Por Mizael Duarte*
Apuração do MPMT pode abrir caminho para revelar um modelo que vai além de um único parlamentar
O caso envolvendo o deputado estadual Valmir Moretto escancara uma realidade que muita gente já conhece, mas que raramente vem à tona de forma tão direta. O áudio vazado, em que ele afirma que uma das obras licitadas seria “a minha”, não é apenas um deslize de linguagem. É um retrato de como a política ainda funciona nos bastidores.
A investigação aberta pelo Ministério Público de Mato Grosso é necessária e chega em boa hora. Não dá mais para tratar esse tipo de situação como algo normal ou justificável com explicações frágeis. Dizer que foi “vício de linguagem” não convence. Pelo contrário, levanta ainda mais dúvidas.
A própria justificativa do deputado reforça a desconfiança. Ele afirma que deixou a empresa em 2018, ao transferi-la para o irmão. Na prática, isso levanta um questionamento simples: houve realmente afastamento ou apenas uma mudança formal para continuar operando nos bastidores?
E o problema vai muito além de um único caso.
Se essa investigação for levada a sério e aprofundada, é provável que revele algo ainda maior. Em Mato Grosso, não é segredo que muitos políticos mantêm influência em empresas que prestam serviços ao poder público. Obras, concessões, contratos… tudo isso muitas vezes passa por mãos que, oficialmente, não aparecem, mas que na prática continuam no controle.
O roteiro é quase sempre o mesmo. O político se afasta formalmente da empresa para cumprir a lei, mas o negócio continua dentro da família ou nas mãos de alguém de confiança. Irmãos, esposas, amigos próximos. Os chamados “laranjas”. Enquanto isso, contratos seguem sendo firmados e recursos públicos continuam circulando dentro de um mesmo grupo.
Isso não acontece só em obras. Em Mato Grosso, há políticos donos de concessão emissoras rádios, TVs, sites e blogs que recebem valores expressivos em contratos com o próprio Estado. Um sistema que mistura poder político, comunicação e dinheiro público, criando um ambiente onde fiscalização e independência ficam comprometidas.
O caso Moretto não é um ponto fora da curva. Ele é, na verdade, um reflexo de um modelo que precisa ser enfrentado.
Chegou a hora de moralizar a política no estado. Não dá mais para aceitar que interesses pessoais se misturem com dinheiro público como se fosse algo natural. O cidadão paga impostos para ver serviços funcionando, não para sustentar esquemas disfarçados de legalidade.
Se o Ministério Público realmente puxar esse fio, pode descobrir muito mais do que um simples “vício de linguagem”.
Pode expor um sistema inteiro.
E é exatamente isso que a sociedade espera.
*Mizael Duarte é jornalista e radialista.









