Por Antônio Augusto Pinheiro*
A eleição voltou a evidenciar a forte identificação de importantes regiões do agronegócio com a direita. Levantamento da CNN, cruzando dados eleitorais com o ranking de produção agrícola do IBGE, mostrou que Flávio Bolsonaro venceu, no primeiro turno de 2026, em oito dos dez maiores polos agrícolas brasileiros. Lula manteve a liderança nos dois municípios baianos da lista, mas perdeu participação nos dez. Em Sorriso, Sapezal, Campo Novo do Parecis e Nova Mutum, Flávio ultrapassou 70% dos votos válidos. É uma preferência política que merece ser compreendida, em vez de simplesmente condenada.
O voto de uma cidade, evidentemente, não representa apenas os produtores rurais. Ali também vivem trabalhadores, comerciantes e servidores. Ainda assim, o resultado revela a força da direita em comunidades cuja vida econômica está profundamente ligada ao campo. Com mais quatro anos de governo Lula pela frente, precisamos entender as razões desse afastamento e identificar o que deve mudar para que a divergência política não comprometa investimentos e produção.
A importância do setor dispensa exageros. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, em 2025 o agronegócio exportou US$ 169,2 bilhões, respondeu por 48,5% das exportações brasileiras e gerou um superávit comercial de US$ 149,1 bilhões. O Brasil precisa desenvolver indústria e serviços, mas não pode enfraquecer uma de suas principais fontes de divisas, produtividade e atividade econômica no interior. Prejudicar o agro por antagonismo político seria prejudicar o próprio país.
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A primeira explicação para a ligação com a direita está na defesa da propriedade e na percepção de segurança jurídica. Quem imobiliza patrimônio em terra, máquinas e benfeitorias precisa confiar na continuidade de sua atividade. A proximidade histórica do PT com movimentos de luta pela terra alimenta, em parte dos produtores, o receio de tolerância com ocupações e conflitos. Essa percepção não comprova que o governo autorize ilegalidades, mas exige uma resposta inequívoca: proteger a propriedade legítima, cumprir decisões judiciais e solucionar disputas dentro da lei, respeitando também os direitos de indígenas, comunidades tradicionais e trabalhadores. Política agrária não pode ser conduzida sob intimidação de qualquer lado.
A segunda explicação está no caixa das propriedades. Nas propostas para o Plano Safra 2026/2027, a CNA apontou pressão de custos, juros elevados, restrições financeiras, instabilidade climática e redução das margens. Uma colheita volumosa não significa necessariamente lucro. O produtor pode colher mais e terminar a safra mais endividado, dependendo dos preços recebidos, dos insumos e dos encargos financeiros.
As reivindicações apresentadas pela entidade ajudam a dimensionar essa preocupação. Em abril de 2026, a CNA propôs aproximadamente R$ 623 bilhões em crédito para a safra 2026/2027 e R$ 4 bilhões para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural. Também defendeu planejamento plurianual e maior previsibilidade orçamentária. Esses valores representam pedidos da entidade, não recursos necessariamente aprovados ou liberados. Para quem planta, o anúncio de um plano bilionário tem pouco valor se o financiamento chega tarde ou não está disponível no banco.
O governo precisa melhorar a execução da política agrícola. Crédito deve acompanhar o calendário do plantio; seguro deve oferecer cobertura efetiva; renegociações devem atender dificuldades comprovadas, com critérios transparentes. O caminho é combinar apoio público bem direcionado, financiamento privado e instrumentos de gestão de riscos. Isso exige responsabilidade fiscal: não cabe transformar todo prejuízo privado em obrigação permanente do contribuinte.
Também é preciso reconhecer avanços quando eles existem. Em setembro, a própria CNA avaliou favoravelmente o novo marco do seguro rural, destacando perspectivas de maior previsibilidade e proteção ao produtor. Na ocasião, apontou a necessidade de regulamentação e discordâncias sobre vetos. A cobrança responsável deve acompanhar a transformação dessas mudanças em benefícios concretos, em vez de tratar toda iniciativa governamental como fracasso antecipado.
Há uma contribuição indispensável da política econômica. Contas públicas confiáveis ajudam a reduzir o prêmio de risco e a criar condições para juros menores. O desequilíbrio fiscal encarece o financiamento da economia e pressiona o orçamento destinado à própria política agrícola. Nenhum Plano Safra compensa indefinidamente uma economia que torna o capital excessivamente caro.
Outra fonte de desgaste envolve burocracia, tributação e infraestrutura. Segurança jurídica, propriedade, política agrícola, meio ambiente e competitividade aparecem na agenda legislativa da CNA para 2026. Nem todas essas dificuldades nasceram no governo Lula, e muitas dependem do Congresso e dos estados. Mas cabe ao Executivo federal coordenar respostas. O produtor precisa de regras compreensíveis e procedimentos previsíveis para planejar investimentos que levam anos para amadurecer.
Na área ambiental, o caminho deveria ser claro: firmeza contra o desmatamento ilegal e segurança para quem produz dentro da lei. O produtor regular não pode ser tratado como suspeito permanente nem permanecer indefinidamente à espera de análise cadastral, regularização ou autorização. Ao mesmo tempo, combater infrações protege os produtores responsáveis da concorrência desleal e do desgaste comercial causado por quem descumpre as regras. Produção e preservação precisam se encontrar em decisões técnicas, procedimentos claros e prazos verificáveis.
Entretanto, seria um erro imaginar que essa fidelidade à direita se explica apenas por dificuldades econômicas. Existe uma dimensão de identidade: propriedade, família, religião, tradição, autonomia e valorização do trabalho aproximam parte do meio rural do conservadorismo. Em análise reproduzida pelo Brasilagro, o pesquisador Felipe Nunes observa que reconhecer benefícios de uma política não significa aderir ao projeto político de quem a executa. O produtor pode aprovar uma linha de crédito e continuar rejeitando o PT. Voto não é recibo de financiamento.
Por isso, o governo precisa corrigir também sua forma de se relacionar com o setor. Generalizações que associam o campo ao atraso ou à ilegalidade aprofundam resistências. Da mesma forma, não contribui apresentar agricultura familiar e agricultura empresarial como inimigas. Há necessidades distintas, mas também cadeias produtivas, cooperativas e mercados que as conectam. Uma política agrícola séria deve reconhecer essa diversidade.
O próprio recorde exportador de 2025 ocorreu sob Lula. Seria incorreto atribuí-lo exclusivamente ao governo, assim como seria incorreto negar qualquer contribuição das políticas públicas, da pesquisa e da diplomacia comercial. O desempenho do campo resulta do esforço dos produtores, de conhecimento acumulado durante décadas e de instituições que atravessam diferentes administrações. Nenhum partido é proprietário dessa história.
Para reconstruir a confiança, Lula precisa ouvir produtores, cooperativas e entidades e transformar o diálogo em uma agenda de modernização com metas verificáveis. Essa agenda deve incluir conectividade rural e acesso à agricultura de precisão. Internet no campo é infraestrutura produtiva: permite integrar máquinas, acompanhar condições de cultivo e utilizar ferramentas digitais para reduzir desperdícios e melhorar decisões. Essa transformação precisa alcançar também pequenos e médios produtores, acompanhada de assistência técnica e capacitação.
Outro compromisso deve ser aproximar a eficiência das propriedades da qualidade da infraestrutura que as atende. Ampliar a armazenagem privada e cooperativa pode reduzir a pressão para vender imediatamente após a colheita e proporcionar melhores condições de comercialização. Melhorar rodovias, ferrovias e acessos portuários ajuda a preservar a competitividade conquistada na produção. São investimentos que exigem planejamento, participação privada e continuidade entre governos, com critérios econômicos e ambientais claros. O ganho de produtividade dentro da fazenda não pode continuar sendo desperdiçado fora dela.
Também é indispensável fortalecer a Embrapa, a assistência técnica e a defesa agropecuária. Pesquisa, vigilância sanitária e certificação são bases da produtividade e do acesso aos mercados internacionais. A diplomacia comercial deve trabalhar pela diversificação de compradores e pela ampliação das exportações de produtos de maior valor agregado. Essa é uma agenda capaz de aproximar governo e produtores em torno de resultados concretos, sem exigir alinhamento partidário.
Ao agro cabe a mesma disposição para o pragmatismo. Cobrar o governo é legítimo; presumir que toda iniciativa de esquerda será prejudicial dificulta reconhecer avanços e negociar soluções. Ao governo cabe compreender que atender demandas justificadas de um setor que votou majoritariamente na oposição é obrigação de Estado, não concessão eleitoral. As reivindicações devem ser examinadas pelo mérito e pelo custo, sem hostilidade e sem privilégios automáticos.
Teremos quatro anos de governo pela frente. O Brasil precisa construir, desde já, uma relação em que divergências políticas convivam com investimento, produção e respeito institucional. O governo não precisa conquistar o voto do produtor, mas precisa conquistar sua confiança para investir e produzir. O agro não pode ser penalizado por suas escolhas políticas. E o país não pode esperar que governo e produtores se tornem amigos para continuar crescendo.
*Antônio Augusto Pinheiro é economista e ex-servidor do Banco Central do Brasil.
Fontes consultadas
* CNN Brasil: “Flávio amplia votos do pai no agro; Lula cai nos 10 maiores polos agrícolas”, de 6 de outubro de 2026. Levantamento sobre os primeiros turnos de 2022 e 2026, com dados do TSE e da Produção Agrícola Municipal do IBGE. (cnnbrasil.com.br)
* Ministério da Agricultura e Pecuária: balanço das exportações do agronegócio em 2025, com valores exportados, participação nas vendas externas e saldo comercial. (gov.br)
* CNA Brasil, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil: propostas para o Plano Safra 2026/2027, divulgadas em 28 de abril de 2026, e Agenda Legislativa do Agro 2026. (cnabrasil.org.br, cnabrasil.org.br)
* CNA Brasil: avaliação do novo marco do seguro rural, publicada em 30 de setembro de 2026. (cnabrasil.org.br)
* Brasilagro: reportagem de 2 de outubro de 2026 com análises sobre identidade política, valores conservadores e posicionamento eleitoral de produtores rurais. (brasilagro.com.br)






