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Democracia

Cármen Lúcia diz em Cuiabá que “plantar a desconfiança é fácil” e cita queda de confiança na urna

A 12 dias do segundo turno, ministra do STF afirmou que as instituições estão funcionando e alertou para a desinformação: “Informação é poder. E agora eu digo, desinformação também”

Rojane Marta/Fatos de MT

UFMT

Cármen Lúcia: “Não tenho medo da IA, tenho medo da desinteligência natural”

Cármen Lúcia: “Não tenho medo da IA, tenho medo da desinteligência natural”

A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia afirmou nesta terça-feira (13), em Cuiabá, que é fácil espalhar a desconfiança sobre as instituições e usou como exemplo a urna eletrônica. Segundo ela, a confiança dos brasileiros no equipamento caiu de 97% para 73%, embora a urna seja “demonstrada, auditável o tempo todo”. A fala foi feita na conferência de abertura da Semana do Conhecimento da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a 12 dias do segundo turno da eleição presidencial.

“Plantar a desconfiança é fácil”, disse. A ministra explicou com uma comparação: um casal pode viver junto por 20 anos, mas basta alguém insinuar uma traição para que a pessoa não durma mais em paz. Ela atribuiu os números da urna ao ex-ministro Carlos Velloso, que presidia o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) quando o equipamento começou a ser usado. “A urna não é de juiz, a urna é do povo brasileiro”, afirmou.

Cármen Lúcia, que deixou a presidência do TSE em maio, disse que o país está “no meio de um processo eleitoral” e que as instituições estão funcionando. “Juiz está julgando, legislador está legislando, a administração está administrando, com as emoções afloradas de período eleitoral normal”, declarou. Para mostrar que a desconfiança no Judiciário não se sustenta, citou os 80 milhões de processos em andamento nos fóruns e tribunais, o que, pelas contas dela, envolve entre 150 milhões e 160 milhões de brasileiros. “A crítica é válida. O que não pode é não confiar”, afirmou.

A ministra também falou do sigilo do voto e da liberdade do eleitor. Contou ter ouvido de um taxista o receio de “perder o voto” e repetiu a resposta que deu a ele: “O voto é seu, você não tem jeito de perder nem de ganhar”. Em outro trecho, afirmou que ninguém sabe em quem o eleitor votou, a não ser que ele mesmo conte.

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Grande parte da conferência tratou da desinformação nas redes sociais. “Informação é poder. Eu escutei desde menina. E agora eu digo, desinformação também”, afirmou. Segundo ela, o volume de conteúdo, a mistura de assuntos, a viralização e a verossimilhança das mentiras dificultam que as pessoas separem o falso do verdadeiro. Ela citou o próprio caso: “Se agora alguém postar que eu estou em Brasília recebendo fulano, é mais fácil isso sair, embora vocês estejam me vendo aqui”. E acrescentou que já viu circular que ela tinha votado em processos que ainda nem havia começado a estudar.

No início da fala, Cármen Lúcia comentou os ataques que tem recebido: “Falam tão mal de mim atualmente”. Disse ter aprendido a lidar com isso com a mãe de um juiz de futebol, que, segundo ela, não se ofendia com os xingamentos da torcida porque “aquela do campo, a gente nem conhece”.

Sobre a inteligência artificial, a ministra disse que representa o Brasil na Comissão de Veneza, ligada ao Conselho da Europa, e que a reunião da semana passada, com 92 países, discutiu como garantir que “a máquina serve ao ser humano”. Criticou os algoritmos que escolhem o que cada pessoa vê e contou que professores têm recebido trabalhos iguais feitos com ferramentas de IA. “Eu não tenho medo da inteligência artificial, eu tenho medo da desinteligência natural”, afirmou.

A conferência, intitulada Mulheres na Ciência e na Democracia: Igualdade como Compromisso Institucional, também tratou da violência contra a mulher. A ministra afirmou que o Brasil é uma sociedade machista e misógina, que mata uma mulher a cada menos de seis horas por ser mulher. “É melhor a gente avisar para os homens: parem de nos matar, porque nós resolvemos parar de morrer”, disse. Ela lembrou casos de cientistas que tiveram o trabalho apropriado por colegas homens, como Rosalind Franklin, e mulheres da história brasileira que foram apagadas, como Hipólita Jacinta, que, segundo ela, participou da Inconfidência Mineira.

Antes da palestra, Cármen Lúcia recebeu a Láurea da Ordem Universitária do Brasão da UFMT, a principal honraria da universidade. A distinção foi criada em 1995 e nunca tinha sido concedida. A homenagem foi aprovada por unanimidade pelo Conselho Universitário em setembro e entregue pela reitora Marluce Souza e Silva. Segundo a universidade, a escolha levou em conta a atuação da ministra em julgamentos sobre cotas raciais no ensino superior, liberdade de expressão e proteção dos direitos das mulheres.

A Semana do Conhecimento reúne o 34º Seminário de Iniciação Científica e Tecnológica e a 17ª Mostra de Extensão da UFMT.

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