11 de Abril de 2026
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Artigos Sexta-feira, 10 de Abril de 2026, 14:48 - A | A

Sexta-feira, 10 de Abril de 2026, 14h:48 - A | A

Williamon da Silva Costa*

Crise ou projeto de poder: quando o Legislativo só pensa em “brigar”

Por Williamon da Silva Costa*

O que acontece hoje em Várzea Grande deixou de ser uma simples crise política para se transformar em um verdadeiro colapso institucional em curso, visível, contínuo e cada vez mais profundo. A cidade encontra-se refém de uma disputa de ego e poder que ultrapassou os limites do debate democrático e mergulhou em um cenário de confronto permanente, no qual projetos são travados, recursos essenciais entram em risco, ataques pessoais substituem argumentos técnicos e políticos, e o interesse público foi empurrado para o fim da fila. No centro dessa crise está a prefeita Flávia Moretti, que governa sob pressão constante de uma Câmara Municipal que, em vez de atuar como parceira institucional, passou a funcionar como força ativa de bloqueio e perturbação.

A função do Legislativo é clara, ou deveria ser: legislar, fiscalizar e contribuir para o funcionamento da cidade. Ao Executivo cabe planejar, executar políticas públicas e garantir a prestação eficiente de serviços à população. Em um cenário institucional saudável, ambos os poderes devem atuar com independência, mas também com equilíbrio, diálogo e responsabilidade, colocando o interesse público acima de disputas pessoais. No entanto, em Várzea Grande, esse modelo não se concretiza. O que se vê é um Legislativo que tensiona e bloqueia, e um Executivo que responde em tom justo de enfrentamento, aprofundando o conflito e impedindo qualquer cooperação institucional. No fim, a cidade permanece refém desse impasse.

A Câmara de Várzea Grande parece ter desenvolvido uma forma peculiar de fazer política. Projetos de adversários são sistematicamente travados, pautas são controladas e o ambiente político é marcado por resistência constante às iniciativas do Executivo. Não se trata de divergência qualificada, mas de obstrução recorrente e explícita. Quando o Legislativo passa a escolher quando a cidade pode avançar, deixa de cumprir sua função constitucional e passa a atuar como entrave, criando dificuldades, acendendo conflitos e levantando obstáculos onde deveria haver solução.

Essa crise se intensificou ainda mais com a renúncia do vice-prefeito, fato que, por si só, já indicaria instabilidade, mas que ganhou contornos ainda mais graves diante das declarações públicas que se seguiram. Em meio à tensão, a prefeita afirmou que o presidente da Câmara só assumiria a Prefeitura com ela morta. A fala é dura, mas reflete um ambiente igualmente extremo, no qual a relação institucional foi rompida e substituída por desconfiança, hostilidade e enfrentamento direto. Já não há espaço para diálogo, apenas disputa aberta e contínua pelo poder.

Não é a primeira vez que o município enfrenta esse tipo de ruptura por renúncia, e a reincidência torna o episódio ainda mais grave. A política local parece presa a ciclos de colapso e recomposição que nunca se resolvem. Em tom irônico, mas tristemente apropriado, a situação já rende até trocadilho: mais uma renúncia e Tião da Zaeli poderia pedir música no Fantástico. A ironia revela uma realidade preocupante: quando crises institucionais se tornam rotina, o que deveria ser exceção passa a ser regra.

Outra situação que agrava esse cenário é o uso indiscriminado da chamada imprensa marrom, que, em muitos momentos, se assemelha mais a uma ORCRIM (organização criminosa) do que a um jornalismo responsável e imparcial. Esses veículos publicam diariamente ataques coordenados para desgastar a prefeita como estratégia dentro dessa guerra institucional. Somado a isso, veiculam supostas gravações informais de bastidores, obtidas de maneira questionável e exploradas com o objetivo de desmoralizar a gestão, escancarando um cenário em que vale tudo para atingir o Executivo. Quando esse material chega a espaços de grande apelo popular, transforma-se em combustível para o sensacionalismo, com recortes direcionados e falas selecionadas para ampliar conflitos e gerar audiência. O resultado é um ambiente contaminado por narrativas questionáveis, linguagem de baixo nível e ataques que atingem até a própria população, aprofundando o rebaixamento moral do debate público.

A soma desses tristes episódios revela um padrão evidente: projetos travados sob justificativas questionáveis, ataques pessoais substituindo o debate institucional, instabilidade crescente e uma atuação voltada ao desgaste do Executivo. A Câmara deixou de ser espaço de construção coletiva para se transformar em um núcleo de confronto permanente. Já não se trata de oposição democrática, mas de uma estratégia de poder baseada no bloqueio e na tensão constante.

Wanderley e seus aliados parecem ter feito uma escolha equivocada: priorizar o conflito em vez da solução. Cada projeto travado representa atraso, cada crise afasta respostas concretas e cada ataque pessoal rebaixa ainda mais o nível institucional e a situação do município, que já não é das melhores. O resultado é uma cidade paralisada por disputas que pouco entregam e muito prejudicam, motivadas por projetos pessoais de poder.

Diante desse cenário, em vez de campanhas agressivas com claro objetivo de desgaste político e tomada de poder, os agentes públicos precisam cumprir o básico: trabalhar de forma integrada, com responsabilidade e compromisso com a população. Várzea Grande não precisa de mais conflito e nem de espetáculo, precisa de gestão, equilíbrio e maturidade. No fim, o poder não pode ser um fim em si mesmo, precisa servir ao interesse coletivo e ao bem do município.

Afinal, fica a pergunta: é oposição ou sabotagem? Trata-se de ação isolada de alguns vereadores aliados ao presidente? É jogo duplo da maioria? Ou apenas uma minoria ainda tenta atuar com responsabilidade? Uma coisa é fato: essa trincheira de conflito tende a se aprofundar ainda mais caso Wanderley Cerqueira seja reconduzido ao comando do Legislativo. Sua postura revela não apenas a condição de adversário político da prefeita, mas a de alguém que a trata como inimiga pública, como se ela não merecesse ocupar o cargo para o qual foi eleita. Esse comportamento remete, em certa medida, à atuação de Eduardo Cunha no processo de impeachment de Dilma Rousseff, que acabou favorecendo a ascensão do então vice Michel Temer. No caso local, a diferença é que o eventual beneficiado pode ser o próprio presidente da Câmara, o que levanta questionamentos ainda mais delicados sobre intenções e estratégias de poder.

Todavia, há uma pergunta que não quer calar:
E quanto à produção legislativa?

Em vez de brigas, o município precisa, com urgência, revisar e atualizar normas fundamentais, como o código tributário e o zoneamento urbano. Todo o desenvolvimento de Várzea Grande depende da aprovação de leis modernas e adequadas à realidade atual. É necessário construir políticas de Estado voltadas ao médio e longo prazo, capazes de orientar o crescimento do município de forma estruturada e sustentável.

A construção de boas políticas públicas municipais é fundamental para garantir desenvolvimento real, qualidade de vida e planejamento sustentável, e não pode ser reduzida à produção de leis que já nascem obsoletas ou que apenas cumprem formalidades burocráticas. O papel do Legislativo vai muito além de cumprir tabela com medidas simbólicas, como a simples denominação de ruas, que, embora tenha seu valor, não enfrenta os desafios estruturais da cidade.

No entanto, a produção do Legislativo de Várzea Grande caminha na contramão dessa necessidade, apresentando uma produtividade muito aquém do que o município exige. Em vez de priorizar normas modernas, eficazes e alinhadas às demandas atuais da população, observa-se uma atuação limitada, pouco estratégica e de baixo impacto prático.

Apontar o dedo para o Executivo sem olhar para o próprio umbigo é fácil; agora, expor impasses, dificuldades, morosidade e, sobretudo, contratos e o pagamento de verbas indenizatórias sem transparência é outro nível. Calar-se diante de fatos questionáveis sobre a conduta profissional do pai do vereador e presidente da Comissão de Saúde da Câmara, Miguel Angel, é ainda pior. Quer dizer que a vara que bate em Chico não bate em Francisco, senhor Wanderley?

A situação se agrava quando se observa a chamada “trindade” da CCJ. O cenário chega a ser irônico: o vereador e policial civil Alessandro, que parece mais confortável redigindo boletins de ocorrência do que contribuindo com técnica legislativa; o vereador Raul Curvo, advogado que não faz jus à própria OAB; e a vereadora Gisa Barros, que, ao menos, ainda consegue escapar parcialmente desse quadro, mesmo sendo bacharel em Direito, demonstra alguma sensibilidade política e feminina na condução de suas posições, é a única vereadora desse trio que se salva.

O resultado é um Legislativo que, em vez de qualificar o debate e produzir soluções, reforça a sensação de improviso e baixa efetividade. Diante desse retrato amargo da CCJ, surge uma pergunta inevitável: como o município pode avançar se a gestão pública é, em grande medida, um espelho fiel da qualidade de seu próprio Legislativo? Fazer o básico da legislação municipal não é produzir em quantidade, mas garantir qualidade, recursos financeiros e resultados concretos para melhorar a vida das pessoas.

Falar em grupos de redes sociais é fácil, escrever, sustentar argumentos técnicos e se responsabilizar pelo que se diz é outra história. Poucos têm essa coragem. Fica a dica!

*Williamon da Silva Costa.

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