A reeleição do presidente da Câmara de Várzea Grande, Wanderley Cerqueira (MDB), seria o principal objetivo de uma suposta organização criminosa formada por vereadores e terceiros, segundo a decisão que autorizou a Operação Cathedra Venalis. Assinado pelo juiz Cássio Leite de Barros Netto, do Núcleo de Justiça 4.0 do Juiz das Garantias, em Cuiabá, o documento afirma que o grupo também buscaria formar maioria para pressionar pela cassação da prefeita Flávia Moretti (PL) e ter influência sobre o Departamento de Água e Esgoto (DAE) e sobre concessões públicas, principalmente o transporte coletivo operado pela União Transportes e Turismo. A operação foi deflagrada pelo Gaeco na terça-feira (20).
Os crimes investigados são concussão, extorsão, corrupção passiva, ameaça, falsidade e outros contra a administração pública. A apuração começou com uma denúncia anônima registrada no Ministério Público. A partir dela, o Gaeco fez diligências de campo e analisou dois relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Segundo a decisão, os relatórios mostram operações em dinheiro vivo, transferências sem causa aparente e movimentações incompatíveis envolvendo investigados, parentes, assessores, servidores e empresas.
No caso do DAE, a denúncia aponta interesse do grupo no controle da autarquia diante de uma possível concessão ou privatização. Isso poderia favorecer direcionamentos, loteamento de cargos e vantagens indevidas. Em depoimento, o vereador Caio Cordeiro afirmou que Wanderley teria falado em distribuir cerca de R$ 500 mil a cada vereador caso a privatização se concretizasse.
Uma testemunha com identidade protegida descreveu ao Gaeco o funcionamento do suposto esquema. Segundo ela, havia um pagamento mensal de R$ 10 mil a vereadores, chamado de "mensalinho", além de loteamento de cargos comissionados ligados à Mesa Diretora. A testemunha também relatou a retenção de cartas de renúncia assinadas em branco e o uso de gravações clandestinas para extorquir e chantagear parlamentares que resistissem ao grupo. A investigação reuniu ainda uma conversa em que um terceiro fala de pagamentos periódicos de R$ 10 mil a vereadores por intermédio da Câmara. O juiz registra que essa conversa é prova apenas declaratória e precisa ser confirmada por outros elementos.
O depoimento de Caio Cordeiro é um dos principais elementos da investigação. Ele relatou ter recebido de Wanderley oferta de R$ 100 mil pelo voto na eleição da Mesa e entregou ao Gaeco um aparelho eletrônico com 1.012 arquivos, entre notas promissórias, comprovantes, conversas e áudios. Outro elemento é o monitoramento de uma chácara no distrito da Guia, na véspera da votação de 14 de maio, que terminou com a abordagem de dois vereadores de Cuiabá com R$ 40 mil em dinheiro.
A decisão menciona também o uso de ônibus de uma concessionária de transporte público em um "Bazar Itinerante" promovido pela Presidência da Câmara. Consultada por ofício, a empresa negou ter cedido os veículos.
Para justificar a urgência das buscas, o juiz citou a falta de resposta da Mesa da Câmara a ofícios enviados pelo Ministério Público e a divergência sobre o uso de veículos em eventos. Na avaliação dele, havia risco de destruição ou ocultação de documentos e dados. Por isso, as medidas foram decididas sem ouvir os investigados antes.
O magistrado autorizou buscas em casas, veículos e na própria pessoa de 20 investigados, com apreensão de celulares, computadores, documentos, contratos, registros de nomeações e dinheiro sem origem comprovada. Também liberou a extração completa dos dados dos aparelhos apreendidos. Google, Microsoft e Apple devem preservar por 180 dias o conteúdo de e-mails e arquivos em nuvem dos investigados desde 1º de janeiro de 2024, sem avisar os titulares. O Gaeco tem 45 dias para cumprir as buscas e 72 horas, depois de cada uma, para entregar relatório ao juiz.
A decisão foi tomada em análise preliminar, própria da fase de investigação. Ninguém foi denunciado à Justiça.
Em nota, a Câmara de Várzea Grande afirmou que a sede não foi alvo de mandados e que as buscas nas casas de vereadores são apurações individuais. Wanderley disse na terça que desconhecia a operação e que a achava "muito estranha". O caso segue sob sigilo.
Confira as últimas notícias do Fatos (CLIQUE AQUI)







