Em meio à repercussão de uma fala feita em plenário, o presidente da Câmara de Várzea Grande, vereador Wanderley Cerqueira (MDB), afirmou nesta semana que o município vive uma crise administrativa com reflexos diretos na saúde pública, no abastecimento de água e na execução de contratos. Segundo ele, a situação da cidade é “muito mais grave” do que a polêmica envolvendo a expressão usada por ele durante sessão legislativa e estaria ligada, principalmente, à falta de pagamento a fornecedores e a falhas na condução da gestão da prefeita Flávia Moretti (PL).
Ao detalhar o cenário da saúde, Wanderley afirmou que o pronto-socorro enfrenta problemas no atendimento e interrupção de serviços. Segundo ele, pacientes aguardam horas sem assistência e exames deixaram de ser realizados por falta de pagamento às empresas contratadas. “Tem pessoas que chegaram meia-noite e até as seis da manhã não foram atendidas no pronto-socorro. Lá não está fazendo raio-x, a tomografia também não está sendo feita porque não paga a empresa”, declarou.
O presidente da Câmara também criticou a forma como contratos estariam sendo conduzidos dentro da rede municipal de saúde. De acordo com ele, houve destinação de valores altos para serviços que, antes, eram executados por profissionais concursados. “Colocaram uma ata de R$ 14 milhões para operar dentro do pronto-socorro, usando o próprio centro cirúrgico. Sempre operou com médicos concursados e hoje esses profissionais estão no escanteio”, afirmou.
Na mesma área, ele citou ainda problemas no fornecimento de alimentação hospitalar. Segundo Wanderley, a troca de contrato não resolveu o serviço e gerou novo impasse por falta de pagamento. “Tinha um restaurante que atendia o pronto-socorro, as UPAs e a maternidade. Agora colocaram outra ata de R$ 8 milhões e não paga, a empresa não quer fornecer”, disse.
As críticas do parlamentar também atingiram outros setores da administração. Sobre o abastecimento de água, Wanderley disse que não houve investimento recente no Departamento de Água e Esgoto e atribuiu a isso os problemas enfrentados pela população. “Não investiu um real no DAE. Não comprou uma bomba, não comprou um motor. Por isso que tem problema de água”, declarou.
Na coleta de lixo, o vereador afirmou que empresas prestadoras de serviço acumulam valores a receber do município. “Deve R$ 13 milhões para uma empresa, depois tira e já deve mais R$ 3 milhões para outra. Não está pagando os fornecedores”, disse.
Para o presidente do Legislativo, a raiz da crise está na condução financeira da prefeitura. Segundo ele, o município falha ao não honrar compromissos com empresas e prestadores de serviço. “Quem trabalha tem que receber para pagar seus funcionários. O gestor tem que pagar. Hoje só se vê comentário de que não está pagando”, afirmou.
Sobre a polêmica que motivou a reação da prefeita, Wanderley negou intenção ofensiva ao usar em plenário a expressão de que o vereador Bruno Rios (PL) estaria tentando “leitear” Flávia Moretti. A fala foi criticada e apontada como inadequada e ofensiva. Em resposta, o presidente da Câmara disse que usou um termo popular, sem objetivo de atacar a prefeita. “Leiteiro é puxar saco. O que eu fiz de errado? Eu não estou roubando, não sou ladrão”, declarou.
Ele também rebateu as acusações de conduta inadequada e tentou afastar a interpretação de violência política de gênero. “Quem comanda meu gabinete é mulher. Quem é chefe da presidência é mulher. Quem faz audiência pública para defender as mulheres sou eu”, afirmou.
Ao tratar da relação entre Câmara e Prefeitura, Wanderley disse que o Legislativo tem atuado na fiscalização, mas enfrenta resistência para obter informações do Executivo. Segundo ele, mais de 170 requerimentos já foram aprovados pedindo documentos e esclarecimentos. “É uma Câmara atuante, já aprovou mais de 170 requerimentos pedindo informações. Tem vereador entrando com mandado de segurança para conseguir documentos”, disse.
Questionado sobre a possibilidade de abertura de processo de impeachment contra a prefeita, o presidente da Câmara evitou defender diretamente a medida, mas sinalizou que qualquer avanço dependeria do posicionamento da maioria dos parlamentares. “Eu não posso falar em impeachment, não depende só de mim, depende dos vereadores”, afirmou.
Wanderley ainda criticou uma decisão administrativa da gestão municipal que, segundo ele, compromete a coerência do discurso da prefeita. “Ela denunciou uma pessoa por desvio de R$ 6,2 milhões e depois nomeou essa mesma pessoa como secretário de governo. Isso tem seriedade?”, questionou.
Ao final da entrevista, o presidente da Câmara reforçou que a discussão pública, na avaliação dele, deveria estar concentrada nos problemas da administração municipal. “A situação em Várzea Grande é muito grave. O problema não está no vereador, está no modelo de gestão”, concluiu.
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