O presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso, conselheiro Sérgio Ricardo de Almeida, pediu ao Sicoob, em três ocasiões de 2025, que separasse um total de R$ 920 mil em dinheiro vivo com a finalidade declarada de “aquisição de bens”. Foram R$ 400 mil em 23 de abril, R$ 150 mil em 29 de abril e R$ 370 mil em 9 de julho. A análise patrimonial da Polícia Federal, porém, “não identificou incremento patrimonial, em nome próprio, que se relacionasse com os fatos investigados”. As informações estão na íntegra do processo que levou à prisão do conselheiro, em 29 de outubro, na Operação Tomada de Contas.
Os pedidos fazem parte de uma tabela com as reservas e os saques que o banco comunicou ao Coaf entre janeiro de 2025 e maio de 2026. Para pedidos de dinheiro acima de R$ 50 mil, o cliente precisa avisar o banco antes e dizer para que vai usar o valor. Sérgio Ricardo reservou R$ 16,9 milhões no período. A maior parte, R$ 11,57 milhões, em 32 pedidos, foi declarada como “uso pessoal”. Outros R$ 3,43 milhões foram registrados como “verba indenizatória”, R$ 500 mil como “proventos do TCE” e R$ 500 mil, no primeiro pedido da série, em 7 de janeiro de 2025, com a frase “conta sempre tem bloqueio judicial”.
Nos saques efetivos, que somaram R$ 15,55 milhões nesse levantamento, as justificativas mudam. R$ 6,31 milhões saíram como “verba indenizatória”, em 20 operações, e R$ 5,91 milhões como “proventos do TCE”, em 14. Outros R$ 1,94 milhão foram registrados como “uso pessoal”. Há ainda R$ 1,39 milhão em 21 saques identificados só com a sigla do tribunal, todos entre R$ 49 mil e R$ 49,9 mil, logo abaixo do valor que obriga o banco a avisar o Coaf automaticamente.
O destino do dinheiro é a principal lacuna da investigação até aqui. Segundo a Procuradoria-Geral da República, de janeiro de 2025 a maio de 2026 as contas do presidente receberam cerca de R$ 20,4 milhões do TCE, e ele sacou em espécie cerca de R$ 18,95 milhões, valor que “não reapareceu” em contas ou bens conhecidos. A PF trabalha com a hipótese de peculato “seja em benefício próprio ou alheio” e ainda não diz para quem o dinheiro teria ido.
Depois de 14 de outubro de 2025, quando uma vigilância da PF no posto bancário foi descoberta pela segurança do tribunal, o padrão mudou. Os saques grandes pararam por quase sete meses. Em 30 de janeiro de 2026 foram reservados R$ 800 mil, que não chegaram a ser sacados. O dinheiro passou a sair em transferências para até 47 destinatários diferentes. Em 2 de fevereiro de 2026, as duas contas do presidente fizeram transferências para depósito judicial de R$ 1.211.125,05 e R$ 81.568,46, cuja origem processual não é identificada nos relatórios. Em abril, “foram aplicadas e resgatadas elevadas quantias”, e em maio o saldo somava R$ 3,24 milhões. Os saques voltaram em 11 de maio de 2026, com R$ 100 mil.
A PF ressalva que trabalha com amostras do Coaf, que só registram operações acima de certos valores, e que os totais podem estar subestimados. O sequestro de bens autorizado pelo STJ no conjunto da operação alcança cerca de R$ 145 milhões. Por ordem do ministro Og Fernandes, o Sicoob está proibido de liberar saques em espécie a procuradores nas contas dos investigados e deve avisar a Polícia Federal, em até 24 horas, de qualquer saque ou reserva a partir de R$ 10 mil. A defesa de Sérgio Ricardo ainda não se manifestou sobre o destino dos valores.
Confira as últimas notícias do Fatos (CLIQUE AQUI)






