Por Charles da Educação*
Muito antes de ser eleito vereador, meu dia de trabalho costumava terminar com uma roda de idosos num salão de CRAS. Eu era professor de educação física contratado pela Secretaria de Assistência Social e passava a semana rodando pelos bairros: Cristo Rei num dia, Santa Maria em outro, Potiguar depois. Chegava com a caixa de som, puxava o alongamento e, no fim, quase sempre tinha baile. Gente de setenta, oitenta anos dançando num salão simples de Várzea Grande, e eu ali no meio, muitas vezes mais aluno do que professor.
Hoje, 1º de outubro, é o Dia Internacional da Pessoa Idosa, e no Brasil também o Dia Nacional do Idoso. Confesso que não consigo pensar nessa data no abstrato, com aquela frase bonita de cartão. Eu penso em nomes e rostos. Na senhora que chegava calada, de cabeça baixa, e que depois de alguns meses de convivência era a primeira a puxar a dança. No senhor que jurava que tinha ido "só olhar" e terminava na frente da fila.
É isso que quase ninguém enxerga quando o assunto é velhice. A gente trata envelhecer como uma questão de remédio e pressão alta, e esquece a parte que mais adoece, que é a solidão. Aquele baile não era passatempo. Para boa parte daquela gente, era a única hora da semana em que alguém os chamava pelo nome, em que o corpo deles voltava a ter companhia. Eu vi idoso chegar reclamando do joelho e sair rindo, não porque a dor passou, mas porque por uma tarde ele deixou de estar sozinho.
Confira as últimas notícias do Fatos (CLIQUE AQUI)
Siga o instagram do Fatos (CLIQUE AQUI)
Participe do grupo do Fatos (CLIQUE AQUI).
Aquilo tudo tem nome técnico, Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, e faz parte do trabalho do CRAS. Mas, na prática, era o município cuidando de quem passou a vida inteira cuidando dos outros. E essa conta só cresce. O Brasil envelhece rápido: o Censo do IBGE mostrou que o número de pessoas com 65 anos ou mais aumentou mais de 57% em pouco mais de uma década. Daqui a pouco, cuidar bem da velhice não vai ser uma política entre tantas. Vai ser uma das mais importantes que uma cidade tem.
Carrego essa experiência comigo na Câmara, e ela me cobra. Quando defendo praça com academia ao ar livre, transporte que o idoso consiga de fato usar, posto de saúde que atenda sem fazer ninguém se sentir um estorvo, grupo de convivência que não feche por falta de verba, não é teoria que li num manual. É o salão do CRAS que eu conheço por dentro. Sei o que aquela roda faz por uma pessoa, e sei o tamanho do buraco que fica quando ela deixa de existir.
Por isso o meu Dia do Idoso é um obrigado, mas também um compromisso. Obrigado a cada senhor e cada senhora que me ensinaram, naquele salão, que envelhecer com dignidade é direito, e não favor. E o compromisso de trabalhar para que Várzea Grande trate quem envelheceu aqui do jeito que aquela turma me tratou: pelo nome, com paciência e com um lugar guardado na roda.
*Charles da Educação, vereador de Várzea Grande (União).







