Várzea Grande produz riqueza em escala de cidade grande, mas ainda não consegue transformar esse peso econômico em renda proporcional para seus moradores. O município aparece como a terceira maior economia de Mato Grosso, com Produto Interno Bruto de R$ 13,9 bilhões em 2023, segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O desempenho coloca a cidade à frente de Sorriso, Sinop e outras 137 cidades mato-grossenses. Quando esse mesmo PIB é dividido pela população, porém, o resultado muda de tom: cada várzea-grandense responde, em média, por R$ 46.601,94 da riqueza produzida, valor abaixo da média estadual, da média nacional e distante dos municípios do agronegócio, onde o indicador ultrapassa R$ 250 mil por habitante.
O contraste resume o principal desafio econômico de Várzea Grande. A cidade cresceu, ganhou peso no mapa produtivo do Centro-Oeste e se consolidou como polo urbano, industrial, comercial e logístico. Mas o tamanho da economia ainda não aparece, na mesma proporção, no salário médio, na arrecadação por habitante e na renda efetiva da população.
Para entender a dimensão desse crescimento, é preciso voltar a 2002. Naquele ano, Várzea Grande tinha PIB de R$ 1,1 bilhão. A economia local ainda dependia fortemente da indústria cerâmica, de algumas plantas alimentícias e da renda gerada pela proximidade com o Aeroporto Marechal Rondon. Vinte e um anos depois, o PIB saltou para R$ 13,9 bilhões. Em valores nominais, sem desconto da inflação, o avanço foi de 1.163%. Mesmo considerado o efeito inflacionário acumulado no período, o crescimento real ultrapassa 200%, conforme cálculos feitos com base nos índices oficiais.
A trajetória colocou Várzea Grande em um grupo restrito. Em todo o Centro-Oeste, apenas Brasília, Goiânia, Campo Grande, Cuiabá, Rio Verde, Aparecida de Goiânia, Anápolis e Dourados produzem mais riqueza. Em Mato Grosso, o município ficou atrás apenas de Cuiabá, que respondeu por 14,30% de toda a riqueza gerada no Estado, com PIB de R$ 39,05 bilhões em 2023, e de Rondonópolis, com R$ 16,56 bilhões.
A força econômica várzea-grandense tem três motores principais, segundo o estudo Produto Interno Bruto dos Municípios de Mato Grosso, da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag-MT). O setor de serviços responde por 54,6% do Valor Adicionado local. A indústria representa 23,1%. A administração pública soma 21,4%. A agropecuária participa com apenas 1%, dado que diferencia Várzea Grande de grande parte das cidades mato-grossenses, marcadas pela produção rural.
Essa composição mostra que Várzea Grande se construiu como uma economia urbana em um Estado fortemente associado ao campo. O município não depende da soja, do milho, do algodão ou da pecuária para figurar entre as maiores economias de Mato Grosso. Sua base está no comércio, nos serviços, na indústria, na logística e na atividade cotidiana de milhares de empresas espalhadas pela cidade.
O apelido de Cidade Industrial, herdado das décadas de 1970 e 1980, ainda ajuda a explicar parte desse desempenho. Naquele período, o município recebeu plantas fabris atraídas por incentivos fiscais, disponibilidade territorial e proximidade logística com Cuiabá. Décadas depois, a indústria continua relevante e coloca Várzea Grande entre os sete maiores Valores Adicionados Brutos do setor em Mato Grosso, com R$ 1,96 bilhão e participação de 6,08% na indústria estadual. No ranking industrial, o município fica atrás de Cuiabá, com R$ 4,67 bilhões, de Rondonópolis, com R$ 4,18 bilhões, e de Sorriso, com R$ 1,69 bilhão.
Empresas tradicionais ajudam a manter esse peso. Estão no município marcas como Refrigerantes Marajá, instalada em Várzea Grande desde 1982, Prol Móveis de Aço, com 45 anos de operação local, indústrias ligadas ao polo cerâmico, plantas alimentícias como a Zaeli e nomes históricos do setor de bebidas, como a Renosa Participações, apontada como a maior empresa do município por capital social, com R$ 756,4 milhões.
Embora ainda tenha papel importante, a indústria perdeu participação relativa no PIB local. Em 2002, o setor respondia por uma fatia maior da economia várzea-grandense. Em 2023, foi superado pelos serviços. O movimento acompanha uma tendência nacional de perda de participação industrial, mas, em Várzea Grande, tem causas próprias, entre elas a necessidade de modernização da infraestrutura industrial.
O distrito industrial local já foi apontado por dirigentes da Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso (Fiemt) como defasado. Em maio de 2025, o empresário Ayres dos Santos Neto, dirigente da entidade, afirmou que investidores observam “uma realidade muito arcaica e um distrito industrial sem estrutura” ao avaliar a instalação de novos empreendimentos na cidade.
Enquanto a indústria perdeu espaço relativo, os serviços avançaram. O setor responde hoje por mais da metade do Valor Adicionado de Várzea Grande. O município tem o terceiro melhor resultado de Mato Grosso em serviços fora da administração pública, atrás apenas de Cuiabá e Rondonópolis.
Os dados empresariais reforçam essa virada. Das 50.677 empresas ativas no município, 35.830 atuam no setor de serviços, o equivalente a 51,76% do total. A categoria inclui comércio varejista, transporte de carga, alojamento e alimentação, atividades administrativas, serviços profissionais, educação privada, saúde particular e atividades imobiliárias.
É uma economia ampla, pulverizada e presente no cotidiano da população. Está nas avenidas comerciais, nas galerias, nas oficinas mecânicas, nos restaurantes, nos salões de beleza, nas clínicas, nas escolas privadas, nos escritórios e nas pequenas empresas de bairro. É esse conjunto de atividades que sustenta, cada vez mais, o PIB várzea-grandense.
A leitura muda quando o foco sai do PIB total e passa para o PIB per capita. O indicador, calculado pelo IBGE, divide o total da riqueza produzida pelo número de moradores. Em Várzea Grande, o resultado foi de R$ 46.601,94 em 2023, último dado disponível. O valor fica abaixo da média de Mato Grosso, de R$ 65,4 mil por habitante, abaixo da média da Grande Cuiabá, de R$ 58,1 mil, e também abaixo da média nacional, de R$ 53.886,67.
A diferença aumenta quando a comparação é feita com municípios do agronegócio. Campos de Júlio tem o maior PIB per capita de Mato Grosso, com R$ 455,8 mil. Santa Rita do Trivelato chega a R$ 343,1 mil. Nova Ubiratã alcança R$ 261,7 mil. Diamantino registra R$ 257,5 mil. Sapezal aparece com R$ 253,9 mil.
Esses números pertencem a outro patamar econômico, mas precisam ser interpretados com cautela. O PIB per capita não mede distribuição de renda. Ele apenas divide a produção total pelo número de moradores. Por isso, cidades pequenas, com grandes propriedades mecanizadas e alta produção de soja, milho ou algodão, tendem a apresentar indicadores muito elevados. Já municípios populosos, com economia urbana mais espalhada e maior presença de comércio e serviços, costumam ter resultado mais moderado.
Várzea Grande está nesse segundo grupo. É uma cidade grande, com economia diversificada, mas formada por atividades que nem sempre geram renda média elevada. Cuiabá, por exemplo, teve PIB per capita de R$ 59.997 em 2023, acima do registrado em Várzea Grande. A capital é favorecida pela concentração da administração pública estadual e federal, com maior presença de servidores e salários acima da média.
O salário formal médio reforça a distância entre tamanho da economia e renda do trabalhador. Em Várzea Grande, a média mensal é de R$ 2,6 mil, abaixo das médias estadual e nacional. A receita pública por habitante também mostra limite semelhante. Em 2024, as receitas municipais brutas somaram R$ 1,498 bilhão. Dividido pela população estimada de 318.922 habitantes, o valor representa pouco menos de R$ 4,7 mil por morador, abaixo do que arrecadam, proporcionalmente, capitais como Cuiabá.
Os dados permitem duas leituras sobre a economia várzea-grandense, e ambas são verdadeiras. A primeira mostra uma cidade forte, responsável por 4,25% do PIB estadual e integrante do principal eixo econômico de Mato Grosso. Junto com Cuiabá, Várzea Grande ajuda a concentrar quase um quarto de toda a riqueza gerada no Estado, com papel estratégico em logística, comércio, indústria e serviços.
A segunda leitura mostra que esse crescimento ainda não chega ao morador na mesma proporção. A cidade produz muito, mas ainda convive com renda média mais baixa, PIB per capita inferior às principais referências e arrecadação proporcional limitada diante das demandas urbanas.
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