
Os impactos ambientais e socioeconômicos de possíveis hidrelétricas no Rio Cuiabá voltaram ao centro do debate. Um parecer elaborado pelo professor Dilermando Pereira Lima Junior, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), aponta que a instalação de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) no curso do rio pode comprometer de forma grave a conectividade fluvial, a reprodução de peixes e o equilíbrio ecológico do Pantanal, uma das maiores áreas úmidas do planeta.
A análise foi utilizada pelo Ministério Público Federal (MPF) em recomendação enviada à Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT). O órgão estadual confirmou que, a partir de agora, passará a adotar referências técnicas e científicas nas análises de novos pedidos de licenciamento para hidrelétricas, ainda que não haja projetos em tramitação imediata.
Segundo o MPF, os Estudos de Impacto Ambiental apresentados para o Complexo de PCHs previsto no Rio Cuiabá são insuficientes. O parecer da UFMT cita falhas na coleta de dados, ausência de modelagem hidrológica adequada e desconsideração de cenários de redução de vazões. Também alerta para a subestimação de efeitos como o hydropeaking — variações bruscas de vazão — e a homogeneização hidrológica, que prejudicam diretamente o Pantanal.
Entre os impactos destacados estão a mortalidade de peixes ao passarem por turbinas, falhas nas escadas de transposição, fragmentação de habitats aquáticos e a interrupção dos ciclos naturais de cheias e vazantes. Esses processos são essenciais para a reprodução de espécies migratórias, além de manter a dinâmica ecológica do bioma, reconhecido pela Unesco como Reserva da Biosfera.
As consequências ultrapassam o campo ambiental. O Rio Cuiabá é responsável por cerca de 88% dos sedimentos que chegam ao Pantanal e concentra as principais áreas de reprodução de peixes da região. A pesca artesanal, fundamental para a renda e a segurança alimentar de comunidades ribeirinhas, estaria entre as atividades mais prejudicadas.
Pesquisadores também alertam para o risco de um “sequestro” do rio, expressão que faz referência à apropriação dos recursos naturais por empreendimentos energéticos em detrimento da população local.
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