Geraldo Magela/Agência Senado

Dos EUA, Flávio conta que decidiu fugir após ser intimado no portão do pai
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) contou em vídeo publicado na noite de sexta-feira (30) que decidiu deixar o Brasil logo depois de ser intimado pela Polícia Federal no portão da casa do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A intimação foi na manhã de segunda-feira (26), um dia depois da derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno. Era a ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para que entregasse os passaportes e não saísse do país. Na transmissão, feita nos Estados Unidos, onde está com a mulher, Fernanda, e as duas filhas, o senador disse que a saída não foi sinal de fraqueza. "Eu não saí do Brasil, eu saí pelo Brasil", afirmou.
O relato começa na visita ao pai, que, segundo Flávio, cumpre prisão domiciliar. Ele disse ter recebido de novo autorização para vê-lo por 30 minutos, como advogado, e que chegou por volta das 10h. Os dois conversaram sobre o resultado da eleição. No fim do horário, a pessoa encarregada de avisar que a visita tinha acabado informou que havia policiais federais na porta. "Pai, começou a perseguição", disse ter respondido.
Na calçada, recebeu a decisão. Flávio contou que o pai pediu aos delegados que se afastassem para falar com ele a sós. "Me olhou com os olhos cheios de lágrimas e falou: já sabe onde é que eles querem chegar com isso, né", relatou. Disse ter respondido que sabia o que tinha de fazer. Em casa, conversou com a mulher. "A decisão eu tomei junto com a minha esposa, sem que ninguém soubesse, até porque se soubesse a chance de dar errado seria maior", afirmou. Pediu aos apoiadores que não culpem ninguém da equipe de campanha pela saída.
A decisão de Moraes foi tomada na noite de domingo (25), depois de pedido da Polícia Federal no inquérito que investiga o senador e o advogado Willer Tomaz por suspeita de lavagem de dinheiro. O TSE havia declarado Lula eleito às 21h10. O petista teve 63,77 milhões de votos (51,75% dos válidos), contra 59,46 milhões (48,25%) de Flávio. O senador tinha 24 horas para entregar os passaportes brasileiros, comum e diplomático, e o italiano. Não entregou, e a PF cancelou os documentos na terça-feira (27).
Segundo as autoridades migratórias da Argentina, Flávio, a mulher e as filhas embarcaram em um jato particular em Puerto Iguazú, na província de Misiones, por volta das 23h30 de terça. O avião parou em Guayaquil, no Equador, para abastecer e pousou em Miami na manhã de quarta-feira (28). A PF informou não ter registro de saída legal do senador pelo território brasileiro. No vídeo, Flávio não explicou como cruzou a fronteira. O Departamento de Estado americano informou que vai conceder vistos a ele e à família.
Ao justificar a fuga, o senador repetiu que o país vive "um regime de exceção" e que as instituições estão "completamente aparelhadas". "Eu posso ser tudo menos burro, eu soube fazer análise de cenário", disse. Afirmou que, se ficasse, seria "só mais uma voz calada e censurada" e que seria usado como "moeda de troca" em negociações que, segundo ele, envolvem a liberdade do pai. Chamou essas conversas de "nojentas", sem dizer quem participa delas. Comparou a própria situação à do irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos e tem mandado de prisão em aberto no Brasil.
A saída provocou reação no mesmo dia em que foi confirmada. Os deputados federais Lindbergh Farias (PT-RJ) e Rogério Correia (PT-MG), com a deputada eleita Ana Elisa Santos (PT-MG), pediram a Moraes a prisão preventiva do senador e, se ela for decretada, a inclusão do nome dele na lista de alerta vermelho da Interpol. Para os petistas, a falta de entrega dos passaportes foi um descumprimento voluntário da ordem judicial. Em nota na quarta, a PF afirmou que a decisão de Moraes não autorizava a prisão do senador. Até a publicação deste texto, o ministro não havia se pronunciado sobre o pedido.
No Senado, deputados do PSOL e um parlamentar do PT enviaram ofício ao presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), pedindo que seja apurado o abandono das funções, suspensa a remuneração e avaliada a perda do mandato. O mandato de Flávio termina em 31 de janeiro de 2027. Pela Constituição, perde o cargo o senador que faltar a um terço das sessões ordinárias do ano sem licença ou missão autorizada.
O senador prometeu aparecer com frequência nas redes sociais a partir de agora. "A gente paga um preço alto por defender aquilo que a gente acredita, mas vale muito a pena", disse.
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