Cuiabá registrou 38,6 graus nesta terça-feira (25), e a previsão para a capital aponta máximas em torno dos 40 graus até o início da próxima semana. Nesse cenário, um problema costuma aparecer com atraso nos consultórios: o cálculo renal, a popular pedra nos rins, que se forma quando o corpo perde líquido pelo suor e pela respiração sem que a reposição acompanhe a perda.
O nefrologista Jonathan Feroldi, coordenador da linha de cuidados em clínica médica do Hospital Santa Rosa, explica que a desidratação é o elo entre o calor e a formação das pedras. Com menos água disponível, os rins produzem um volume menor de urina, e o que está dissolvido nela fica mais concentrado. "Substâncias normalmente presentes na urina, como cálcio, oxalato e ácido úrico, ficam mais concentradas e podem se agrupar, formando pequenos cristais. Esses cristais podem crescer progressivamente até originar uma pedra", diz.
A comparação que ele usa é doméstica. É como dissolver a mesma quantidade de sal em volumes cada vez menores de água até a solução saturar e começar a precipitar. No rim acontece algo parecido, e quanto menor o volume urinário, maior a chance de o cálculo se formar e crescer.
O calor não empurra uma pedra já existente, mas períodos quentes aparecem associados a mais casos de cólica renal. Um estudo publicado em 2020 no Jornal Brasileiro de Nefrologia analisou cidades brasileiras de clima tropical e subtropical e encontrou associação positiva entre a elevação das temperaturas e o número de internações por nefrolitíase. O médico afirma perceber o mesmo movimento no atendimento, com aumento da procura por sintomas urinários nos meses mais quentes, embora faça a ressalva de que se trata de percepção clínica e de que os casos não se limitam a essa época.
Boa parte do problema fica invisível por muito tempo. A pedra pode permanecer no rim por anos sem dar sinal e só provocar dor quando desce para o ureter, o canal que leva a urina até a bexiga.
Não existe uma quantidade de água válida para todo mundo. A necessidade muda conforme peso, atividade física, exposição ao calor, intensidade da transpiração e condições de saúde. Como orientação geral de prevenção, o nefrologista recomenda de 2,5 a 3 litros de líquidos por dia, de preferência água, com volume maior para quem trabalha ao ar livre ou se exercita sob sol forte. A cor da urina serve como pista auxiliar: amarelo-clara e transparente ao longo do dia sugere hidratação adequada; pouco volume e tom escuro depois de horas no calor indicam reposição insuficiente. O sinal não vale sozinho, já que medicamentos, vitaminas, alimentação e algumas doenças alteram a coloração.
Na alimentação, o alvo é o sódio. O consumo excessivo de sal aumenta a eliminação de cálcio pela urina e favorece a formação de pedras em quem tem predisposição. Os ultraprocessados entram na conta mesmo quando não têm gosto salgado, pela quantidade de sódio na composição.
Já cortar leite e outras fontes naturais de cálcio, prática comum entre quem já teve cálculo, pode produzir efeito contrário. O cálcio consumido nas refeições se liga ao oxalato ainda no intestino. Reduzido em excesso, sobra oxalato livre para ser absorvido e depois eliminado pela urina, o que eleva o risco de cálculo de oxalato de cálcio. Suplementos de cálcio, com ou sem vitamina D, exigem avaliação individual de indicação, dose e horário.
Quando a crise chega, ela não passa despercebida. A dor surge de repente, forte, na região lombar e quase sempre de um lado só, podendo irradiar para a parte baixa do abdome, virilha ou região genital, acompanhada de náusea, vômito ou sangue na urina. Um detalhe ajuda a diferenciar de dor muscular: o paciente não consegue ficar parado nem encontrar posição que alivie.
Alguns sinais pedem pressa. Dor lombar intensa com febre e calafrios pode indicar infecção somada à obstrução causada pela pedra. "Um rim obstruído e infectado é uma emergência urológica e, em alguns casos, necessita de abordagem urgente", alerta o médico. Queda importante do volume de urina, dor que não cede com analgésico, vômitos persistentes, piora do estado geral ou queda de pressão também exigem atendimento imediato. Pessoas com apenas um rim, gestantes, pacientes imunossuprimidos e quem já tem doença renal precisam de atenção redobrada.
A avaliação inicial costuma envolver exames de sangue e urina e, entre os de imagem, a ultrassonografia, que dispensa radiação e identifica cálculos, dilatação do sistema urinário e sinais indiretos de obstrução. A tomografia entra quando há dúvida diagnóstica ou é preciso precisar tamanho, localização e grau de obstrução. Para quem repete episódios, a investigação continua depois que a dor passa, com estudo metabólico que inclui análise da urina coletada em 24 horas. Se o paciente elimina a pedra, a composição dela ajuda a definir a prevenção.
Para quem já teve cálculo, o médico resume o cuidado em distribuir a água ao longo do dia, cortar sal e ultraprocessados e evitar excesso de proteína. "Principalmente em uma região quente como a nossa, hidratação precisa virar hábito. E falo isso não apenas como nefrologista, mas também como alguém que teve cálculo renal", afirma.
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