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Artigos Terça-feira, 31 de Março de 2026, 16:20 - A | A

Terça-feira, 31 de Março de 2026, 16h:20 - A | A

Natasha Slhessarenko*

Mato Grosso falha com suas mulheres e isso tem responsáveis

Por Natasha Slhessarenko*

Não há mais espaço para discursos genéricos. Mato Grosso falha, de forma grave e continuada, na proteção às mulheres, e essa falha tem responsáveis.

Somos, proporcionalmente à nossa população, um dos estados que mais registram feminicídios e casos de violência contra a mulher no Brasil. Isso não é coincidência. É consequência direta de omissão, de falta de prioridade e de decisões, ou da ausência delas.

Nos últimos dias, mais três casos chocaram o estado, incluindo o de uma gestante em Sinop, tornando março, o Mês da Mulher, o mais violento de 2026 até agora. Quantas mulheres ainda precisarão ser agredidas ou mortas para que essa realidade deixe de ser tratada como algo “normal”?

A estrutura de proteção em Mato Grosso é insuficiente e, em muitos pontos, inexistente. Apenas duas delegacias especializadas de atendimento à mulher em funcionamento exclusivo e somente uma 24 horas. Isso não é política pública. Isso é abandono institucional.

A violência acontece, majoritariamente, dentro de casa, à noite, nos fins de semana. E o Estado simplesmente não está lá.

Enquanto isso, policiais aprovados em concurso seguem aguardando convocação. Falta efetivo, falta presença, falta resposta. O que não falta é a consequência: mulheres desprotegidas, mulheres violentadas, mulheres assassinadas.

Mas há algo ainda mais grave: a incoerência moral de quem deveria dar exemplo. Não é aceitável que figuras públicas, que pretendem governar o estado, estejam associadas a denúncias de agressão contra mulheres. Isso não é detalhe. Isso é incompatível com qualquer projeto de liderança. Mato Grosso não pode ser governado por quem não respeita mulheres dentro de casa.

É preciso dizer com todas as letras: a violência contra a mulher não é apenas um problema social, é um problema de gestão.

E gestão se faz com decisão.

Defendo medidas imediatas e inegociáveis: convocação dos aprovados em concurso público, realização de novos concursos para recompor o efetivo, ampliação do número de delegacias especializadas, garantia de funcionamento 24 horas de muitas destas delegacias e criação da Secretaria da Mulher.

Mas não basta reagir ao crime. É preciso interromper o ciclo.

Isso começa pela base: educação. É fundamental investir em políticas educacionais desde a infância, promovendo respeito, igualdade e prevenção à violência de gênero. Combater a violência contra a mulher também é formar uma nova geração que não reproduza esse padrão.

Também é urgente estruturar uma rede de atendimento que funcione de verdade. Mulheres em situação de violência não podem continuar peregrinando entre diferentes órgãos para conseguir ajuda. Mato Grosso precisa de centros integrados de atendimento, onde a vítima encontre, em um único lugar, delegacia, exame de corpo de delito, atendimento médico, suporte psicológico e assistência social. Agilidade e acolhimento salvam vidas.

Isso exige investimento em casas de acolhimento, que ofereçam proteção real para mulheres em risco, permitindo que elas saiam do ambiente de violência com segurança e dignidade. Exige também políticas efetivas de inclusão no mercado de trabalho, para que essas mulheres não sejam empurradas de volta para a dependência do agressor.

Sem autonomia, não há liberdade. Sem proteção, não há escolha.

O que vemos hoje em Mato Grosso não é falta de diagnóstico. É falta de prioridade.

E isso precisa mudar.

Com urgência. Com responsabilidade. E com coragem para enfrentar, inclusive, aqueles que tentam normalizar o inaceitável.

Dra. Natasha Slhessarenko é médica, servidora pública e empresária em Mato Grosso.

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