A decisão do ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que levou à prisão do presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT), Sérgio Ricardo, nesta quinta-feira (29), reconstitui quase três anos de pagamentos, saques e mudanças de comportamento dos investigados. A reportagem organizou em ordem cronológica os principais fatos descritos no documento.
Em 2017, o STF afastou cinco conselheiros do TCE, entre eles Sérgio Ricardo e José Carlos Novelli, na Operação Ararath, investigação depois arquivada. Eles voltaram aos cargos em 2021. Sérgio Ricardo assumiu a presidência do tribunal para o biênio iniciado em 2024. Em 1º de janeiro daquele ano, Roseli Loss, que trabalhou com ele na Assembleia Legislativa, tornou-se chefe de gabinete da Presidência. Em fevereiro de 2024, ela sacou R$ 200 mil de uma conta ligada ao presidente; em abril, outros R$ 340 mil.
Em 5 de agosto de 2024, a Portaria nº 126 suspendeu por 90 dias os contratos e pagamentos do TCE, alegando contenção orçamentária, com exceção dos contratos que a Presidência considerasse fora da regra. O conselheiro Guilherme Maluf foi designado para conduzir a medida. Entre agosto e outubro, os pagamentos mensais subiram de R$ 67 milhões para R$ 80 milhões, e algumas empresas passaram a receber até 327% a mais. Em 17 de outubro, a Portaria nº 172 prorrogou a suspensão até o fim do ano.
Ao longo de 2025, a PF identificou R$ 75,8 milhões em movimentações suspeitas, entre 1º de janeiro e 22 de outubro. Sérgio Ricardo recebeu R$ 15,4 milhões e fez 150 saques em espécie. Em julho, o consultor jurídico-geral Grhegory Maia abriu um haras. Em setembro, o genro de Novelli e um assessor ligado à família passaram a ser pagos nos mesmos lotes do conselheiro, e Adriangelo Barros Antunes, ex-cunhado de Sérgio Ricardo, começou a receber.
Entre 4 de setembro e 7 de outubro de 2025, as câmeras da agência do Sicoob dentro do TCE registraram assessores sacando sem cartão, por QR Code e com sinais para esconder a operação de terceiros. Em 14 de outubro, policiais viram um homem com as características de Adriangelo entrar no posto bancário com uma mochila vazia e sair com ela cheia. No mesmo dia, o controle de acesso do tribunal detectou os policiais, e a segurança do órgão abordou um agente.
Depois disso, segundo a decisão, os grandes saques pararam, o dinheiro passou a se acumular nas contas e foi aplicado. Ainda em outubro, Roseli virou procuradora bancária de Sérgio Ricardo. Em 23 de dezembro, Alisson Alencar, que recebia R$ 150 mil por mês como procurador de contas, tomou posse como conselheiro.
Em 2026, o TCE fez pagamentos de janeiro a abril. Em 1º de abril, segundo informação levada ao STF, o tribunal suspendeu as verbas indenizatórias. Em maio, os saques em espécie voltaram, com registro em 11 de maio. O orçamento do ano prevê R$ 140,1 milhões para indenizações. Nesta quinta-feira, a PF cumpriu seis mandados de prisão e 26 de busca, e o STJ afastou três conselheiros em exercício, um aposentado e 11 servidores. As medidas são cautelares e não significam condenação.
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