O médico Euller Preza, que conduzia a cirurgia plástica durante a qual Lurdes Maria de Lima Pessoa Padilha, de 24 anos, morreu no dia 16 de outubro, em Cuiabá, publicou neste domingo (25) um vídeo de cerca de 15 minutos nas redes sociais. É a primeira manifestação dele desde a morte. O cirurgião descreve a sequência da intercorrência no Hospital Geral e Maternidade e admite que não fez residência médica e não tem Registro de Qualificação de Especialista (RQE). "O fato de eu não ter feito residência não é causa da morte dessa paciente", afirmou.
"A intercorrência aconteceu no final do procedimento, no final da cirurgia", disse o médico. Segundo o relato, a prótese mamária já tinha sido colocada, a lipoaspiração do abdômen e das laterais estava concluída e a tecnologia de plasma de argônio já tinha sido aplicada. A paciente então foi virada de bruços para a lipoenxertia nos glúteos. A equipe estava na fase final da lipoescultura das costas quando a anestesista percebeu uma queda súbita da saturação de oxigênio, interrompeu a cirurgia e pediu que as conexões fossem verificadas.
Euller contou que parou o que fazia na hora. A pedido da anestesista, ele mesmo virou Lurdes de barriga para cima, para melhorar a ventilação. Logo depois, a anestesista avisou que a paciente tinha parado. O médico disse que começou a reanimação imediatamente e que a equipe seguiu o protocolo de suporte avançado de vida. Segundo ele, havia mais de cinco médicos de várias especialidades na sala, inclusive de cirurgia cardíaca. Foram feitas gasometrias seriadas e desfibrilações quando havia indicação. "Ela voltou por duas vezes, mas não resistiu", afirmou. A paciente morreu depois de mais de duas horas de reanimação.
O cirurgião relatou que, durante a reanimação, não conseguiu avisar a família pessoalmente e pediu que outra pessoa comunicasse a intercorrência. Segundo ele, nenhum parente de Lurdes estava no hospital, apenas uma amiga próxima, e o marido foi chamado com urgência. "Infelizmente, quando ele chegou, a paciente já tinha ido a óbito", disse. Euller contou que foi ele quem deu a notícia ao marido, a quem descreveu como pessoa de sua convivência social, assim como Lurdes, a quem chamou de amiga. Ele definiu o momento como uma sensação de impotência e frustração.
O médico confirmou que foi agredido dentro do hospital, mas afirmou que o agressor não foi o marido nem o irmão da paciente. "Eu não guardo rancor nem mágoas, porque eu sei da dor da perda. Eu sei que ele estava enlutado e estava fora de si no momento", disse. Segundo Euller, depois disso ele passou a receber ameaças de morte, contra ele e a família, por WhatsApp e pelas redes sociais. O boletim de ocorrência que registrou, segundo o vídeo, trata dessas ameaças e "não tem nada a ver com a agressão física". A nota divulgada pela defesa no dia da morte dizia que tanto a agressão quanto a ameaça tinham sido registradas no boletim.
Ao tratar da formação, o médico foi direto. "Eu realmente não tenho RQE", disse. "Eu não fiz residência médica, eu fiz pós-graduação, que é um dos muitos caminhos de formação do médico, mas não sou desabilitado a fazer qualquer tipo de cirurgia." Ele afirmou que nunca passou às pacientes a impressão de ter o registro e que todas as suas certificações têm reconhecimento do Ministério da Educação (MEC). Disse também ter certeza de que o laudo não vai apontar a ausência do RQE como causa da morte.
Euller se apresentou como cuiabano, formado em 2004 pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), com mais de 20 anos de formação e mais de 2 mil cirurgias. A nota da defesa divulgada no dia da morte falava em mais de 25 anos de trabalho. O médico disse ser membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e do Colégio Brasileiro de Cirurgia Plástica (CBCP). Explicou que não integra a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) porque a entidade só aceita médicos com RQE.
Pela legislação, o título de especialista que dá direito ao RQE só é obtido por residência médica credenciada pela Comissão Nacional de Residência Médica ou por certificação de sociedade de especialidade ligada à Associação Médica Brasileira, que em cirurgia plástica é a SBCP. Certificados de pós-graduação lato sensu, mesmo reconhecidos pelo MEC, não dão direito ao registro. Sem o RQE, o médico não pode se anunciar como especialista, mas a Lei 3.268/1957 permite que faça cirurgias.
O cirurgião afirmou que todos os hospitais onde opera têm UTI e banco de sangue. Disse ainda que mais de 200 pacientes publicaram mensagens em sua defesa nas redes sociais e que, diante do volume de cirurgias, as insatisfações registradas estão dentro dos parâmetros estatísticos. "Eu quero provar para todos que não houve erro médico, que não houve culpabilidade do meu ato cirúrgico", declarou.
Euller criticou a cobertura do caso e disse que a imprensa não respeitou a família nem ele. "A mídia e todos nos pintam como monstros, e nós somos seres humanos", afirmou. Contou que ficou recolhido em casa nos últimos dias e que quer retomar o contato com os familiares de Lurdes o mais rápido possível. "Estou aqui à disposição para conversar, para explicar e para chorar junto também", disse.
No fim do vídeo, o médico lembrou um acidente aéreo que sofreu em setembro de 2005, durante o resgate de gêmeos recém-nascidos. Segundo ele, ficou mais de 20 horas na mata com a coluna fraturada e precisou de cuidados de terceiros por sete meses antes de voltar a trabalhar. Disse que vai se reerguer e continuar operando. "A primeira vez que acontece isso na minha carreira", afirmou sobre a morte da paciente.
Lurdes era casada e deixou dois filhos. A Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) informou que a causa da morte segue indeterminada e depende de exames complementares. A Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) aguarda os laudos para definir se o caso será investigado como homicídio doloso ou culposo. O Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT) apura a conduta do médico em sindicância sigilosa.
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