O procurador da Assembleia Legislativa Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, cedido ao Tribunal de Contas de Mato Grosso desde 2020 como consultor jurídico-geral, foi quem falou em nome do tribunal no Supremo Tribunal Federal nas ações que discutiam o pagamento de verbas indenizatórias aos conselheiros. Segundo a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República, ele se tornou o maior credor do TCE em 2025, acima de qualquer empresa contratada: R$ 32.310.120,43 em 217 lançamentos entre 1º de janeiro e 22 de outubro. Grhegory está preso desde quinta-feira (29) por ordem do ministro Og Fernandes, do STJ.
Quase nada desse dinheiro caiu no dia do salário. A PF separa R$ 577,2 mil pagos nas datas de folha e R$ 31,7 milhões espalhados ao longo dos meses, em 179 ordens bancárias avulsas. O volume mensal cresceu sem parar: R$ 1,89 milhão em janeiro, R$ 2,54 milhões em maio, R$ 3,82 milhões em agosto, R$ 4,77 milhões em setembro e R$ 7,61 milhões em outubro, contados só até o dia 22. Por dia útil, segundo a PGR, os créditos passaram de R$ 80,2 mil para R$ 475,8 mil.
As ações no STF foram as ADIs 6.329 e 6.364, julgadas em maio de 2020. Por unanimidade, o Supremo suspendeu a lei estadual que estendia aos conselheiros verba indenizatória de até um subsídio, com acréscimo de 50% para o presidente. A PGR destaca que Grhegory atuou nos dois processos como representante do TCE na condição de amicus curiae. “Apesar disso, exercia a consultoria jurídica da instituição e era o principal destinatário dos pagamentos investigados”, escreveu o ministro Og Fernandes na decisão.
O dinheiro chegava dividido. Grhegory recebeu em 12 contas abertas em nove instituições: Banco do Brasil, Itaú, Sicoob, XP, C6 Bank, Bradesco, Nubank, BTG Pactual e Inter, todas ativas ao mesmo tempo, com até sete contas creditadas num mesmo dia. Em 22 de setembro de 2025, por exemplo, foram sete ordens, entre R$ 87 mil e R$ 398 mil, que somaram R$ 2 milhões. “Vislumbra-se, nesse aspecto, a pretensão de segmentar os dados, a fim de que nenhuma das instituições financeiras detenha a visão de toda a movimentação bancária. Contudo, a magnitude dos valores transacionados lança por terra o eventual mérito da estratégia”, afirma a PF.
O patrimônio também chamou a atenção dos investigadores. Em 22 de julho de 2025, quando os pagamentos começaram a acelerar, ele abriu a Maia Reining Horses, empresa de criação de cavalos quarto de milha de rédeas e venda de embriões e sêmen. A PF diz que a abertura “não pode ser dissociada do risco potencial de lavagem de dinheiro, tendo em vista que transaciona bens e semoventes de valoração subjetiva”. Em outubro de 2025, mês de maior recebimento, comprou uma Land Rover Defender avaliada em R$ 735.277 pela tabela Fipe. Os seis veículos em nome dele somam R$ 1,39 milhão, e em abril de 2026 ele escriturou um imóvel de R$ 305,5 mil em Campo Grande (MS).
Há ainda um vínculo com a família do presidente do tribunal. Segundo a PF, Grhegory “aparentemente” vendeu uma picape RAM 1500 ao filho do conselheiro Sérgio Ricardo de Almeida, “no curso dos fatos investigados”. A holding patrimonial da família do consultor é administrada pela sogra dele e, até pouco tempo atrás, era administrada pela esposa de Gustavo Fernandes da Silva, assistente jurídico subordinado a Grhegory e também preso na operação.
A investigação o coloca em duas cenas no posto do Sicoob dentro do tribunal. Em 7 de outubro de 2025, ele abriu um atendimento com maços de dinheiro sobre o balcão e saiu sem tocar no dinheiro, recolhido minutos depois por Gustavo. Em 12 de novembro, depois de a vigilância policial ter sido descoberta, guardou numa mochila preta blocos de dinheiro que a funcionária já contava antes de ele chegar.
O próprio Grhegory registrou boletim de ocorrência em 20 de dezembro de 2024 relatando ameaças a ele e à família. No documento, ligou as ameaças ao trabalho na suspensão de contratos do tribunal: “CONSIDERO QUE A AMEAÇA TENHA RELAÇÃO COM MINHA ATUAÇÃO RECENTE NA ANÁLISE E PARECER TÉCNICO SOBRE A SUSPENSÃO DE CONTRATOS VULTOSOS NO TRIBUNAL DE CONTAS DE MATO GROSSO”.
A PGR havia proposto, em vez da prisão, fiança de R$ 3.381.307,78 para o consultor, a maior entre os investigados, além de suspensão também do cargo de procurador da Assembleia e proibição de advogar no TCE. O ministro considerou a medida insuficiente e o descreveu como “principal destinatário dos pagamentos e articulador jurídico e financeiro”. Os números brutos incluem ordens canceladas e reemitidas. Descontadas essas operações, segundo a PGR, o total recebido cai para R$ 30,98 milhões. O espaço segue aberto para manifestação da defesa.
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