O procurador legislativo Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, preso desde 29 de outubro na Operação Tomada de Contas, não está mais cedido ao Tribunal de Contas de Mato Grosso. A Mesa Diretora da Assembleia Legislativa encerrou a cessão a partir de 3 de novembro, por ato assinado em 5 de novembro pelo presidente da Casa, deputado Max Russi (Podemos), e pelo primeiro-secretário, deputado Dr. João (MDB), e publicado no Diário Oficial Eletrônico da Assembleia na sexta-feira (6). Grhegory ocupava no TCE o cargo de consultor jurídico-geral desde 2020. A Polícia Federal o aponta como o maior beneficiário dos pagamentos investigados no tribunal: R$ 32,3 milhões entre janeiro e outubro de 2025.
A cessão tinha sido renovada menos de um ano atrás. O ato cita o terceiro termo aditivo ao termo de cessão de 2020, publicado em 10 de dezembro de 2025, ao fim do ano em que, segundo a PF, os créditos do TCE para o consultor passaram de R$ 1,89 milhão em janeiro para R$ 7,61 milhões nos 22 primeiros dias de outubro. A investigação corria em sigilo no Superior Tribunal de Justiça, e nada indica que a Assembleia soubesse dela quando renovou o vínculo.
O fim da cessão devolve Grhegory ao quadro de procuradores da Assembleia, onde ele é servidor efetivo, mas não afeta o cargo. Na quarta-feira (4), antes da publicação do ato, Max Russi disse que um concursado não pode ser simplesmente demitido. “Você tem que abrir um PAD, um procedimento, uma investigação, tem todo um processo”, afirmou. Segundo ele, qualquer medida tomada fora desse rito “é anulada dentro de 30 dias”. Na mesma entrevista, o presidente da Assembleia declarou: “Eu, particularmente, quero Grhegory aposentado, então não retorna para a Assembleia”. A aposentadoria, porém, depende de requisitos legais e não pode ser decidida pela presidência. Até a publicação do ato, não havia registro de processo disciplinar aberto contra o procurador.
O ato também não diz como fica a remuneração. Segundo a Assembleia, enquanto durou a cessão, o salário de Grhegory era pago pelo TCE por meio de reembolso à Casa. Com o retorno ao órgão de origem, a Assembleia volta a ser a responsável pelo vínculo funcional, sem que o ato esclareça a situação do servidor durante a prisão preventiva.
A data de efeito do encerramento coincide com a de outra medida tomada no tribunal. Em 3 de novembro, o presidente interino do TCE, conselheiro Waldir Teis, exonerou Grhegory da função de consultor jurídico-geral, numa lista de 16 investigados afastados de cargos e funções comissionados. O ato da Assembleia menciona um ofício como base para o encerramento da cessão, sem detalhar no texto quem o enviou.
A Procuradoria-Geral da República já tinha tratado do vínculo com a Assembleia no parecer enviado ao STJ em outubro. Ao propor medidas alternativas à prisão, a PGR pediu que a suspensão de Grhegory se estendesse “à função de origem, de Procurador da Assembleia Legislativa”, com proibição de entrar também no prédio da Casa e de ser nomeado, designado ou cedido de novo. O ministro Og Fernandes preferiu a prisão preventiva pedida pela PF e descreveu o consultor como “principal destinatário dos pagamentos e articulador jurídico e financeiro” do grupo investigado.
Os dados da investigação explicam a escolha. Dos R$ 32,3 milhões, R$ 31,7 milhões caíram fora do dia do salário, em 12 contas abertas em nove bancos. Para a PF, a divisão mostra a “pretensão de segmentar os dados, a fim de que nenhuma das instituições financeiras detenha a visão de toda a movimentação”. Em julho de 2025, quando os pagamentos aceleraram, ele abriu uma empresa de criação de cavalos de rédeas. Em outubro, mês de maior recebimento, comprou uma Land Rover Defender avaliada em R$ 735 mil. As câmeras do posto do Sicoob dentro do TCE o registraram em duas ocasiões. Na segunda, em 12 de novembro de 2025, ele guardou blocos de dinheiro numa mochila. O mesmo consultor havia representado o tribunal no Supremo Tribunal Federal na defesa da verba indenizatória dos conselheiros, suspensa pela corte em 2020.
Grhegory segue preso. A defesa não se manifestou sobre o fim da cessão.
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