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Cidades Quinta-feira, 24 de Setembro de 2026, 21:44 - A | A

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9 meses sem terapia

Seduc corta contrato e deixa 1.200 crianças sem terapia em MT; pais relatam regressão

Famílias relataram regressão de filhos após fim dos atendimentos no Campi, em Várzea Grande

Rojane Marta/Fatos de MT

SeducMT

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A Secretaria de Estado de Educação (Seduc) encerrou em 12 de dezembro de 2025, com um dia de aviso, o contrato de R$ 980 mil mensais que garantia terapias a cerca de 1.200 crianças neurodivergentes e com deficiência no Centro de Atividades Multidisciplinar de Apoio Pedagógico Inclusivo (Campi), em Várzea Grande. Nove meses depois, famílias afirmam que os filhos regrediram, que as primeiras avaliações na rede estadual só ocorreram entre março e abril e que parte das crianças nunca conseguiu vaga. Os relatos foram levados nesta quinta-feira (24) ao presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), conselheiro Sérgio Ricardo, que anunciou apuração. "É uma vergonha o atendimento às crianças neurodivergentes e com deficiência no estado de Mato Grosso. Interrupção do tratamento é regressão da criança. É corte na evolução. Todo trabalho anterior é jogado fora", disse.

O conselheiro fez a conta do dinheiro que deixou de ser aplicado. Pelo valor do contrato, os nove meses sem atendimento somariam R$ 8,82 milhões. "O Tribunal de Contas é obrigado a fazer isso. Nós cuidamos da aplicação do dinheiro público. A Seduc pagava quase um milhão para cuidar das crianças. Não pagou mais e não teve mais atendimento", afirmou.

O diretor-geral do Campi, Anacleto Giraldelli Bezerra, contou que a Seduc havia comunicado em 5 de novembro de 2025 o interesse em renovar o contrato. Em 12 de dezembro, porém, a secretaria enviou ofício informando que não haveria renovação e que os serviços seriam interrompidos "de forma imediata", a partir do dia seguinte. Segundo ele, não houve qualquer falha na prestação do serviço que justificasse o corte. "Às vezes fica aquela impressão de a empresa não ter prestado serviço por alguma divergência ou alguma coisa que aconteceu, mas não", disse.

Em nota, a Seduc teria informado que, desde o fim do contrato, o atendimento especializado passou a ser feito pela própria rede estadual, com o fortalecimento do Centro de Apoio e Suporte à Inclusão da Educação Especial (Cacies), e que a transição foi planejada. A secretaria diz que os atendimentos no Cacies passaram de 8 para 60 por dia. As famílias contestam os dois pontos. Para elas, 60 atendimentos diários não dão conta das 1.200 crianças que frequentavam o Campi, e a transição não foi planejada: as avaliações começaram meses depois do corte e a obra do novo prédio destinado ao atendimento está parada.

"Nós não estamos aqui pedindo favor a ninguém. Estamos pedindo que o que já está estabelecido por lei seja cumprido. Nós não estamos pedindo que sejam criadas novas leis", afirmou Kellen Carvalho da Silva, que representa grupos de famílias atípicas. Ela contou que os dois filhos entraram em crise no dia em que souberam do fim das terapias e que, nos nove meses seguintes, as crises passaram de duas ou três por mês para nove por semana, em cada um.

Alex Barbosa relatou que a escola do filho de cinco anos nem sequer foi avisada do encerramento. A família ouviu da Seduc que haveria nova licitação, mas só foi encaminhada ao Cacies seis meses depois. "Dentro desse período de dois anos em que foi atendido no Campi, ele conseguiu formar a primeira frase. Ele não falava frase nenhuma. Agora ele já regrediu muito. Ele ia ao banheiro sozinho. Hoje ele não consegue mais", disse. Ele tem ainda uma filha neurodivergente à espera de vaga na rede pública.

Os pais também apontaram a distância dos locais de atendimento, a falta de medicamentos na rede pública, a ausência de professores de apoio pedagógico especializado e o agrupamento de alunos sem avaliação do tipo de deficiência e do nível de suporte necessário. "Um professor regente, numa sala de aula com 30 alunos, não dá conta de dar aula e atender o meu filho com deficiência intelectual. A inclusão não é só aceitar a matrícula do meu filho. A inclusão tem que ser no pedagógico, com equidade", disse Vanessa de Souza Martins Guedes.

O Campi enfrenta ainda um segundo impasse, este com a Prefeitura de Várzea Grande. Neste mês, a entidade suspendeu o atendimento a alunos da rede municipal por atraso nos repasses. O serviço foi retomado no dia 14, depois de acordo para o pagamento da primeira de oito parcelas atrasadas e de um escalonamento para as demais, também sob acompanhamento do Tribunal.

Sérgio Ricardo apresentou às famílias dados da auditoria do TCE-MT segundo os quais mais de 90% das famílias ouvidas relatam interrupção de tratamento. O Tribunal está notificando os prefeitos para que informem o número de crianças neurodivergentes e com deficiência em cada município, dado que deve virar ponto de controle no julgamento das contas municipais. O tema também será um dos eixos do Plano de Metas Mato Grosso 2050, que o TCE-MT entrega na próxima semana aos candidatos ao Governo do Estado e ao Senado. Entre as sugestões, o conselheiro adiantou que o plano vai propor ao futuro governador a criação de uma equipe formada por pais e mães atípicos dentro da Secretaria de Estado de Saúde (SES).

Ao fim da reunião, as famílias entregaram ao presidente um colar com o símbolo do autismo. "Nós estamos trabalhando no sentido de termos um divisor de águas e o Tribunal de Contas já entrou de forma maiúscula nessa questão do atendimento às pessoas neurodivergentes e com deficiência", disse Sérgio Ricardo. "Estou dentro até o pescoço, de corpo e alma. Vocês terão sempre em mim uma voz."

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