Um peixe de 15 centímetros que viveu num lago do sudeste de Mato Grosso há 254 milhões de anos foi identificado como uma espécie até então desconhecida. Batizado de Leolepis matogrossensis, o animal foi descrito a partir de um único fóssil encontrado a cerca de 50 quilômetros da cratera de Araguainha, a maior estrutura de impacto de asteroide da América do Sul.
O fóssil foi coletado em 2005 pelo geólogo Léo Adriano de Oliveira e permaneceu por duas décadas na coleção paleontológica da Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá, até ser analisado por pesquisadores do Museu de História Natural de Londres e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O nome do gênero é uma homenagem ao geólogo, combinado com a palavra grega para escama.
O exemplar está quase inteiro. Peixes dessa idade encontrados no Brasil costumam aparecer em fragmentos, como dentes, escamas ou partes de ossos. A conservação permitiu aos pesquisadores examinar crânio, mandíbulas e escamas e comparar o animal com outras espécies antigas. Segundo o estudo, é o peixe do Permiano mais bem preservado já encontrado no estado.
As escamas eram formadas por dentina e esmalte, os mesmos materiais dos dentes humanos, e funcionavam como proteção. Os dentes pequenos indicam alimentação à base de pequenos invertebrados e vegetais. O animal vivia em um grande corpo de água doce que cobria parte do interior do continente, na Bacia do Paraná.
O peixe viveu cerca de dois milhões de anos antes da extinção Permo-Triássica, o maior evento de extinção já registrado na Terra, que eliminou a maior parte das espécies terrestres e quase todas as marinhas. A cratera de Araguainha, aberta pelo impacto de um asteroide de dois a três quilômetros de diâmetro, é praticamente da mesma época. Os autores afirmam, porém, que o peixe viveu antes da colisão e que as rochas onde o fóssil foi encontrado não sofreram alteração direta pelo impacto, embora formações vizinhas tenham sido deformadas.
O Leolepis pertence ao grupo dos actinopterígios, de nadadeiras raiadas, que hoje reúne cerca de 96% dos peixes ósseos, entre eles atum, salmão e bacalhau. Registros continentais desse grupo no Paleozoico sul-americano são escassos. O exemplar poderá servir de referência para identificar a mesma espécie em outros pontos da Bacia do Paraná. O estudo foi publicado em julho, em acesso aberto, no Journal of South American Earth Sciences.
A cratera de Araguainha fica na divisa com Goiás e tem 40 quilômetros de diâmetro. É uma das poucas do mundo inteiramente preservadas e integra a lista dos cem sítios de patrimônio geológico da União Internacional das Ciências Geológicas. O município de Araguainha, que dá nome à estrutura, tem 1.006 habitantes e é o quarto menor do Brasil em população.
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