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Márcio Florestan Berestinas*

A raiva e o seu desgoverno

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Márcio Florestan Berestinas

Por Márcio Florestan Berestinas*

Em Grande Sertão: Veredas, Riobaldo relembra um conselho de Zé Bebelo, seu antigo chefe. Parece simples, até começarmos a carregá-lo conosco: às vezes convém fingir raiva, mas “raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter”. É uma sabedoria difícil. O conselho não propõe mansidão diante de tudo, nem recomenda passividade. Há momentos em que é preciso reagir, impor limites, demonstrar indignação, exigir responsabilidade. O que Rosa recusa é outra coisa: permitir que a raiva se instale dentro de nós e ali permaneça.

Há uma diferença importante entre reagir ao mal e passar a viver em função dele. Quem sofre uma injustiça pode procurar reparação, romper uma relação, recorrer à Justiça ou simplesmente afastar-se. Nada disso exige ódio. O problema começa quando o ofensor continua presente mesmo depois de ausente: ocupa pensamentos, reaparece em conversas imaginárias, determina o humor, alimenta fantasias de vingança. A pessoa que nos feriu passa, sem saber, a morar conosco.

A literatura conhece bem esse hóspede. Em “O Enfermeiro”, de Machado de Assis, Procópio suporta durante meses as humilhações do coronel Felisberto e, aos poucos, confessa trazer dentro de si um “fermento de ódio e aversão”. Como todo fermento, o rancor trabalha em silêncio e cresce enquanto aparentemente nada acontece. Quando finalmente explode em crime, já não sabemos com clareza onde termina a ofensa recebida e onde começa aquilo que fizemos dela.

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Graciliano Ramos construiu em Angústia um personagem quase inteiramente habitado pelo ressentimento. Luís da Silva rumina humilhações, invejas e derrotas até organizar a própria existência em torno de Julião Tavares. A vingança acontece, mas não produz libertação. O inimigo é eliminado e, ainda assim, permanece. Esse talvez seja um dos paradoxos mais cruéis do ódio: podemos vencer aquele que odiamos e continuar submetidos a ele.

Essa ideia foi levada ao extremo em Moby Dick por Herman Melville. O capitão Ahab percorre oceanos perseguindo a baleia que lhe arrancara a perna. Oficialmente, ele comanda o navio. Na realidade, é Moby Dick quem determina sua rota. Cada milha percorrida, cada ordem dada, cada risco assumido existe por causa da criatura que ele odeia. Ahab acredita ser o caçador, mas já foi capturado muito antes do encontro final.

Volto ao conselho de Zé Bebelo, que não termina onde o deixei. Logo em seguida vem o motivo, num verbo exato: curtir. Curte-se couro, curtem-se azeitonas: é o mesmo trabalho lento do fermento. Quem curte raiva, ensinava ele, autoriza o desafeto a governar, dia após dia, aquilo que pensamos e sentimos, e isso é abdicar da própria soberania. O problema da raiva duradoura, portanto, não é apenas moral; é também uma questão de liberdade. Quem deixa a vida ser organizada pelo ressentimento entrega ao outro uma parte do governo de si.

Uma das formas de retomar esse governo tem um nome antigo: perdão. Não se trata de amnésia, nem de absolvição automática, nem de voltar a apertar a mão de quem nos feriu. Há ofensas que deixam cicatrizes e injustiças que não admitem esquecimento; a memória pode permanecer, e a prudência também. O que não precisa permanecer é o domínio do passado sobre cada dia seguinte. Às vezes, perdoar é apenas retirar essa pessoa do centro de nossa vida.

Perdoar tampouco significa abrir mão da justiça. Julgar uma conduta e odiar quem a praticou são coisas diferentes. A Oresteia, de Ésquilo, encenada há quase dois mil e quinhentos anos, mostra por que a diferença importa. Agamêmnon sacrifica a filha, Ifigênia; Clitemnestra mata Agamêmnon; Orestes mata Clitemnestra. Cada sangue derramado exige outro. A cadeia só se rompe quando a vingança privada cede lugar ao julgamento, e a resposta passa das mãos do ofendido às de um tribunal. A civilização começa, de certo modo, quando alguém decide que a ofensa não será respondida indefinidamente por outra ofensa.

É esta a soberania de que fala Rosa: conservar o direito de decidir quem habitará nossos pensamentos. O ódio é a renúncia a esse direito. Mantém aberta uma porta por onde continua entrando justamente aquele que gostaríamos de expulsar.

Em certos momentos, é preciso mostrar raiva; o conselho de Zé Bebelo começa por aí. O que não se deve é conceder a ela residência permanente. Há pessoas que merecem nossa oposição, nossa denúncia ou nosso afastamento. Pouquíssimas merecem receber, além disso, o governo de nossa paz.

*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.

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