A tentativa da Polícia Federal de vigiar em segredo os saques no posto do Sicoob dentro do Tribunal de Contas de Mato Grosso, na manhã de 14 de outubro de 2025, terminou com um agente barrado pela segurança do próprio tribunal. Os policiais já tinham sido reconhecidos logo na entrada porque haviam participado, em 2016, de um workshop no mesmo prédio. O episódio, contado na representação que embasou as prisões da Operação Tomada de Contas, virou um dos principais argumentos do ministro Og Fernandes, do STJ, para mandar prender o presidente do TCE, Sérgio Ricardo de Almeida, e mais cinco investigados.
Com uma “história cobertura”, os agentes sentaram na sala de espera da pequena agência, que funciona ao lado de um posto do Itaú e de caixas eletrônicos do Banco do Brasil no prédio do tribunal. Viram entrar um homem com características semelhantes às de Adriangelo Barros Antunes, ex-cunhado do presidente, sem crachá e com uma “mala de mão preta vazia”. Ele circulava pela agência “sem ser interpelado por nenhum funcionário da cooperativa”, detalhe que a PF lê como sinal de habitualidade.
Pouco depois chegou Roseli Loss, chefe de gabinete do presidente, de crachá. Foi ao caixa e cumprimentou apenas aquele homem. Quando ela saiu, ele foi ao guichê e deixou a agência com a mochila “cheia, diferentemente do momento em que entrou”. Passou a catraca com cartão de servidor e seguiu para outros prédios do complexo. Um policial tentou acompanhá-lo, mas foi interpelado pela segurança interna, “fato que comprometeu o sigilo da equipe e motivou o encerramento imediato da diligência de campo”. No extrato do conselheiro, aquele dia registra um saque de R$ 490 mil.
O que veio depois é a parte que mais pesou na decisão. Segundo a PF, os provisionamentos e saques grandes nas contas do presidente pararam de forma abrupta. O saque seguinte comunicado ao Coaf só ocorreu em 11 de maio de 2026, quase sete meses depois, no valor de R$ 100 mil. Em janeiro de 2026 foram provisionados R$ 800 mil, em dois pedidos de R$ 400 mil, que não viraram saque. O Sicoob informou que a retirada não se concretizou, “mas não por falta de saldo”.
O dinheiro continuou entrando. Em 2026, o TCE fez créditos recorrentes de R$ 526.034,08 nas contas do conselheiro, em 19 de janeiro, 27 de fevereiro, 30 de março e 29 de abril, além de um de R$ 620.940,65 em 4 de fevereiro. No lugar dos saques, apareceram transferências para um número crescente de destinatários, que chegou a 47 entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026. Em 2 de fevereiro, foram feitas duas transferências como “depósito judicial”, de R$ 1.211.125,05 e R$ 81.568,46. Em maio, as duas contas somavam R$ 3,24 milhões de saldo.
“O grupo criminoso, ao se perceber monitorado, alterou seu modus operandi e interrompeu o circuito de movimentações com o fito de ocultar a dinâmica”, escreveu a PF. O ministro seguiu o raciocínio. Na decisão, afirma que, “diante do conhecimento da diligência policial, os investigados atuaram de forma a ocultar a prática delitiva, readequando o modus operandi para não levantarem mais suspeitas”.
Os saques voltaram em maio de 2026. Imagens de 11 e 14 de maio mostram, segundo a PF, “a repetição da dinâmica já conhecida”, com Roseli no caixa e a retirada do dinheiro em seguida. O consultor jurídico-geral do tribunal, Grhegory Maia, também foi filmado guardando blocos de dinheiro numa mochila em 12 de novembro de 2025, menos de um mês depois da campana.
A cronologia tem lacunas que a defesa deve explorar. A quebra de sigilo bancário termina em 22 de outubro de 2025, e o período seguinte é reconstruído a partir de comunicações do Coaf, que trabalham por amostragem. As câmeras mostram Roseli no caixa em 22 de outubro e 11 de novembro, e houve saques pequenos em caixa eletrônico depois da diligência. A identificação de Adriangelo naquela manhã foi feita por semelhança física, e o laudo de reconhecimento facial, segundo a PGR, “não realizou exame de comparação facial, apenas filtragem automatizada de candidatos”.
Mesmo com essas ressalvas, o episódio pesou contra a tese da Procuradoria-Geral da República, que preferia afastar os investigados com tornozeleira e fiança. Para o ministro, a reação à campana mostra uma estrutura com “capacidade de adaptação a mecanismos de fiscalização”. A defesa de Sérgio Ricardo pediu acesso aos autos e ainda não se pronunciou sobre o mérito.
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