O advogado Alex Cardoso, que defende o médico Euller Gustavo Preza, afirmou neste sábado (17) que as agressões e ameaças de morte contra o cirurgião, após a morte de Lurdes Maria de Lima Pessoa Padilha, de 24 anos, não partiram dos familiares da paciente. Em vídeo de cerca de nove minutos publicado nas redes sociais, ele citou o marido, a mãe e o pai da jovem e pediu às autoridades que investiguem os ataques. Lurdes morreu na sexta-feira (16), durante uma cirurgia plástica no Hospital Geral e Maternidade, em Cuiabá. Segundo o advogado, ela e o marido frequentavam a mesma academia que o médico.
“Uma coisa não justifica a outra”, afirmou Cardoso. Segundo ele, o médico foi agredido fisicamente dentro do hospital e, desde então, vem recebendo ameaças públicas de morte. A declaração contraria as primeiras informações sobre o caso, que atribuíam a agressão a parentes de Lurdes. A nota divulgada pela defesa na sexta-feira não identificava os autores. Informava apenas que a agressão e a ameaça haviam sido registradas em boletim de ocorrência.
O advogado disse compreender a revolta provocada pela morte e atribuiu parte das reações à falta de informação. “Muitas vezes, por ausência de informações, passam a imaginar e conjecturar situações e realmente perdem o controle”, declarou. Ainda assim, classificou as ameaças como desnecessárias e ilegais e pediu que os ânimos sejam contidos.
Cardoso relatou que Lurdes e o marido frequentavam a mesma academia que Euller e conviveram com ele em várias ocasiões. Segundo o advogado, o cirurgião “vem sofrendo muito” com a morte da paciente. Afirmou também que, a pedido do próprio médico, a defesa se colocou à disposição da família para o que for necessário.
Na abertura do vídeo, o advogado explicou que decidiu se manifestar por causa da repercussão do caso e dos riscos aos envolvidos. Disse não gostar de falar por vídeo em situações que envolvem a morte de um paciente. Contou que atua na defesa de médicos desde 2007 e que seu escritório acumula mais de 700 casos.
Sobre a trajetória profissional de Euller, Cardoso afirmou que o médico tem mais de 25 anos de profissão, realizou milhares de procedimentos e nunca havia perdido um paciente. Segundo ele, o número de complicações nas cirurgias realizadas pelo profissional está muito abaixo dos índices descritos na literatura médica. O advogado acrescentou que Euller já atuou em diferentes tipos de procedimento, não apenas em cirurgias plásticas.
O defensor também comentou a ausência do Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em cirurgia plástica, questionada desde a sexta-feira. Segundo ele, a falta do registro está relacionada ao fato de o médico não ter feito residência médica na área. Cardoso reconheceu que, sem o RQE, a legislação impede o uso do título de especialista e afirmou que Euller não se apresenta dessa forma. “Trata-se de um profissional especializado pela prática, pela experiência, pelos cursos, pela pós-graduação”, disse.
A nota oficial da defesa sustenta que todo médico regularmente inscrito no Conselho Regional de Medicina está autorizado por lei a realizar atos médicos, inclusive cirurgias, e que o RQE não é requisito para isso. Pelas normas do Conselho Federal de Medicina (CFM), o registro é obrigatório para que o profissional se apresente ou se anuncie como especialista. Leia mais: “Nunca fui a favor”, diz marido de jovem que morreu durante cirurgia plástica em Cuiabá
Cardoso afirmou que não é possível atribuir erro médico antes da perícia técnica e do devido processo legal. “Sequer perícia técnica existe ainda e foi divulgada”, declarou. Segundo ele, mais de 80% das ações por suposto erro médico que chegam à Justiça são arquivadas porque não se comprova imprudência, negligência ou imperícia. O advogado não apresentou, no relato, a fonte desse percentual. Ele afirmou que esses casos são complexos e precisam ser analisados individualmente.
Na nota divulgada na sexta-feira, a defesa informou que Lurdes passou pelas avaliações pré-operatórias e que a cirurgia ocorreu em ambiente hospitalar adequado, com equipe habilitada. Segundo o texto, os profissionais identificaram uma intercorrência súbita, interromperam o procedimento imediatamente e mantiveram as manobras de reanimação por cerca de duas horas. A defesa sustenta que tudo indica uma complicação descrita na literatura médica e que a causa da morte será esclarecida pelos órgãos responsáveis.
Cardoso também criticou a divulgação de fotografias e informações sobre Lurdes. Segundo ele, a família ainda não havia conseguido realizar o velório porque o corpo passava por perícia. O advogado lamentou que a jovem estivesse sendo exposta por imagens relacionadas à morte, e não lembrada pela família como gostaria. Questionou se ela desejaria que fossem divulgadas informações sobre o procedimento realizado, o local e as circunstâncias da cirurgia. “É um verdadeiro vilipêndio digital que estão fazendo com ela”, afirmou.
O advogado reconheceu que o caso pode ser noticiado, mas defendeu que isso ocorra “nos limites da lei”. Pediu respeito à imagem e à memória da paciente, que informações do prontuário médico não sejam divulgadas e que nenhuma responsabilidade seja atribuída antes da conclusão das investigações. Segundo ele, ainda não é o momento de antecipar outras informações.
Lurdes passava por uma lipoescultura e pela colocação de próteses mamárias quando sofreu uma parada cardiorrespiratória. Ela era casada e deixa dois filhos.
A morte é apurada em três frentes. A perícia deverá esclarecer a causa, a Polícia Civil investiga as circunstâncias e o Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT) abriu sindicância de ofício, que tramita em sigilo. Em nota de esclarecimento, o conselho informou que a apuração não representa condenação antecipada do profissional e que estão assegurados o contraditório e a ampla defesa.
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