Geografia na EE Profº Fernando Leite de Campos, Doutor em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)








