25 de Outubro de 2026
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Eleições Sábado, 24 de Outubro de 2026, 08:25 - A | A

Sábado, 24 de Outubro de 2026, 08h:25 - A | A

CONFRONTO NA GLOBO

Vorcaro, ilha e “nove dedos” marcam último debate presidencial

A dois dias do segundo turno, candidatos discutiram custo de vida, segurança pública e SUS na TV Globo. Flávio pediu desculpas ainda no estúdio por chamar Lula de “nove dedos”

Rojane Marta/Fatos de MT

© Fernando Frazão/Agência Brasil

flavio e lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL) fizeram na noite desta sexta-feira (23), na TV Globo, o último debate antes do segundo turno da eleição presidencial, marcado para domingo (25). Em quase duas horas e meia, os dois discutiram custo de vida, endividamento das famílias, segurança pública, saúde e programas sociais, e também trocaram acusações pessoais. O momento de maior tensão veio quando Flávio disse que Lula “dá com uma mão e tira com os nove dedos”, em referência ao dedo que o presidente perdeu em um acidente de trabalho. A frase provocou uma reação dura do petista e terminou com um pedido de desculpas do senador diante das câmeras.

“Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos”, respondeu Lula no bloco seguinte. O presidente lembrou que perdeu o dedo mínimo da mão esquerda quando trabalhava como torneiro mecânico, no turno da noite de uma metalúrgica em São Paulo. Disse também que a expressão desrespeitava os trabalhadores que sofrem acidentes de trabalho e questionou a trajetória profissional do adversário.

Flávio recuou. “Lula, se eu te ofendi porque eu te chamei de nove dedos, eu te peço desculpa de verdade”, afirmou. Na mesma fala, devolveu a cobrança e perguntou se o presidente pediria desculpas aos moradores de rua, às mulheres vítimas de violência, às famílias endividadas e a quem perdeu poder de compra. “Porque a esperança virou decepção, a esperança virou medo”, disse o senador.

A discussão começou num bloco dedicado às políticas sociais. Lula cobrou de Flávio o voto contra a ampliação da licença-maternidade, dado em 2009, quando o senador era deputado estadual no Rio de Janeiro. Flávio admitiu a mudança de posição. “Eu estava errado. Hoje, depois que eu casei, depois que eu tenho duas filhas, mais do que nunca eu sei da importância da mãe estar perto do filho por até mais de 180 dias, se possível”, declarou. O petista também lembrou publicações antigas em que o adversário chamava o Bolsa Família de “bolsa farelo”. Flávio respondeu que o governo deixou o benefício sem reajuste por mais de três anos e que o aumento concedido em setembro equivale a cerca de R$ 3 por dia.

Custo de vida e obras paradas

O debate abriu com economia. Flávio questionou a capacidade de Lula de concluir obras e citou levantamentos do Tribunal de Contas da União sobre empreendimentos paralisados. O presidente rebateu com os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Em seguida, o senador mirou o bolso do eleitor. “Hoje é dia 23 de outubro, o mês ainda não acabou. O seu salário já acabou?”, perguntou, ao criticar preços dos alimentos, impostos e gastos públicos.

Lula defendeu a política de valorização do salário mínimo, hoje em R$ 1.621, e comparou as propostas do adversário às medidas do presidente argentino Javier Milei. Flávio prometeu reajustar o mínimo e as aposentadorias acima da inflação e defendeu um corte de gastos que chama de “tesouraço”, voltado, segundo ele, à corrupção, à burocracia e aos impostos.

O agronegócio também entrou na disputa. O senador criticou os juros do Plano Safra e cortes no seguro rural. Lula respondeu com o recorde de exportações e a abertura de novos mercados e atacou a relação da família Bolsonaro com o presidente dos Estados Unidos. “Quando meu adversário ficou lambendo as botas do Trump para taxar o Brasil, não fiquei preocupado”, disse.

Na rodada sobre o Nordeste, Flávio afirmou que vai governar em parceria inclusive com governadores adversários e acusou os estados da região, administrados pelo PT e por aliados, de permitir o avanço do crime organizado. “Você deixou o Comando Vermelho se proliferar pelo Nordeste junto com os governadores que são seus apoiadores”, disse. O senador também acusou o PT de ter votado contra o marco legal do saneamento, enquanto Lula criticou a política ambiental do governo de Jair Bolsonaro.

SUS e pandemia

O petista escolheu a saúde para perguntar ao adversário. “É com o tesouraço?”, questionou, sobre como Flávio pretende melhorar o atendimento. O senador chamou o Sistema Único de Saúde (SUS) de orgulho nacional, mas disse que ele é mal gerido. “Você chega num hospital e é fila pra tudo”, afirmou. Lula voltou à pandemia: “O SUS é o responsável por evitar que morresse mais gente da Covid depois da responsabilidade do governo do pai dele”.

Dívidas e apostas

O endividamento das famílias abriu o terceiro bloco, por escolha de Flávio. “O brasileiro antes parcelava um fogão, parcelava um micro-ondas, parcelava a geladeira, agora parcela o que tem dentro da geladeira”, disse. “Você prometeu picanha e não entregou a picanha.” Lula citou os dois programas Desenrola, que, segundo ele, atenderam cerca de 15 milhões e quase 16 milhões de pessoas, e ligou parte das dívidas às apostas on-line. “Nós acabamos com as bets porque elas estão virando um inferno na vida das pessoas”, afirmou.

Segurança pública e caso Ana Clara

Ao escolher o tema da retomada de territórios, Flávio criticou a posição do presidente sobre as saídas temporárias de presos e defendeu classificar facções como o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Lula respondeu com o caso de Ana Clara Gomes Machado, menina de 5 anos morta em fevereiro de 2021, em Niterói (RJ), durante uma ação policial. Flávio atuou como advogado do policial militar acusado do disparo, que ainda não foi julgado. A mãe da criança estava na plateia.

“Ela, eu e o Brasil inteiro gostaríamos de saber: o que leva um senador da República a defender um policial assassino que deu tiro em uma criança de 5 anos?”, perguntou Lula. Flávio manifestou solidariedade à mãe e disse confiar que o policial não foi o autor do tiro.

Ilha, uísque e Vorcaro

O tema livre, no último bloco, concentrou as acusações mais pesadas. Lula perguntou sobre a disputa pela posse de uma ilha em Angra dos Reis (RJ), que envolve o jogador Richarlison e o advogado Willer Tomaz, a quem chamou de sócio do senador. “Como vocês tomaram a ilha do Richarlison?”, questionou. Flávio negou: “A ilha nunca foi do Richarlison”. Ele afirmou que a Justiça já julgou a questão e que Tomaz é seu amigo, não sócio.

O senador devolveu com a pergunta sobre um uísque de R$ 500 mil que, segundo ele, o presidente teria recebido de presente de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. “Conta qual é o gostinho”, provocou. “O que você não se conforma é que você criou um banqueiro e eu fiz dele prisioneiro”, respondeu Lula. “Quem é filhote do Vorcaro é você, quem recebe do dinheiro do Vorcaro é você, não me coloca nessa vala comum, não.” Flávio disse que relatório da Polícia Federal concluiu que não houve dinheiro público no filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro, e que os recursos recebidos foram usados na produção.

Considerações finais

Lula agradeceu aos eleitores e pediu desculpas pelo tom elevado. Afirmou que o domingo será decisivo, defendeu a própria biografia e sugeriu que o público pesquise na internet qual governo gastou mais. Ao encerrar, voltou a atacar o adversário. “Ou a gente mantém a democracia funcionando ou a gente vai ter um miliciano governando este país”, disse.

A organização concedeu direito de resposta a Flávio. “Eu nunca fui investigado por relação com milícia. Eu vou combater as milícias, vou classificá-las como organizações narcoterroristas e vou recuperar os territórios dominados por criminosos”, afirmou. Nas considerações finais, o senador agradeceu a Deus, disse que o pai está sendo injustiçado e assumiu três compromissos: não prometer o que não puder cumprir, recuperar o poder de compra e garantir que o brasileiro possa andar em paz na rua. Encerrou pedindo que os eleitores terminassem a noite rezando o Pai-Nosso.

Regras e plateia

O debate teve mediação do jornalista César Tralli e foi dividido em quatro blocos. O primeiro trouxe perguntas sobre as regiões do país. No segundo e no terceiro, os candidatos escolheram temas exibidos num telão. O quarto foi de tema livre, com oito minutos para cada um. A emissora adotou uma regra que impedia o candidato sem a palavra de circular pelo cenário nos três primeiros blocos e não fez checagem de informações ao vivo durante a transmissão.

Do lado de Lula, acompanharam o debate a primeira-dama Janja Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e o presidente nacional do PT, Edinho Silva. Flávio levou a mulher, Fernanda Bolsonaro, o irmão Carlos Bolsonaro e os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo, e Jorginho Mello (PL), de Santa Catarina, entre outros aliados.

Foi o segundo e último confronto direto entre os dois. O primeiro ocorreu no domingo (18), na Band. No primeiro turno, nenhum dos dois participou de debates. Flávio terminou a primeira etapa à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. 

A votação do segundo turno ocorre neste domingo (25).

 
 
 
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