O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou neste domingo (25), depois de votar em São Bernardo do Campo (SP), que o “outro lado” está impondo violência ao país e voltou a chamar o adversário no segundo turno, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de “miliciano”. Em entrevista de cerca de dez minutos, o petista, que disputa o quarto mandato, citou ataques registrados na véspera da eleição em Minas Gerais e em Mato Grosso do Sul, questionou a origem do patrimônio do senador e disse que, se vencer, deverá a vitória ao povo, a quem chamou de “exército da democracia”.
“A contrapartida disso é a violência que o outro lado está impondo à nação brasileira”, disse Lula, logo depois de falar sobre as manifestações de apoio à sua candidatura. Ele mencionou o ataque à vereadora Iara Pimentel (PT), ferida no rosto durante uma carreata em Montes Claros (MG) na noite de sábado (24). Segundo Lula, um grupo de bolsonaristas que bebia em um bar atirou um tijolo contra a parlamentar e fraturou o nariz dela. A assessoria da vereadora informou que o carro de som foi atingido por garrafas, tijolos e outros objetos; ela recebeu alta na madrugada deste domingo.
O presidente também citou “notícia de morte” em Bonito e um caso em Corumbá, ambos em Mato Grosso do Sul. Em Bonito, Ewerton Rodrigues da Silva, de 35 anos, morreu baleado durante uma briga em uma carreata na noite de sábado, e outra pessoa ficou ferida. A Polícia Civil investiga as circunstâncias. Em Corumbá, um homem foi ferido a tiros em meio a uma caravana política.
Lula disse que esses episódios mostram o que está em jogo e pediu respeito entre eleitores de lados diferentes. “Os vizinhos não precisa torcer pro mesmo time, mas não precisa brigar. Os vizinhos não precisam ter o mesmo candidato, mas também não precisa brigar”, afirmou. Lembrou que disputou eleições contra Geraldo Alckmin, hoje seu vice, Fernando Henrique Cardoso e José Serra e que, “ganhando ou perdendo”, sempre aceitou o resultado.
As críticas mais duras foram dirigidas ao senador. “Eu nunca imaginei disputar uma eleição com uma pessoa desqualificada moralmente, eticamente, pessoalmente”, disse. “Nunca imaginei eleição com miliciano que não faz o menor esforço para contar uma verdade.” Lula afirmou estar convencido de que o eleitor “jamais permitirá que o miliciano ocupe o Palácio do Planalto” e voltou a ligar o adversário a pessoas envolvidas na morte da vereadora carioca Marielle Franco, que, segundo ele, trabalharam no gabinete de Flávio. Disse ainda que o senador nunca aprovou um projeto de lei.
Sem citar valores, o presidente questionou como Flávio comprou uma casa com salário de parlamentar. “Se o cara ficar rico com o salário, ele roubou. Esse é o dado concreto”, declarou. Lula contou que, descontados o imposto de renda e a contribuição ao PT, sobram a ele cerca de R$ 20 mil por mês. “Dá para viver razoavelmente bem, mas rico não dá.”
Flávio nega qualquer ligação com milícias e afirma ser alvo de perseguição política. Na sexta-feira (23), no último debate da campanha, ganhou direito de resposta depois de ser chamado de “miliciano” por Lula. Sobre a casa, comprada em 2021 no Lago Sul, em Brasília, por R$ 5,97 milhões, o senador declarou na época que usou recursos próprios, vindos principalmente da venda de um imóvel no Rio, e que mais da metade do valor foi financiada. Foram R$ 2,87 milhões pagos à vista e R$ 3,1 milhões financiados pelo Banco de Brasília (BRB), em 30 anos. As condições do empréstimo são investigadas pela Polícia Federal.
Lula apresentou a disputa como uma escolha entre dois projetos de país. “A gente quer um Brasil que distribua milhões de livros didáticos na escola ou a gente quer um Brasil em que distribua a possibilidade de comprar 1 milhão de armas”, disse. Também mostrou a bandeira do Brasil e afirmou que o adversário faz campanha com ela, mas quer “governar com a bandeira americana”. “A gente não tem duas pátrias, é uma pátria só”, completou.
No início da entrevista, o presidente agradeceu a Deus por chegar à disputa de um quarto mandato depois de ter nascido “numa terra de pouca chance de sobrevivência”. Disse ter 50 anos de vida política, lembrou a campanha das Diretas Já e afirmou que a mobilização do segundo turno, em estados como Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Maranhão, Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo, foi algo que nunca tinha visto. “Não foi partido político, não foi sindicato, não foi igreja, não foi eu nem o Alckmin. Ou seja, o povo foi pra rua para defender as suas conquistas”, disse. “Eu ganhando essas eleições, eu só devo a minha eleição ao povo brasileiro, que foi efetivamente um exército da democracia.”
Lula sugeriu que sociólogos estudem os últimos 20 dias de campanha, que, segundo ele, tiveram as maiores manifestações já vistas no país, muitas “totalmente espontâneas”. Encerrou com um agradecimento aos eleitores. “O jogo tá jogado. Que Deus abençoe os eleitores brasileiros.”
No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A votação termina às 17h de Brasília, 16h em Mato Grosso, e a apuração começa em seguida.






