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Cidades Quarta-feira, 23 de Setembro de 2026, 14:07 - A | A

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DRAMA DO CONSIGNADO

Professora detida em protesto diz que dívida com advogados a levou ao consignado

Ela conta que pegou R$ 25 mil para pagar a própria defesa e recebeu, meses depois, boleto de R$ 75 mil para quitar

Rojane Marta/Fatos de MT

Reprodução vídeo

A professora da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) Lisanil da Conceição Patrocínio Pereira contou nesta quarta-feira (23), em ato de servidores estaduais em Cuiabá, que recorreu a um empréstimo consignado de R$ 25 mil para arcar com custos judiciais e, quase três anos depois, ainda tenta encerrar a dívida. Quando pediu o boleto para quitação antecipada, recebeu uma cobrança de R$ 75 mil.

O endividamento tem origem em um episódio de repercussão nacional. Em 13 de outubro de 2019, Lisanil foi detida em Campos de Júlio depois de subir ao palco de um bingo beneficente, no salão paroquial, e protestar contra o então presidente Jair Bolsonaro. Foi retirada do local por seguranças, algemada e levada à delegacia, e o documento de liberação apontou desacato e resistência. A Associação dos Docentes da Unemat divulgou nota na época denunciando uso desproporcional de força e prestando solidariedade à professora, que dava aulas no curso de Direito.

"Perdi muito dinheiro com advogado, com ações, e meu nome estava sujo. E eu, no desespero, precisava de R$ 25 mil", disse ela no ato desta quarta, ao explicar por que procurou crédito.

A contratação foi feita em outubro, com a informação, segundo ela, de que quitaria em janeiro, quando receberia o terço de férias. "Eu sempre tenho esse perfil de quitar empréstimo antes", afirmou. A professora diz ter registrado a conversa em áudio, hoje anexado ao processo judicial. Em janeiro, ao procurar a empresa, recebeu o boleto de R$ 75 mil e ouviu que as condições constavam do contrato assinado. Ela admite não ter lido o documento com atenção.

"Como é que eu pego R$ 25 mil, quero quitar e tenho que pagar R$ 75 mil?", questionou diante dos colegas, antes de fazer a pergunta que resume o efeito prático desses contratos: "Então não vale a pena quitar?". A parcela mensal de cerca de R$ 1,5 mil continua no contracheque.

Há ainda divergência entre a empresa com quem negociou e a que aparece no holerite. A professora afirma ter tratado com a Capital Consig, cujo contato diz ter obtido na MT Fomento quando buscava crédito, mas o desconto lançado na folha é da ClickBank. As duas estão entre as citadas na Operação Fugazi, da Polícia Federal, aberta em julho para investigar um grupo econômico suspeito de vender como cartão de crédito consignado operações que funcionariam como empréstimo comum. As apurações continuam e não há condenação. A Capital Consig afirmou, à época, atuar dentro das normas.

Pela via administrativa, o caso não andou. Segundo a professora, a tratativa com o setor de consignados da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag) se resumiu a troca de e-mails sem solução, o que a levou a contratar uma advogada especializada, de outro estado.

Ela relacionou o próprio caso ao de outros servidores. Contou que uma professora próxima da família morreu neste ano endividada, e que foi preciso fazer uma vaquinha para pagar o enterro. "A vida inteira eu vi esta professora endividada. Abre uma margenzinha, uma margenzinha, pega dinheiro emprestado", disse.

 

Os Sindicatos cobram do Governo do Estado a suspensão dos descontos relacionados às empresas sob investigação. As entidades também pedem ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) que julgue os recursos apresentados sobre a suspensão dos descontos. Segundo o sindicato, mais de 20 instituições credenciadas para operar na folha dos servidores estão sob suspeita.

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