O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial, divulgou nesta quarta-feira (28), já nos Estados Unidos, uma carta em que se apresenta como “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”. No texto, ele diz que houve “fraude eleitoral”, pede a cassação da chapa Lula-Alckmin e anuncia que vai “liderar a oposição daqui”. Flávio deixou o país dois dias depois de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandar que ele entregasse os passaportes e proibi-lo de sair do Brasil.
“Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil”, escreveu. Na carta, ele agradece ao presidente da Argentina, Javier Milei, “pela coragem, senso de justiça e legalidade”, e ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por acolher a família. Segundo a Direção Nacional de Migração da Argentina, Flávio, a mulher e as duas filhas saíram de Puerto Iguazú, na província de Misiones, num avião que decolou às 23h30 de terça-feira (27) e fez escala em Guayaquil, no Equador, antes de pousar na Flórida, por volta das 10h30 desta quarta. A Polícia Federal não encontrou registro de saída dele por posto regular de migração no Brasil.
Para sustentar a acusação de fraude, Flávio cita a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que estendeu a votação do segundo turno por duas horas a pedido do PT, diante de relatos de falta de transporte para eleitores. Na carta, sem citar Zanin pelo nome, ele chama o ministro de “ex-advogado do Lula” e afirma que houve uma “impossibilidade matemática”, já que Lula somou mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 34.330 eleitores votaram depois das 17h no segundo turno, quase todos nos primeiros cinco minutos. Lula venceu por cerca de 4,4 milhões de votos: foram 64,2 milhões (51,79% dos válidos) contra 59,8 milhões de Flávio (48,21%). O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, afirmou que a prorrogação não afetou o resultado e que a extensão valeu só para seções que ainda estavam abertas.
A decisão de Moraes foi tomada num inquérito sigiloso que apura suposta lavagem de dinheiro ligada a casas de apostas. A investigação tem como alvo o advogado Willer Tomaz e, segundo a PF, também investiga Flávio, por ser beneficiário de recursos de uma empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal. Na carta, Flávio diz que o ministro está “implicado em um imenso escândalo de corrupção” e que, por isso, estaria impedido de atuar no caso. Ele não apresenta prova dessa acusação, e não há denúncia formal contra Moraes. O senador afirma ainda que “não existe nenhum mandado de prisão” contra ele e classifica a investigação como “caça às bruxas politicamente motivada”.
Flávio compara a própria situação com a de Rui Barbosa, Charles de Gaulle, José Martí e opositores venezuelanos que deixaram seus países. Ele se dirige aos “60 milhões de eleitores” e diz que, nos próximos dias, vai apresentar uma estratégia para mobilizar a oposição “por todos os meios pacíficos e legítimos”. Também faz um apelo à comunidade internacional para “não normalizar” a situação do país e cita o senador Rogério Marinho (PL-RN) como seu candidato à presidência do Senado.
O pai do senador, o ex-presidente Jair Bolsonaro, cumpre pena depois de ser condenado pelo STF por tentativa de golpe de Estado. O irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, vive nos Estados Unidos e tem mandado de prisão em aberto no Brasil. Segundo o próprio Flávio, a decisão de Moraes citou declarações de Eduardo de que o irmão deveria deixar o país se perdesse a eleição.
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