O "é 4… 4… 4" dito pelo locutor Cuiabano Lima no palco da Arena Pantanal, em Cuiabá, virou pedido de cassação. Pedro Taques (PSB), candidato ao Senado, protocolou na noite de quarta-feira (30) no Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT) uma ação contra o ex-governador Mauro Mendes (União), que disputa o mesmo cargo com o número 444. Também são acusados a mulher dele, Virgínia Mendes, candidata a deputada federal com o número 4444, e os suplentes Cidinho Santos e Elson Ramos (Podemos). Taques afirma que o show "Histórias – O Show do Século", em 26 de setembro, foi usado como comício a oito dias da eleição e pede a cassação do registro ou do diploma dos beneficiados, além da inelegibilidade dos envolvidos.
Quem produziu o espetáculo foi a Ditado Produções, empresa de Elson Ramos, segundo suplente de Mauro. É nesse dado que a ação se apoia para rebater a explicação do ex-governador, que em entrevista coletiva na terça-feira (29) atribuiu a fala à iniciativa do locutor. "Quem contratou o locutor foi a própria chapa", diz a petição.
Segundo a transcrição apresentada por Taques, antes da entrada de Chitãozinho & Xororó o apresentador elogiou Mato Grosso como "um estado bem administrado" e completou: "E fazer, Mauro Mendes, o que tinha que ser feito!". Na sequência citou os suplentes ("Elson Ramos, você é o cara! Cidinho Santos, você é o cara!") e a candidata a federal ("Vai lá, Virgínia!"). Depois veio o número e a frase "domingo que vem é o dia". O primeiro turno é neste domingo, 4 de outubro. A ação calcula mais de 40 mil pessoas na plateia do evento, que tinha ingressos vendidos e reuniu ainda Zezé Di Camargo & Luciano, Bruno & Marrone e Daniel.
Virgínia Mendes aparece na ação por causa do que publicou naquela noite. Nos stories do Instagram, ela registrou a chegada do marido com a legenda "Ao som de Evidências, meu amor chegou!". Em seguida, republicou trechos da fala do locutor com a identidade visual da campanha e as legendas "Obrigada meu amigo. Vamos juntos!" e "É 4444". Para Taques, a candidata soube da manifestação, agradeceu e a reaproveitou como propaganda.
Na coletiva, Mauro negou participação. "Eu sou responsável pelos atos que eu pratico. E eu não pratiquei nenhum ato, não pedi para fazer", afirmou. "Na hora lá, nem vi. Alguém falou: 'o cara falou o seu nome', eu estava conversando." O ex-governador disse ainda que, se a tese valesse, "seria fácil cassar alguém", bastando contratar um locutor. A petição responde que a lei alcança o candidato diretamente beneficiado, mesmo que ele não tenha feito nem pedido o ato, e que a declaração confirma que o nome foi citado no palco.
Taques monta a acusação em três frentes. A primeira é a proibição de showmício, que impede apresentações artísticas para promover candidatos. A segunda é o uso de bem público em favor de candidatura, já que a Arena Pantanal pertence ao Estado. A terceira trata de abuso de poder econômico. Palco, som, telões e atrações foram pagos por uma empresa, e pessoas jurídicas não podem financiar campanhas. A ação afirma não ter notícia de registro desse benefício nas prestações de contas e pede que isso seja verificado.
A petição descreve também o coro com xingamento ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), puxado por parte do público. Taques diz que não atribui aos acusados a reação da plateia, mas ao locutor, que teria respondido "vocês ainda foram gentis". O próprio texto admite que há registros com outra redação e deixa a confirmação para a perícia. Oito publicações de páginas de notícias sobre o episódio somavam, até quarta-feira, cerca de 49 mil curtidas, 8,5 mil comentários e 2,7 mil compartilhamentos, segundo levantamento anexado.
Quatro testemunhas foram indicadas, entre elas o procurador-geral de Justiça de Mato Grosso, Rodrigo Fonseca Costa, e um promotor de Justiça. A ação informa apenas que elas estiveram no show ou acompanharam a repercussão. Taques pede que o Estado entregue o processo de cessão da Arena, com a autoridade que liberou o estádio, o preço pago e as contrapartidas. Quer ainda que a Ditado apresente o contrato com o locutor, o roteiro de palco, as gravações oficiais e os documentos financeiros do evento. Outro pedido é para que a Meta preserve os stories de Virgínia, que saem do ar em 24 horas.
Em caráter de urgência, o candidato pede que os acusados e a administração da Arena sejam proibidos de usar o estádio para propaganda eleitoral enquanto durar a campanha. O caso foi distribuído ao corregedor regional eleitoral, desembargador Marcos Machado. Como a chapa ao Senado é única, uma eventual cassação atinge o titular e os dois suplentes.
A ação menciona um episódio anterior. Em 24 de setembro, dois dias antes do show, Taques havia comunicado ao tribunal, em outra representação contra Mauro, um vídeo gravado no Parque Novo Mato Grosso. Segundo ele, o ex-governador aparece apresentando a obra como realização sua, em conteúdo impulsionado com recursos de campanha. Para o autor, os dois casos mostram uso repetido de espaços públicos na reta final da disputa.
Mauro, Virgínia, Cidinho Santos e Elson Ramos serão notificados para apresentar defesa. O Ministério Público Eleitoral acompanha o processo.







