19 de Março de 2026
00:00:00

Artigos Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2026, 08:17 - A | A

Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2026, 08h:17 - A | A

Jalme Junior*

Imperialismo dos Estados Unidos e a sabedoria pantaneira

Por Jalme Santana de Figueiredo Junior*

Em 1817, ocorreu no Brasil a Revolução Pernambucana, uma tentativa de insurreição contra o domínio da Coroa portuguesa. Poucos anos depois, em 1825, já sob a forma de Império independente, o Brasil se envolveu na Guerra da Cisplatina contra as Províncias Unidas do Rio da Prata, conflito que resultou na independência do Uruguai e gerou profunda crise econômica e política interna. Some-se a esses eventos a Guerra do Paraguai, deflagrada a partir de 1864, que, além de contribuir para o desgaste do regime monárquico e para a queda de Dom Pedro II, teve impactos decisivos na formação econômica e social de Mato Grosso, e, de modo particular, do município de Várzea Grande.

Mais do que marcos históricos isolados, esses episódios compartilham um elemento comum frequentemente negligenciado: a presença direta ou indireta dos Estados Unidos da América no redesenho político da América do Sul. Sob o auspício da Doutrina Monroe, proclamada em 1823, os Estados Unidos passaram a atuar estrategicamente na região, defendendo seus interesses econômicos, políticos e geopolíticos. Essa lógica foi amplamente analisada pelo cientista político brasileiro Moniz Bandeira, que demonstrou como a política externa norte-americana construiu, ao longo dos séculos XIX e XX, mecanismos de intervenção, influência e controle no continente.

O ano de 2026 iniciou com novos e intensos movimentos dos Estados Unidos no cenário da América do Sul. A operação que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro reacendeu um alerta que, para o senso comum, parecia restrito aos livros didáticos ou a roteiros de filmes caricatos: a atuação ativa e, muitas vezes, coercitiva do governo dos Estados Unidos no mundo. Trata-se de um episódio ainda em disputa no campo diplomático e jurídico internacional, mas que, independente das posições assumidas, recoloca na agenda pública o debate sobre soberania, imperialismo e hegemonia. As relações internacionais são complexas e não comportam análises simplistas. O movimento do capital em escala global transforma paisagens, reorganiza economias e produz territórios de diferentes naturezas.

Com efeito, talvez o Brasil tenha muito a aprender com a sabedoria do pantaneiro. Povo trabalhador, forjado na lida do campo, do comércio e das cheias do Pantanal, o pantaneiro integra a formação histórica do Vale do Rio Cuiabá e nos ensina três lições fundamentais para interpretar o cenário internacional: memória, observação e paciência.

Memória, porque aquilo que frequentemente se apresenta como novidade costuma ser apenas a reedição de velhas estratégias. Observação, para compreender o contexto construído a partir dos atores sociais, dos interesses econômicos e das movimentações políticas em curso. E paciência, para reconhecer que, em geopolítica, agir antes da hora pode significar perder o jogo. O diplomata Sérgio Corrêa da Costa, em suas palestras e entrevistas costumava utilizar a metáfora da carapaça do caranguejo para explicar o movimento geopolítico dos Estados Unidos: conforme se alternam governos democratas e republicanos, mudam-se prioridades regionais, ora concentradas no Oriente Médio, ora voltadas para a América do Sul, sempre com o objetivo de sustentar uma hegemonia global. Observa-se, entretanto, que nos últimos anos, aquilo que parecia relativamente simples para o governo estadunidense tornou-se progressivamente mais complexo, custoso e instável. O domínio da narrativa internacional já não é absoluto e enfrenta resistências crescentes.

Quem sabe este seja, portanto, o momento da paciência. Como diria o pantaneiro, “o peixe morre pela boca” e “não se pode dar um pulo maior que a perna”. A ação estadunidense ganha novas proporções, interfere diretamente na Venezuela, sinaliza movimentos na Colômbia, em Cuba, no Canadá e até na Groenlândia. O cenário vai sendo construído, os atores políticos e sociais se movimentam, e a memória histórica precisa ser acionada para identificar o momento adequado de agir.

Os países europeus começam a se inserir nesse contexto de maneira ainda periférica, enquanto os países do BRICS demonstram certa apatia estratégica. Talvez, porém, este seja justamente o momento de aguardar o movimento decisivo, deixar o peixe fisgar a isca, para então, diante de uma nova correlação de forças, redesenhar o tabuleiro do jogo internacional. Caminhar assim, para a tão sonhada e desejada multilateralidade, que por muito tempo fora tratada como mero idealismo, mas que pode, finalmente, se apresentar como necessidade histórica.

Fontes consultadas:

Moniz Bandeira.  Presença dos Estados Unidos no Brasil. Livro, 2007.

Michael Martina; Trevor Hunnicutt e David Brunnstrom. Com a incursão na Venezuela, os EUA avisam a China para se manter longe das Américas. Reuters, 2026. Disponível em: <https://www.reuters.com/world/china/with-venezuela-raid-us-tells-china-keep-away-americas-2026-01-11/> Acesso em 12 de Janeiro de 2026.

*Jalme Santana de Figueiredo Junior, Professor de Geografia na EE Profº Fernando Leite de Campos, Doutor em Geografia pela Universidade Federal de Santana Catarina (UFSC)

Comente esta notícia

65 99690-6990 65 99249-7359

contato@fatosdematogrosso.com.br