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Artigos Segunda-feira, 16 de Março de 2026, 09:02 - A | A

Segunda-feira, 16 de Março de 2026, 09h:02 - A | A

Edina Araújo*

Quando o vazamento expõe o apêndice político

Por Edina Araújo*

Certa vez, um médico que, à época, também era prefeito de uma pequena cidade do interior de Mato Grosso e para quem eu prestava assessoria ao município, fez um desabafo que ficou gravado na minha memória. Aborrecido com a pressão de vereadores locais, resumiu sua frustração com uma metáfora cirúrgica. Disse que vereador é como apêndice. Um órgão inútil. Normalmente não serve para nada, mas, quando inflama, pode romper e causar uma infecção. Em seguida completou: “vereador não serve para nada, mas, quando resolve incomodar, ninguém aguenta”.

Confesso que essa frase me voltou à cabeça nos últimos dias, quando estourou o episódio envolvendo vereadores de Cuiabá. Em um grupo de WhatsApp, parlamentares se sentiram à vontade para falar horrores da imprensa. Áudios e mensagens que provavelmente acreditavam estar protegidos pelo conforto da informalidade digital acabaram vazando. O portal #vgn recebeu e publicou o material com exclusividade e, como era de se esperar, a repercussão foi imediata.

Até aí, nada de extraordinário. Vazamentos acontecem na política desde que a política existe. O que realmente chama atenção não é o vazamento. É a reação dos vereadores.

Em vez de fazerem o óbvio, que seria uma reflexão honesta sobre o próprio comportamento, preferiram fazer o que parte da classe política brasileira domina com impressionante habilidade. Procurar culpados. Sem provas, sem evidências, sem qualquer responsabilidade. Acusaram uma jornalista. Espalharam suspeitas. E, como se não bastasse, direcionaram a artilharia contra uma vereadora, aparentemente por considerarem que ela seria o elo mais fraco da corrente.

É difícil ignorar o odor político desse movimento. A atitude revela irresponsabilidade institucional e também algo ainda mais constrangedor. Um machismo quase automático. Afinal, segundo informações divulgadas, o grupo de WhatsApp era composto pelos 27 vereadores. Se houve vazamento, por que a suspeita recai imediatamente sobre uma mulher? Por que não poderia ter sido qualquer um dos vereadores homens? Quando faltam argumentos, o preconceito costuma surgir como último recurso.

Esse tipo de episódio ajuda a explicar por que a Câmara Municipal de Cuiabá já carregou, em tempos recentes, o incômodo rótulo de “Casa dos Horrores”. Sempre que parece haver algum esforço para recuperar a credibilidade institucional, surge um novo capítulo que reforça a impressão de que certos vícios políticos se reproduzem com notável resistência.

Convém lembrar o óbvio. A culpa não é da imprensa. A imprensa apenas cumpre o seu papel ao divulgar fatos de interesse público. A responsabilidade pelo conteúdo dos áudios pertence exclusivamente a quem os gravou. Foram os próprios parlamentares que disseram o que disseram. Nenhum jornalista colocou palavras na boca de ninguém.

Nos áudios, alguns vereadores demonstram coragem de sobra para atacar jornalistas dentro de um grupo privado. Ali, protegidos pela tela do celular, surgem os valentões da política municipal. Um deles chegou a incentivar os colegas a usar a tribuna para “detonar” a imprensa, acusando veículos de comunicação de receber dinheiro para criticá-los. São bravatas típicas de quem parece confundir mandato público com ringue de vaidades — ou de quem mede a imprensa pela própria régua.

A tribuna da Câmara, no entanto, não existe para esse tipo de espetáculo. Ela deveria servir ao debate público sério, à apresentação de propostas e à defesa concreta dos interesses da população.

Enquanto vereadores gastam energia tentando descobrir quem vazou áudios de WhatsApp, Cuiabá enfrenta problemas muito mais concretos. A cidade está cheia de buracos. O mato avança pelas ruas. A sensação de abandono cresce nos bairros. O cidadão comum não quer saber quem vazou mensagens de grupo. Quer saber quem está trabalhando para resolver os problemas da cidade.

Talvez fosse mais produtivo que esses parlamentares fizessem um exercício simples de autocrítica. Menos indignação performática e mais trabalho efetivo. Especialmente considerando que as acusações foram feitas pelos próprios vereadores com notável leviandade.

Aliás, fica aqui uma sugestão à imprensa. Que tal todos os veículos realizarem um levantamento detalhado dos projetos apresentados por cada vereador de Cuiabá? Quantos são realmente relevantes? Quantos saíram do papel? Quantos se transformaram em políticas públicas concretas? E quanto custou cada um deles ao contribuinte?

Esse tipo de transparência permitiria que a população enxergasse com mais clareza quem exerce o mandato com seriedade e quem apenas ocupa uma cadeira no plenário.

Porque, no fim das contas, a política deveria funcionar como um organismo saudável. Cada órgão tem uma função. Cada parte contribui para o funcionamento do todo.

O problema começa quando o apêndice inflama.

E, quando isso acontece, o risco de infecção aumenta — principalmente para quem paga a conta: o cidadão. Em tempo, convém torcer para que os vereadores não resolvam agora sair à procura do médico que um dia os comparou ao apêndice.

*Edina Araújo, jornalista e diretora do VGNOTICIAS.

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