Por Edina Araújo*
O silêncio de parte das lideranças femininas de Mato Grosso diante das declarações do deputado estadual Gilberto Cattani (PL) chama atenção. Onde estão as mulheres que, durante a campanha eleitoral, levantaram a bandeira contra a violência doméstica e o feminicídio? Onde estão as promotoras de Justiça, magistradas, defensoras públicas e representantes das instituições que atuam na proteção das mulheres? Por que uma questão tão grave não provoca um debate público mais amplo?
Em um Estado que está entre os que mais matam mulheres, a discussão não pode ser reduzida a afinidades ideológicas ou conveniências partidárias.
Mato Grosso registrou 53 feminicídios em 2025, contra 47 no ano anterior. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, apresentou a terceira maior taxa do país, com 2,7 mortes por 100 mil mulheres.
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O Tribunal de Justiça de Mato Grosso informou que, em quase 80% dos casos, os crimes foram cometidos por parceiros íntimos. Muitas vítimas morreram em contextos de violência doméstica, ciúme e recusa do agressor em aceitar o fim do relacionamento.
Justamente o argumento utilizado por Cattani para contestar a classificação do assassinato da própria filha.
Na quarta-feira (07.10), na Assembleia Legislativa, o deputado afirmou que Raquel Maziero Cattani não foi assassinada por ser mulher, mas porque o ex-marido não aceitava a separação.
A declaração foi feita em defesa da correligionária Eduarda Campopiano (PL), deputada estadual eleita por São Paulo, que afirmou em debates e entrevistas que o feminicídio “não existe”.
A juventude e a eventual falta de experiência de vida não justificam a negação de um crime previsto na legislação brasileira. Muito menos autorizam que pessoas com maior experiência política relativizem essa violência por afinidade ideológica.
O feminicídio não deixa de existir porque uma parlamentar questiona sua existência. E não pode ser minimizado para conquistar curtidas nas redes sociais ou preservar alianças políticas.
Raquel tinha apenas 26 anos quando foi assassinada, em julho de 2024, com mais de 30 golpes de faca, dentro de casa, em Nova Mutum. O ex-marido, Romero Xavier Mengarde, foi apontado pela Polícia Civil como mandante, e o irmão dele, Rodrigo, como executor.
Em janeiro de 2026, o Tribunal do Júri condenou os irmãos a penas de 30 e de mais de 33 anos de prisão, reconhecendo o feminicídio entre as qualificadoras. A sentença apontou possessividade obsessiva e recusa em aceitar o término do relacionamento.
A legislação brasileira é clara: a violência doméstica e familiar integra a definição de feminicídio. Portanto, a recusa do agressor em aceitar a separação não afasta, por si só, essa classificação.
Mas a contradição vai além das declarações.
Em fevereiro deste ano, o próprio Cattani apresentou à Assembleia Legislativa o Projeto de Lei nº 144/2026, propondo ampliar a proteção aos órfãos da violência e dar à legislação o nome de “Lei Raquel Maziero Cattani”.
Na justificativa, descreveu a filha como “vítima de feminicídio” e destacou que o assassinato deixou dois filhos órfãos.
Em fevereiro, o feminicídio fundamentava uma proposta legislativa e uma homenagem à filha. Em outubro, ao defender uma correligionária, o deputado passou a questionar essa mesma classificação.
O documento permaneceu. O discurso mudou.
A dor de um pai merece respeito. Mas a manifestação pública de um legislador também exige responsabilidade com a legislação e com os fatos.
E é diante dessa contradição que a ausência de manifestações públicas de parte das lideranças femininas merece questionamento.
Onde estão Virginia Mendes, Margareth Buzetti, Janaina Riva, Paula Calil (presidente da Câmara de Cuiabá), Gisela Simona (eleita vice-governadora de MT), Flávia Moretti (prefeita de Várzea Grande) e a vereadora, primeira-dama de Cuiabá, deputada eleita, Samantha do Abílio? E a Presidência do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher?
A deputada federal reeleita Coronel Fernanda (PL) e a delegada Jannira Laranjeira discordaram publicamente das declarações de Cattani, apontaram desconhecimento da legislação e defenderam que não haja retrocessos na proteção às mulheres. As manifestações de ambas merecem registro.
Quanto às demais lideranças mencionadas, a apuração não localizou posicionamentos públicos específicos sobre as declarações do deputado até o fechamento deste artigo. Isso não significa concordância, mas mantém aberta uma cobrança legítima sobre os compromissos que apresentam à sociedade.
O questionamento também alcança as instituições responsáveis pelo enfrentamento à violência doméstica.
Onde estão as manifestações técnicas das promotoras de Justiça, magistradas, defensoras públicas e da delegada Judá Maali, titular da Delegacia Especializada de Defesa da Mulher de Cuiabá? Quem atua diariamente no atendimento às vítimas conhece as consequências da violência praticada por companheiros e ex-companheiros que não aceitam o fim de um relacionamento.
Não se exige posicionamento partidário dessas profissionais, mas esclarecimentos institucionais podem ajudar a impedir que declarações contrárias à legislação confundam a população e enfraqueçam a compreensão sobre a gravidade do feminicídio.
A eleição de 4 de outubro terminou. O compromisso com a vida das mulheres, não.
Durante as campanhas, a defesa feminina aparece em discursos, vídeos, eventos e publicações nas redes sociais. Mas uma causa dessa gravidade não pode depender do calendário eleitoral nem da identidade política de quem faz uma declaração.
Enquanto se discute se o feminicídio existe, mulheres continuam sendo assassinadas, filhos ficam órfãos e mães enterram suas filhas.
Raquel não pode ser vítima de feminicídio na justificativa de um projeto, símbolo de proteção em uma instituição e ter a classificação de seu assassinato questionada no discurso político sem que essa contradição seja debatida.
A defesa das mulheres não pode ser seletiva. Não pode depender de partido, ideologia, conveniência ou curtidas nas redes sociais. Porque, quando uma mulher é assassinada, não é uma bandeira partidária que vai para o túmulo. É uma vida interrompida, uma família destruída e, muitas vezes, uma criança que crescerá sem a mãe.
A pergunta permanece: a defesa das mulheres é um compromisso permanente ou uma bandeira que só se levanta quando convém?
Que essa reflexão não fique apenas nas palavras. Afinal, nenhuma de nós está livre de viver essa tragédia. Que nunca sejamos nós a chorar a morte de uma filha, mãe, irmã ou qualquer outra mulher da nossa família. Porque o feminicídio não escolhe ideologia, partido político ou posição social.
*Edina Araújo, jornalista e diretora do VGNOTICIAS.







