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Artigos Sexta-feira, 10 de Abril de 2026, 13:44 - A | A

Sexta-feira, 10 de Abril de 2026, 13h:44 - A | A

Jalme Santana*

Escolas cívico-militares e o sentido da disciplina

Por Jalme Santana*

Nos últimos dias, uma declaração do atual governador de Mato Grosso trouxe à tona um debate que precisa ser enfrentado com seriedade: a intenção de ampliar o modelo cívico-militar para todas as escolas do estado. Segundo o próprio anúncio, a nova secretária assume com a missão de “ouvir todas as comunidades escolares” e, ao mesmo tempo, avançar na implementação desse modelo, que já está presente em mais de 200 unidades da rede. A justificativa parece simples: disciplina, hierarquia e respeito. Mas é justamente aí que mora o problema.Nos últimos dias, uma declaração do atual governador de Mato Grosso trouxe à tona um debate que precisa ser enfrentado com seriedade: a intenção de ampliar o modelo cívico-militar para todas as escolas do estado. Segundo o próprio anúncio, a nova secretária assume com a missão de “ouvir todas as comunidades escolares” e, ao mesmo tempo, avançar na implementação desse modelo, que já está presente em mais de 200 unidades da rede. A justificativa parece simples: disciplina, hierarquia e respeito. Mas é justamente aí que mora o problema.

Esses conceitos vêm sendo apresentados de forma reduzida, quase caricata, como se disciplina significasse obediência automática, hierarquia implicasse submissão e respeito se traduzisse em silêncio dentro da sala de aula. Essa leitura não apenas empobrece o debate educacional, como também revela um equívoco profundo sobre o próprio papel da escola.

Disciplina, em seu sentido formativo, não é obedecer sem questionar. É estabelecer metas, construir projetos e ter compromisso com sua realização. É começar e concluir processos com responsabilidade e autonomia. Não se trata de silenciar, mas de agir com propósito. Hierarquia, por sua vez, não pode ser confundida com imposição. Liderança legítima não se sustenta pelo medo, mas pelo reconhecimento. Ela se constrói na relação, na escuta e na capacidade de mobilizar coletivamente.

A própria história militar oferece exemplos que ajudam a pensar esse dilema. Relatos sobre a Guerra do Paraguai indicam situações em que decisões foram mantidas apenas para cumprir ordens previamente estabelecidas, mesmo diante de mudanças concretas no campo de batalha, com consequências negativas – como observado na batalha do Riachuelo, em junho de 1865. Mais do que o fato em si, o que importa é o princípio: obedecer não é o mesmo que agir com responsabilidade.

Em contraste, o Duque de Caxias, ao final do conflito da Guerra do Paraguai, estabeleceu limites éticos à continuidade da guerra, recusando-se a prolongar ações que já não se justificavam. Sua liderança não se afirmou pela obediência cega, mas pela capacidade de discernimento. O problema, portanto, não está na ideia de organização, mas na forma como ela é apropriada.

Quando disciplina vira silêncio, hierarquia vira submissão e respeito vira medo, a escola deixa de ser espaço de formação e passa a operar como mecanismo de controle. A escola não é, nem pode ser, um espaço de adestramento. Ela é, antes de tudo, um lugar de produção: de conhecimento, de pensamento, de cultura e de projetos de vida. É onde estudantes constroem experiências em robótica, ciência, arte, esporte, música e debate democrático. É onde se aprende a conviver com o diferente, a argumentar, a errar e a recomeçar.

É nesse ambiente que a disciplina ganha sentido: como compromisso com o fazer. É aí que a hierarquia se legitima: pela responsabilidade compartilhada. É assim que o respeito se constrói: no exercício democrático diário. Transformar escolas em espaços de silêncio pode até produzir uma ordem aparente, mas dificilmente produzirá formação humana de qualidade. E esse é um risco que não pode ser naturalizado. 

*Jalme Santana de Figueiredo Junior é professor de Geografia na EE Profº Fernando Leite de Campos, Doutor em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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