Por Edina Araújo*
Suicídio é coragem ou covardia? Nenhum dos dois. É desespero.
É o ponto extremo de um sofrimento que, muitas vezes, começou silencioso. Uma dor que foi crescendo por dentro enquanto, por fora, a vida aparentemente continuava normal. Quem chega a esse limite não precisa de julgamento. Precisa ser visto, ouvido, acolhido e, sobretudo, ajudado.
Setembro é marcado, em todo o país, pela campanha Setembro Amarelo, dedicada à conscientização e à prevenção do suicídio. O dia 10 de setembro, Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, é o principal marco da mobilização.
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A cor amarela ficou associada ao movimento a partir da história de Mike Emme, jovem norte-americano que morreu por suicídio em 1994 e era conhecido por seu Mustang amarelo. Após sua morte, familiares e amigos distribuíram mensagens de apoio acompanhadas por fitas amarelas, incentivando pessoas em sofrimento a pedir ajuda. No Brasil, a campanha Setembro Amarelo começou em 2015.
Mas falar sobre prevenção exige ir além de uma cor no calendário.
Suicídio não é coragem. Também não é covardia. É o desfecho possível de um sofrimento psíquico profundo, que pode estar associado à depressão, à ansiedade e a outros transtornos e situações de extrema vulnerabilidade emocional.
Quando esse sofrimento avança, a percepção sobre os problemas pode se estreitar. É como se uma lupa fosse colocada sobre a dor: ela cresce, ocupa todos os espaços e dificulta enxergar aquilo que existe além dela. O que para quem está de fora parece ter solução pode, para quem está vivendo aquele momento, parecer insuportável e definitivo.
É justamente aí que mora o perigo: quando a dor parece maior do que qualquer possibilidade de futuro.
E o mundo em que vivemos nem sempre ajuda.
A agitação do dia a dia, a cobrança permanente por sucesso, dinheiro, beleza e reconhecimento, somada à influência das redes sociais, pode alimentar comparações e frustrações. Na tela, todos parecem felizes, bonitos, realizados, viajando, conquistando e vencendo. Quase ninguém posta a solidão, o medo, a angústia, as dívidas, os fracassos ou as noites em que não consegue dormir.
Há ainda quem procure preencher vazios nas apostas, nas bets, no consumo excessivo ou em outros comportamentos compulsivos. Busca-se do lado de fora alguma coisa capaz de silenciar aquilo que dói por dentro.
E, enquanto isso, vamos nos afastando de nós mesmos.
Vivemos no modo automático. Corremos o dia inteiro e, quando finalmente paramos para uma refeição, continuamos presos ao celular. Conversas foram substituídas por curtidas. Antes de comer ou tomar uma taça de vinho, muitas vezes é preciso fotografar, postar e mostrar.
O momento que deveria simplesmente ser vivido se transforma em vitrine.
Mas não é preciso provar aos outros que você está feliz.
É preciso conseguir sentir a vida quando ninguém está olhando.
A felicidade não deveria depender de curtidas, aplausos ou da aprovação de quem acompanha uma tela. Precisamos de objetivos e razões para seguir em frente, mas não para impressionar os outros. Precisamos construir uma vida que faça sentido para nós mesmos.
Por isso, de vez em quando, pare.
Olhe para você.
Pergunte a si mesmo como realmente está. Não como aparenta estar. Não como gostaria que os outros acreditassem que está. Mas como está quando o celular é desligado, quando a porta se fecha e quando não existe ninguém para impressionar.
Cuidar de si não é egoísmo.
É como a orientação dada dentro de um avião em caso de despressurização: coloque primeiro a máscara de oxigênio em você e somente depois ajude quem está ao seu lado. Existe uma razão para isso. Se você não conseguir respirar, dificilmente terá condições de salvar outra pessoa.
Na vida também é assim.
Se você sente um vazio que parece não terminar, se perdeu o interesse pelas coisas que antes lhe davam prazer ou se acredita que a vida perdeu o sentido, procure ajuda. Não tente carregar tudo sozinho.
Problemas não desaparecem porque alguém diz que são pequenos. Para quem está sofrendo, eles podem ser enormes. Mas dividir essa carga com alguém pode mudar a forma de enfrentá-los.
Pense em uma mudança de casa. Ninguém carrega uma geladeira, um fogão, um sofá e um armário ao mesmo tempo. Algumas coisas exigem mais de uma pessoa. Outras precisam ser transportadas uma de cada vez.
Com a vida não é diferente.
Há pesos que não foram feitos para serem carregados sozinhos.
Pedir ajuda não diminui ninguém. Ao contrário: pode ser o primeiro movimento para reencontrar uma saída que, naquele momento, a dor não permite enxergar.
Por isso, neste Setembro Amarelo, mais importante do que publicar uma mensagem é prestar atenção em quem está perto. Ouvir sem julgar. Perceber mudanças de comportamento. Levar a sério um pedido de socorro, mesmo quando ele parece disfarçado de brincadeira, silêncio ou isolamento.
E, principalmente, lembrar que ninguém deveria precisar chegar ao limite para ser ouvido.
Suicídio não é coragem. Não é covardia. É desespero.
E o desespero precisa encontrar acolhimento antes de encontrar o silêncio.
*Edina Araújo, jornalista e diretora do VGNOTICIAS.
Precisa de ajuda?
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. Também há atendimento por chat e outros canais no site do CVV. Em situação de emergência ou risco imediato, procure um serviço de saúde ou ligue para o SAMU, pelo 192.







