A operação do Núcleo de Ações de Competência Originária (Naco), do Ministério Público de Mato Grosso, que cumpriu 12 ordens judiciais na sexta-feira (25) em Pontes e Lacerda, chegou a uma gestão que já era alvo do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT). O ex-prefeito Alcino Pereira Barcelos (PL), candidato a deputado estadual, responde a duas tomadas de contas especiais abertas pela corte, que somam um possível prejuízo de cerca de R$ 2,7 milhões ao município.
A primeira foi determinada em dezembro de 2025 pelo conselheiro Waldir Júlio Teis, a partir de representação interna da Segunda Secretaria de Controle Externo. A área técnica identificou sobrepreço de até 64,4% em seis pregões eletrônicos para contratação de motoristas terceirizados para as secretarias de Educação, Saúde e Assistência Social, realizados entre 2017 e 2024, com dano estimado em R$ 2.223.583,77. O relatório apontou falhas desde a fase preparatória, como a ausência de estudo técnico preliminar. No despacho, o conselheiro escreveu que a gravidade dos achados exigia a conversão em tomada de contas para quantificar o prejuízo e apurar responsabilidades.
A segunda tomada de contas, aberta no fim de agosto deste ano, trata de uma obra de drenagem urbana contratada em 2022 por R$ 1,46 milhão. Os técnicos do TCE encontraram medições e quantitativos incompatíveis com os serviços projetados e executados, com possível pagamento a maior de R$ 517.458,55, cerca de um terço do contrato. A defesa do ex-prefeito sustentou que a medição cabia aos responsáveis técnicos e que ele apenas ordenou as despesas com base nos documentos dos setores. O engenheiro fiscal do município reconheceu erro no cálculo do volume de aterro.
A empresa apontada pelo Naco como beneficiada nos contratos investigados, a Concretubos Pré-Moldados Ltda., consta no cadastro da Receita Federal como sociedade em recuperação judicial. Aberta em março de 2013 em Pontes e Lacerda, tem capital social de R$ 460 mil, atividade principal de construção de edifícios e foi excluída do Simples Nacional em maio de 2023. O quadro societário registra Rodrigo Borges Abate Gouveia, sócio-administrador desde fevereiro de 2021, e Zander Guedes Franco, sócio desde junho de 2024. Segundo o Ministério Público, a empresa firmou sete contratos com a prefeitura, cinco deles entre 2022 e 2023, no valor de R$ 4,7 milhões, ou R$ 5,78 milhões em valores atualizados.
A investigação também examina a compra da Estância Rancho Fundo I por Barcelos, negociada, segundo o Naco, com pagamento em 100 cabeças de gado nelore, sem registro oficial de movimentação pecuária compatível. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontaram movimentações consideradas atípicas. Na declaração de bens entregue à Justiça Eleitoral em 2026, o candidato informou patrimônio de R$ 19,23 milhões, contra R$ 2,41 milhões declarados na eleição de 2020.
Durante as buscas na casa do ex-prefeito, agentes apreenderam cerca de R$ 300 mil em dinheiro, uma arma sem munição, um computador e o celular. Em vídeo publicado nas redes sociais, Barcelos negou irregularidades, disse que o dinheiro estava no quarto e não escondido, afirmou que a arma é uma garrucha herdada do pai e questionou o momento da operação, a nove dias do primeiro turno. Ele também disse nunca ter respondido a processo. As tomadas de contas do TCE ainda não têm julgamento de mérito, e a apuração do Ministério Público está em curso. O primeiro turno é no dia 4 de outubro.
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