23 de Abril de 2026
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Artigos Quinta-feira, 23 de Abril de 2026, 14:37 - A | A

Quinta-feira, 23 de Abril de 2026, 14h:37 - A | A

Williamon da Silva Costa*

Quando o espetáculo falha e vira fiasco

Por Williamon da silva Costa*

O que se viu mais uma vez em Várzea Grande foi a tentativa previsível de transformar expectativa e curiosidade pública em capital político, sem a menor sustentação concreta. Criou se um ambiente artificial de antecipação, alimentado por declarações inflamadas e pela promessa de um “grande fato” contra a gestão da prefeita Flávia Moretti. No fim, o roteiro não se sustentou. A tão anunciada “bomba atômica” revelou se apenas um pequeno buscapé, virando um fiasco.

Toda essa encenação foi construída sobre a circulação de supostos áudios atribuídos à prefeita, explorados à exaustão para gerar desgaste político. Trechos soltos, frases de efeito e insinuações graves passaram a circular como se fossem prova definitiva de irregularidades, com menções a suposto tráfico de influência e vantagens indevidas, o famoso e velho conhecido “pacuzinho”. O problema é evidente: não há conteúdo integral, não há origem comprovada, não há contexto e não há validação técnica oficial. Ainda assim, tentou se transformar fragmento em sentença e repetição em verdade.

É justamente aqui que a atuação do presidente da Câmara, Wanderley Cerqueira, se torna o problema central da história. Em vez de agir com responsabilidade institucional, optou por conduzir um espetáculo político baseado em insinuações, elevando o tom sem apresentar o mínimo de lastro probatório. A estratégia é conhecida: cria se o fato, amplifica se o ruído e tenta se colher dividendos políticos, que nesse caso seria a cadeira de prefeito via tapetão.

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Nesse ambiente, também se observa a atuação de um grupo de jornalistas, sites e influencers que, na prática, operam de forma alinhada e coordenada para a amplificação dessas narrativas contra o Executivo. Não se trata de questionar a imprensa livre, essencial à democracia, mas de reconhecer que a divulgação reiterada de conteúdo sem verificação, com recortes e forte carga opinativa, acaba produzindo um efeito de ataque coordenado à gestão e a seus aliados. O resultado é a disseminação de instabilidade, tensionamento permanente e um debate público contaminado por versões que nem sempre encontram respaldo em fatos comprovados.

O efeito prático disso é perverso para a população: a administração pública passa a gastar tempo e energia respondendo a crises artificiais, emitindo notas, prestando esclarecimentos e reagindo a acusações ainda não comprovadas, em vez de concentrar esforços na execução de políticas públicas e na entrega de resultados à população. Cria se um ciclo improdutivo em que o ruído pauta a agenda e a gestão é constantemente desviada de suas funções essenciais.

Importa lembrar que esse embate entre Wanderley Cerqueira e Flávia Moretti não é recente. Inclusive uma queixa crime já foi encaminhada ao Ministério Público envolvendo o parlamentar, sob alegações de violência política de gênero e manifestações consideradas inadequadas ao discurso público, inclusive com interpretações de conotação sexual. O próprio vereador sustenta que se trata de expressão de cunho regional.

Ainda assim, esse tipo de controvérsia já passou a integrar o histórico recente do ambiente político local e não pode ser tratado como fato isolado. O que se observa, a partir de episódios sucessivos, é um padrão de comportamento em que, sobretudo, na interação com mulheres, independentemente do cargo que ocupem, há recorrência de elevação do tom, tensão desnecessária no ambiente e substituição do debate técnico por ironia, deboche e rispidez.

E tudo isso acontece justamente no mesmo cenário em que o país passou a reforçar, com a chamada lei de combate à misoginia na esfera pública, a necessidade de coibir condutas que desqualifiquem ou intimidem mulheres em espaços institucionais. Na prática, enquanto o discurso oficial evolui no papel, o comportamento político em alguns ambientes parece seguir operando como se nada tivesse mudado, como se a norma existisse apenas para compor coletiva, discurso de ocasião, sob a desculpa de ser um regionalismo.

O presidente da Câmara optou por direcionar ataques a uma jornalista no exercício regular de sua função ao invés de apresentar provas ou esclarecimentos objetivos sobre o fato denunciado. Quando alguém ocupa um cargo público e escolhe responder a questionamentos com hostilidade, especialmente quando essa hostilidade recai sobre uma mulher em ambiente profissional, o que se evidencia não é força política, mas falta de argumento e tentativa de intimidação, o que não se coaduna com o exercício responsável da função pública.

Mas o problema não se limita a uma figura do legislativo. A Câmara de Vereadores, como instituição, tem assistido a esse desvio de finalidade criado por alguns vereadores em silêncio. Em vez de legislar e fiscalizar com responsabilidade, opta se por convocar coletivas, alimentar crises e criar um ambiente que se aproxima de uma caça às bruxas. Estrutura pública e tempo institucional são utilizados para produzir espetáculo político, enquanto pautas estruturais seguem negligenciadas.

Nesse cenário, a fala da vereadora Gisa Barros segue a mesma lógica de amplificação sem sustentação. Ao criticar a rotatividade de secretários da gestão, ignora se um ponto básico: a nomeação e exoneração de auxiliares diretos é prerrogativa do chefe do Executivo. Trata se de ferramenta legítima de gestão, utilizada para corrigir rumos e buscar eficiência. Não há ilegalidade nisso.

Da mesma forma, ao mencionar uma suposta oferta de secretaria como moeda de troca, levanta se uma acusação grave sem apresentação de prova concreta ou de denúncia formal no momento oportuno. Se havia irregularidade, por que não foi formalizada imediatamente?

É preciso restabelecer o básico: sigilo de fonte não legitima conteúdo duvidoso. A Constituição protege a atividade jornalística, mas não autoriza a circulação de material sem verificação. No caso dos áudios, a ausência de perícia oficial impede qualquer conclusão séria sobre autenticidade e contexto. Recortes não são evidência. Narrativas não substituem provas.

Também não é aceitável transferir exclusivamente à parte atingida o ônus de buscar o Judiciário. O direito brasileiro não atua apenas de forma reativa, ele também estabelece limites prévios para evitar abusos. Se os áudios são legítimos, que sejam submetidos à perícia, ao contraditório e ao devido processo legal. Caso contrário, permanecem no campo da especulação.

No fim, o padrão se repete: cria se o fato, eleva se o tom, promove se o debate nas redes e, quando chega o momento de sustentar o conteúdo, resta apenas ruído. E ruído, por mais alto que seja, não substitui prova.

Decisões judiciais, quando existirem, devem ser cumpridas. Mas não são construídas com base em especulações ou narrativas sensacionalistas, e sim em provas concretas e reais. E é exatamente isso que, até agora, não foi apresentado.

No fim das contas, quem julga e decide o mérito da questão é o Poder Judiciário, com base em provas, não em versões. Sentença não se discute, se cumpre.

E se há tanta convicção por parte de alguns vereadores que hoje atuam como promotores informais do debate público, fica a pergunta óbvia: por que não formalizam uma denúncia e submetem seus próprios argumentos ao escrutínio da Justiça?
Fica a reflexão.

*Williamon da silva Costa é acadêmico de direito.

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