Por Janielly Carvalho Camargo*
As eleições de 2026 deixaram uma pergunta incômoda para Mato Grosso: que espaço a sociedade mato-grossense está disposta a conceder às mulheres nos lugares onde o poder é exercido e as decisões são tomadas? O Estado registrou 139 candidaturas femininas entre as 400 disputas consideradas, cerca de 35% do total, mas essa presença ainda não se traduziu em representação política proporcional.
Na Assembleia Legislativa, apenas duas mulheres foram eleitas para 24 cadeiras, enquanto três ocuparão as oito vagas de Mato Grosso na Câmara dos Deputados. A eleição de Gisela Simona para a vice-governadoria também representa uma conquista importante, mas os números evidenciam uma contradição: embora as mulheres constituam aproximadamente 51% do eleitorado, continuam ocupando uma parcela reduzida dos espaços de decisão.
Não faltaram candidatas dispostas a disputar eleições, apresentar propostas e enfrentar campanhas. Por isso, não basta afirmar que as mulheres precisam participar mais ou que o eleitor simplesmente escolhe quem considera mais preparado. É preciso questionar os critérios pelos quais a sociedade reconhece competência, autoridade e liderança. Historicamente, a política foi construída como um espaço predominantemente masculino, e essa herança ainda influencia a maneira como homens e mulheres são avaliados. Enquanto a firmeza masculina costuma ser associada à liderança, a mesma postura feminina pode ser interpretada como arrogância ou agressividade. A mulher, assim, parece precisar provar continuamente que merece ocupar um espaço que, para muitos homens, ainda é visto como natural.
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É preciso, portanto, abandonar o constrangimento de nomear o problema. Machismo existe em Mato Grosso. Misoginia existe. Exclusão política de gênero existe. Isso não significa afirmar que todos os homens são machistas ou que toda derrota eleitoral feminina decorre de preconceito, mas reconhecer que estruturas culturais ainda dificultam o acesso das mulheres ao poder e ao sistema político.
As conquistas eleitorais precisam ser reconhecidas, mas não podem servir de argumento para declarar superada uma desigualdade que permanece evidente. Eleger algumas mulheres é importante. Construir condições para que elas disputem, exerçam mandatos e participem efetivamente das decisões é uma transformação muito mais profunda.
Entretanto, essa discussão sobre representação feminina não pode ser separada da maneira como a sociedade encara a violência contra as mulheres. As recentes declarações públicas do prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, e do deputado estadual Gilberto Cattani sobre feminicídio são preocupantes porque reduzem um problema grave à ideia de paixão, ciúme ou conflito amoroso.
Quando um crime dessa natureza é explicado essencialmente pela dinâmica de um relacionamento, corre-se o risco de tirar do centro da discussão a violência de gênero e a lógica de controle e posse que frequentemente antecedem o assassinato. Não estamos falando apenas de divergências sobre palavras, mas da responsabilidade de representantes públicos ao abordar uma violência que destrói famílias e ameaça a vida das mulheres.
Feminicídio não é uma história de amor que terminou mal, nem uma consequência inevitável do ciúme. Não é ideologia política. É o assassinato de uma mulher em contexto de violência de gênero, muitas vezes precedido por ameaças, perseguição, humilhação, agressões e tentativas de controlar suas escolhas.
Por trás desses crimes, frequentemente aparece a ideia perversa de que um homem tem algum direito sobre a mulher com quem se relaciona, como se ela não pudesse terminar uma relação, dizer não ou reconstruir a própria vida sem sofrer retaliação. É justamente essa lógica que precisa ser enfrentada. A mulher não pertence ao marido, ao namorado ou ao ex-companheiro. Nenhum relacionamento concede a alguém o direito de controlar sua liberdade, muito menos de tirar sua vida.
Quando essa relativização parte de representantes políticos, a preocupação é ainda maior, porque o discurso público influencia a maneira como a sociedade interpreta determinados comportamentos. Uma autoridade que apresenta o feminicídio como simples manifestação passional pode contribuir para banalizar uma violência que precisa ser combatida, não romantizada ou justificada. Paixão não justifica assassinato, ciúme não concede direito de propriedade e separação não autoriza violência. É preciso responsabilizar o agressor sem transformar a conduta criminosa em consequência natural e corriqueira de uma relação amorosa.
Cada feminicídio representa muito mais do que uma estatística. Significa uma filha que não volta para casa, uma mãe que não verá os filhos crescerem e uma família obrigada a conviver com uma ausência irreparável. Os órfãos de mães assassinadas não terão suas mães de volta porque alguém decidiu chamar o crime de paixão. Nenhuma explicação sobre ciúme ou conflito amoroso devolverá essas mulheres às suas famílias. Por isso, discursos que relativizam essa violência precisam ser questionados com seriedade, e não tratados como simples opiniões políticas imunes à crítica.
Também precisamos perguntar se existe relação entre a resistência em reconhecer mulheres como protagonistas nos espaços de poder e a dificuldade de aceitar plenamente sua autonomia na vida privada, inclusive para decidir suas relações. São questões diferentes, mas que estão ligadas por uma mesma cultura de autoridade masculina.
Quando a mulher ocupa um cargo de decisão, sua presença ainda pode ser tratada como excepcional. Quando decide terminar um relacionamento, sua escolha pode ser interpretada por determinados homens como afronta pessoal. Em ambos os casos, aparece a dificuldade de aceitar que mulheres têm autonomia e não precisam de autorização masculina para decidir sobre suas próprias vidas.
Ser mulher em Mato Grosso é difícil, sim, e reconhecer essa realidade não significa atacar o Estado, mas admitir um problema que precisa ser enfrentado. Significa olhar para um estado que apresenta índices recordes de violência contra as mulheres e questionar uma estrutura social ainda marcada pelo patriarcado. Significa defender que candidatas sejam avaliadas por suas propostas, trajetória e competência, que mulheres eleitas possam exercer seus mandatos sem serem reduzidas à aparência, à vida pessoal ou aos estereótipos de gênero, e que vítimas de violência sejam ouvidas e protegidas antes que a situação chegue ao extremo. Significa, sobretudo, querer que nenhuma mulher precise temer pela própria vida ao decidir terminar um relacionamento e que meninas cresçam sabendo que podem ocupar qualquer espaço de poder e decisão sem pedir licença.
Mato Grosso precisa encarar suas contradições: as mulheres são maioria do eleitorado, mas minoria nos principais espaços de poder. Existem candidatas qualificadas e lideranças femininas, mas sua presença ainda enfrenta barreiras. Há leis para combater o feminicídio, mas persistem discursos que procuram explicar esses assassinatos pela ótica da paixão, sem enfrentar adequadamente a desigualdade de gênero e a cultura de posse. Fechar os olhos não resolve o problema. A exclusão continuará enquanto for tratada como normal, e a violência continuará sendo relativizada enquanto a sociedade aceitar justificativas que diminuem sua gravidade.
Não se trata de pedir privilégios, transformar homens em inimigos ou afirmar que toda derrota eleitoral feminina é resultado de machismo. Trata-se de levar a democracia a sério, reconhecer as desigualdades existentes e compreender que a violência contra a mulher também exige respostas políticas, políticas públicas, proteção e responsabilização. Uma democracia representativa não pode se limitar a permitir que mulheres se candidatem.
Precisa garantir condições reais para que disputem, vençam e participem das decisões que definem os rumos da sociedade.
Feminicídio existe. Machismo existe. Exclusão política de gênero existe. Precisamos falar sobre tudo isso, mesmo quando incomoda, provoca reações ou contraria interesses. O silêncio pode ser confortável para quem não sofre a violência, mas nunca foi proteção para quem está ameaçada por ela.
As mulheres de Mato Grosso não precisam de condescendência. Precisam de respeito, representação, segurança e voz. Precisam ocupar os espaços onde as decisões são tomadas e ter sua autonomia respeitada quando dizem não, terminam uma relação, denunciam uma violência ou decidem participar da vida pública. Afinal, uma sociedade que aceita a mulher apenas quando ela obedece, silencia ou permanece no lugar que lhe foi imposto não oferece igualdade: apenas determina até onde ela tem permissão para chegar. É essa lógica que Mato Grosso precisa romper.
*Janielly Carvalho Camargo, bióloga, Mestre e Doutora em Ciências Ambientais e estudante de jornalismo.







