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Artigos Sexta-feira, 06 de Fevereiro de 2026, 16:46 - A | A

Sexta-feira, 06 de Fevereiro de 2026, 16h:46 - A | A

Williamon da Silva Costa*

Quando o corporativismo vale mais que o corpo de uma mulher?

Por Williamon da Silva Costa*

Sorriso, a joia reluzente do agronegócio mato-grossense, onde o PIB per capita galopa sobre a garupa da soja e reina o discurso da “família, da moral e dos bons costumes”. Um território que se orgulha do rigor moral, da ordem e da punição exemplar. Apesar da bonança financeira e do marketing da prosperidade, o município assiste, atônito, a uma escalada contínua da violência nas ruas. Para piorar, o crime deixou de ser apenas um problema externo e invadiu sorrateiramente as celas de uma delegacia local, protegido por um manto espesso de corporativismo machista e conivência institucional de alguns.

Foi nesse cenário de pujante e pomposo que a máscara caiu. Uma mulher, presa por engano pelo próprio Estado, foi violentada quatro vezes dentro de uma delegacia. Não em um beco escuro, não por um desconhecido, mas sob o teto da Polícia Judiciária Civil, o mesmo Estado que deveria garantir sua integridade física e psicológica. O horror não está apenas no estupro. Está no que veio depois: o silêncio.

E esse silêncio não é exceção. Ele prospera em um território onde a violência sexual já se tornou rotina estatística. Mato Grosso registra, em média, mais de sete estupros por dia, somando milhares de casos anuais entre estupro e estupro de vulnerável. São números oficiais e ainda assim incompletos. O próprio Estado admite que a subnotificação é regra: medo, vergonha, dependência econômica e descrédito nas instituições mantêm milhares de vítimas fora das estatísticas.

Sorriso, ironicamente, não aparece como ponto fora da curva, aparece como vitrine do problema. O município figura entre as cidades com maiores taxas proporcionais de estupro do Brasil, disputando rankings nacionais que nenhuma cidade deveria ostentar. Não se trata de episódios isolados ou “desvios individuais”, mas de um padrão estrutural: mulheres e meninas violentadas em um ambiente que vocifera moralidade em público e naturaliza a misoginia nos bastidores.

O contraste é obsceno. Enquanto o discurso oficial exalta prosperidade, ordem e família, os números revelam um território onde o corpo feminino segue sendo tratado como espaço disponível. Em Mato Grosso, a maioria esmagadora das vítimas de estupro são mulheres, muitas delas crianças e adolescentes. A violência começa dentro de casa, atravessa a rua e, como agora se escancara e invade até mesmo as dependências do Estado.

Diante de um crime dessa magnitude, seria razoável esperar uma resposta firme das autoridades. Mas onde está o governador Mauro Mendes, sempre tão rápido em posar de xerife quando o criminoso é um “Zé Ninguém”? Onde está o secretário de Segurança Pública, César Roveri, enquanto a própria SESP abriga um subordinado cujo DNA foi identificado nos exames periciais como o do agressor? O silêncio do alto escalão não é cautela institucional, é escolha política que chacota a cara da sociedade, especialmente das mulheres.

Mais constrangedora ainda é a postura da delegada-geral da Polícia Judiciária Civil, Daniela Maidel. Mulher à frente de uma corporação historicamente marcada por machismo estrutural, limitou-se a uma nota oficial fria, técnica, desprovida de empatia e indignação. Um comunicado que não protege vítimas, apenas protege a instituição. Quando uma mulher em posição de poder se omite diante da violência sexual cometida por seus pares, a omissão deixa de ser neutra: torna-se cumplicidade institucional.

Enquanto a cúpula se esconde atrás da burocracia, a delegada Layssa Crisóstomo, responsável pela presidência do inquérito, afirmou publicamente que já houve outras denúncias de estupro ocorridas em delegacias, mas que, após apuração interna, todas teriam sido classificadas como falsas. Segundo ela, este seria o primeiro caso em que se realizou exame pericial de material genético, com comprovação técnica do crime, levando a própria Polícia Judiciária Civil a representar pela prisão preventiva do investigado.

A afirmação, longe de tranquilizar, acende um alerta perturbador: estamos, de fato, diante de um caso inédito, ou apenas do primeiro que não conseguiu ser enterrado pelo corporativismo? Se somente agora a perícia foi realizada, quantos relatos anteriores foram descartados sem o devido rigor técnico? A pergunta que fica no ar não é retórica: trata-se de justiça tardia ou de um histórico silencioso de acobertamento entre pares?

Para agravar ainda mais o cenário, quem teve coragem de se posicionar publicamente, como mulher e como especialista no enfrentamento da violência contra a mulher, foi a delegada Jannira Laranjeira. Ao parabenizar a prisão do agressor e defender a aplicação da lei, fez exatamente o que se espera de uma autoridade comprometida com o Estado de Direito. A resposta, no entanto, não foi institucional: foi intimidação, praticada por um colega de corporação.

Mensagens atribuídas a um delegado de Sorriso, divulgadas pela própria delegada Jannira, prometiam que “a eleição passa, mas a ofensa fica” e decretavam uma “inimizade eterna”. Isso não é divergência administrativa. É ameaça velada. É o velho coronelismo travestido de distintivo, onde a crítica vira afronta pessoal e o cumprimento da lei se transforma em traição corporativa.

A engrenagem se revela por completo quando figuras já conhecidas por práticas de truculência se sentem à vontade para constranger colegas, relativizar estupro e exigir lealdade em nome de uma falsa “irmandade” corporativa. Aqui, o corporativismo não protege a instituição, protege o agressor e hostiliza mulheres da própria corporação que cumprem seu dever legal. O distintivo vira escudo, a cela vira cela de ouro, e a vítima é empurrada para a invisibilidade institucional. Não por acaso, após o crime, passou a ser publicamente tratada como “foragida” em novos episódios, numa narrativa conveniente que tenta deslocar o foco da violência sofrida para a suposta conduta da vítima. Convém lembrar o óbvio jurídico: mandado de prisão preventiva não define culpa, serve apenas para garantir a ordem processual; a culpabilidade só existe após o trânsito em julgado. O que se vê, portanto, não é zelo legal, mas uma estratégia recorrente de desconstrução moral da vítima de estupro, prática tão antiga quanto covarde.

E o silêncio atravessa o Centro Político Administrativo. Onde estão as manifestações do Tribunal de Justiça, da Procuradoria-Geral do Estado e do Ministério Público? O mutismo dessas instituições, muitas delas com mulheres em destaque, configura uma segunda violência moral. No Brasil, o roteiro é conhecido: nota oficial, afastamento remunerado, o caso some da imprensa e, meses depois, o agressor retorna discretamente à ativa. A pergunta permanece incômoda: haverá celeridade no Processo Administrativo Disciplinar ou apenas mais um capítulo de impunidade?

Nada disso ocorre em um vácuo social. O Brasil registrou mais de 83 mil casos de estupro em 2023, o maior número da série histórica. Casos recentes envolvendo agentes de segurança em diferentes estados escancaram uma realidade incômoda: quando quem deveria proteger se torna agressor, o Estado falha duas vezes, uma ao permitir o crime e outra ao tentar silenciá-lo.

Sorriso, portanto, não é exceção. É síntese. Um retrato cruel de um Mato Grosso que investe milhões em marketing, viaturas e armamentos, mas ainda é incapaz de fazer a faxina moral dentro de suas próprias instituições. Um lugar onde a moral é seletiva, o silêncio é cúmplice e a intimidação virou método.

Mato Grosso precisa decidir o que quer ser: um Estado de Direito, onde ninguém está acima da lei, ou um quintal do corporativismo, onde o poder serve para calar vítimas, intimidar denunciantes e proteger criminosos de dentro do sistema. Porque, quando o silêncio se torna regra, ele deixa de ser omissão.

Passa a ser método, e método, nesse caso, também é violência.

Para encerrar, fica um questionamento inevitável à sociedade mato-grossense, um incômodo que precisa ser enfrentado sem hipocrisia: se a vítima fosse filha do agro, filha de políticos ou filha de policiais, o tratamento dispensado teria sido o mesmo?

Ou a moral, mais uma vez, se provaria seletiva?

*Williamon da Silva Costa, estudante de direito.

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