Os registros de lesão corporal contra mulheres na região do Vale do Araguaia, no leste de Mato Grosso, subiram 26% no primeiro trimestre de 2026. Foram 97 casos de janeiro a março, contra 77 no mesmo período de 2025, alta três vezes maior que a do estado, de 8%. Os dados são da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT) e foram compilados pelo Crime Brasil, especialmente para o Fatos de MT. O levantamento analisou os dez municípios da região de saúde Garças-Araguaia: Barra do Garças, Nova Xavantina, Campinápolis, Pontal do Araguaia, Novo São Joaquim, Araguaiana, Torixoréu, General Carneiro, Ribeirãozinho e Ponte Branca.
Somando todos os tipos de ocorrência com vítima mulher, como ameaça, lesão corporal, injúria, violência psicológica e estupro, a região teve 536 registros no trimestre, 5% a mais que em 2025. Não houve feminicídio consumado de janeiro a março, mas a Sesp contabilizou três tentativas, todas em Barra do Garças. No mesmo período do ano passado, houve uma.
Nova Xavantina teve a maior alta da região. Os registros passaram de 80 para 105, aumento de 31%, e as lesões corporais quase dobraram, de 12 para 22. Em Campinápolis, as lesões dobraram, de 6 para 12. Barra do Garças, o maior município da região, manteve o volume estável, com 310 registros, mas as lesões subiram de 40 para 48. Em Novo São Joaquim, os registros passaram de 19 para 23. O levantamento faz uma ressalva: em municípios pequenos, poucos casos a mais ou a menos mudam bastante os percentuais.
Novo São Joaquim voltou ao noticiário em setembro, quando o Tribunal de Justiça de Mato Grosso manteve preso um homem acusado de tentar matar a companheira com faca e foice em março, na zona rural do município. O caso motivou o recorte de dados.
Os boletins da Polícia Civil, que têm série completa até dezembro de 2025, apontam 50 ocorrências de estupro, incluindo estupro de vulnerável, e feminicídio na região no ano passado, ante 53 em 2024. Barra do Garças concentrou 20 casos. Novo São Joaquim teve 3, o que equivale a 41,9 por 100 mil habitantes, acima da média regional, de 33,9. Os feminicídios na região passaram de nenhum em 2024 para dois em 2025, em Nova Xavantina e Ribeirãozinho.
De 2019 a 2025, a Polícia Civil registrou 11 feminicídios nos dez municípios: quatro em Barra do Garças, quatro em Nova Xavantina e um em cada um destes municípios: General Carneiro, Ribeirãozinho e Torixoréu. Em todo o estado foram 316 no mesmo período. O ano de 2025 terminou com 52 casos, o segundo maior número da série, atrás apenas de 2020, com 56.
Os dados de saúde reforçam a posição de Mato Grosso acima do país. Segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, o estado teve média de 2,51 mortes de mulheres por agressão para cada 100 mil habitantes ao ano entre 2019 e 2024. A média nacional foi de 1,78, ou seja, Mato Grosso ficou 41% acima. Na região Garças-Araguaia, a taxa foi de 1,02, com nove mortes no período: cinco em Barra do Garças, três em Nova Xavantina e uma em Torixoréu.
As notificações do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), feitas por serviços de saúde, mostram como acontece a violência. De 2018 a 2024, a região registrou 359 casos de violência interpessoal contra mulheres. Em 74% deles houve violência física. Quase metade das agressões, 49,6%, foi cometida por marido, companheiro, namorado ou ex-parceiro, e a maioria ocorreu dentro de casa. As notificações triplicaram no período: passaram de 32 em 2018 para 96 em 2024, o maior número da série.
O Crime Brasil ressalta que as bases não se somam nem se comparam entre si, porque cada uma tem método e período próprios. Os boletins da Polícia Civil não informam sexo da vítima, e por isso os estupros incluem vítimas de ambos os sexos. Não há na base policial uma categoria específica para tentativa de feminicídio. O levantamento alerta ainda que a ausência de mortes classificadas como agressão em alguns municípios não significa ausência de feminicídio. Mato Grosso registra entre 90 e 160 mortes por ano com intenção indeterminada, quando a perícia não define se houve agressão, acidente ou suicídio, e parte dos casos pode estar nessa categoria, sobretudo no interior.
Denúncias de violência contra a mulher podem ser feitas pelo Ligue 180, que funciona 24 horas e é gratuito, ou pelo 190, em caso de emergência.
Confira as últimas notícias do Fatos (CLIQUE AQUI)







