01 de Fevereiro de 2026
00:00:00

Artigos Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2026, 15:44 - A | A

Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2026, 15h:44 - A | A

Janielly Camargo*

Neurodivergência não é doença, mas mantém adultos “invisíveis” no Brasil

Por Janielly Camargo*

A maneira como uma sociedade define o que é “normal” revela, de forma direta, quem ela escolhe incluir e quem decide excluir. No Brasil, apesar de avanços pontuais no discurso sobre diversidade, ainda predomina uma visão estreita sobre o funcionamento do cérebro humano. Tudo aquilo que escapa ao padrão neurotípico costuma ser rapidamente classificado como transtorno, déficit ou patologia. É nesse cenário que a afirmação precisa ser feita com clareza ética e política: neurodivergência não é doença, é diversidade humana.

O conceito de neurodivergência parte do reconhecimento de que existem múltiplas formas legítimas de perceber, aprender, processar informações e se relacionar com o mundo. Atualmente, o autismo e o TDAH são as neurodivergências mais conhecidas, mas existem várias outras, como dislexia, discalculia, disgrafia, dispraxia, síndrome de Tourette, altas habilidades/superdotação. Pessoas neurodivergentes não são “defeituosas” e nem precisam ser consertadas. O problema central não reside no indivíduo, mas em uma sociedade organizada a partir de normas tradicionalistas, rígidas, pouco flexíveis e estruturalmente excludentes.

Quando o debate sobre inclusão aparece, quase sempre se restringe à infância. Crianças neurodivergentes figuram em políticas educacionais, campanhas de conscientização e discursos institucionais. Fala-se em diagnóstico precoce, acompanhamento escolar e educação especial. No entanto, essa atenção desaparece à medida que essas crianças crescem. Adultos neurodivergentes seguem amplamente invisibilizados, como se suas necessidades deixassem de existir ao atingir a maioridade.

Essa invisibilidade não é casual. Ela expõe um Estado que não planeja trajetórias de vida, mas opera a partir de respostas fragmentadas e emergenciais. No Brasil, não existe uma política pública nacional consistente voltada à inclusão de adultos neurodivergentes no mercado de trabalho, no ensino superior, na qualificação profissional ou no acesso pleno aos serviços públicos. O resultado é um contingente expressivo de pessoas empurradas para o subemprego, a informalidade, o desemprego crônico ou a dependência familiar, não por falta de capacidade, mas por ausência de acessibilidade e adaptação institucional.

Os dados revelam a dimensão do problema no país. O Censo Demográfico de 2022 registrou 2,4 milhões de brasileiros diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA), cerca de 1,2% da população, além de 14,4 milhões de pessoas com deficiência em geral. Ainda assim, estima-se que cerca de 85% dos adultos autistas estejam fora do mercado formal de trabalho, não por ausência de qualificação, mas por processos seletivos excludentes, entrevistas padronizadas e ambientes inflexíveis, que penalizam formas diferentes de comunicação e interação.

No Mato Grosso, o quadro segue o mesmo padrão de exclusão silenciosa. Segundo o Censo, 41.247 mato-grossenses declararam diagnóstico de autismo, cerca de 1,1% da população do estado, com maior prevalência entre homens. Apesar disso, não há políticas estaduais estruturadas voltadas à vida adulta dessa população, que permanece à margem de bons empregos, públicos ou privados, e na maioria das vezes desempregada.

No ensino superior, a promessa de inclusão raramente se concretiza. Em nível nacional, apenas cerca de 7% das pessoas com deficiência concluem a graduação, contra quase 20% da população sem deficiência. No Mato Grosso, a desigualdade é ainda mais explícita: entre pessoas diagnosticadas com TEA, menos de 1% chega ao ensino superior, evidenciando barreiras institucionais, ausência de apoio pedagógico e falta de políticas de permanência. A evasão, nesses casos, não é fracasso individual, é consequência direta de um sistema que não se adapta à diversidade.

Na saúde pública, o abandono se repete. Embora o SUS seja universal em seu desenho, não há uma política estruturada para diagnóstico tardio e acompanhamento contínuo de adultos neurodivergentes. Muitas pessoas passam décadas sem compreender suas próprias características, internalizando culpa, inadequação e sofrimento. Não por acaso, quadros de ansiedade, depressão e burnout aparecem com frequência elevada, não como consequência da neurodivergência, mas da exclusão estrutural e da exigência permanente de adaptação forçada.

Incluir adultos neurodivergentes não é caridade, favor ou concessão moral. Trata-se de justiça social, direitos humanos e inteligência coletiva. Ambientes acessíveis, com comunicação clara, previsibilidade, flexibilidade e respeito às diferenças sensoriais beneficiam toda a sociedade, não apenas os neurodivergentes. Diversidade não é custo; é potência, criatividade e pluralidade de perspectivas.

O desafio, portanto, é mudar o paradigma. Inclusão não pode continuar significando o esforço individual para se encaixar em um sistema que rejeita a diferença. O caminho ético é o inverso: transformar o sistema para que ele acolha as pessoas como elas são. Isso exige políticas públicas permanentes e intersetoriais, formação de servidores, incentivos à inclusão no setor produtivo e, sobretudo, a participação ativa dos próprios adultos neurodivergentes na formulação das soluções.

Enquanto o Brasil seguir tratando a neurodivergência como um “problema da infância” ou como uma questão médica individual, continuará falhando com milhões de cidadãos. Reconhecer que neurodivergência não é doença é um passo fundamental, mas insuficiente se não vier acompanhado de ação estatal, compromisso político e mudança cultural da população, que ainda tem muito preconceito em procurar atendimento psicológico e psiquiátrico.

Uma sociedade verdadeiramente democrática não exige que seus cidadãos se encaixem à força. Ela se reorganiza para garantir que todos possam existir, trabalhar e viver com dignidade. E isso inclui, necessariamente, os adultos neurodivergentes que hoje permanecem à margem das políticas públicas, mas plenamente presentes na realidade social brasileira.

Enquanto o Brasil adia esse debate, milhões de adultos neurodivergentes seguem pagando o preço do silêncio institucional: talentos desperdiçados, trajetórias interrompidas e vidas empurradas para a margem. Não se trata de ignorância ou falta de dados, eles existem e são conhecidos. Trata-se de uma escolha. A exclusão dos adultos neurodivergentes no Brasil não é falha do sistema, é parte do seu funcionamento. E todo sistema que naturaliza a invisibilidade precisa, urgentemente, ser confrontado.

Que nossa sociedade abra os olhos logo para enxergar as neurodivergências!

*Janielly Camargo é Psicanalista, Bióloga e estudante de Jornalismo.

 

Comente esta notícia

65 99690-6990 65 99249-7359

contato@fatosdematogrosso.com.br