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FORMAÇÃO DO CIRURGIÃO

Médico que operou Lurdes comprova 2.880 horas de curso em cirurgia plástica, mas não RQE

Papéis de Euller Preza incluem aperfeiçoamento de 2.880 horas, pós em medicina estética, filiação ao CBCP desde 2011 e certidão do CRM-MT sem registros éticos desabonadores

Rojane Marta/Fatos de MT

Reprodução

Médico de Cuiabá fez aperfeiçoamento de 2.880 horas em cirurgia plástica; certificado não garante título

Médico de Cuiabá fez aperfeiçoamento de 2.880 horas em cirurgia plástica; certificado não garante título

Documentos de formação do médico Euller Gustavo Pompeu de Barros Gonçalves Preza mostram que ele fez um curso de aperfeiçoamento de 2.880 horas em cirurgia plástica e estética e que é membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgia Plástica (CBCP). Uma certidão do Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT) não aponta nada que desabone sua conduta ético-profissional. Euller é o responsável pela cirurgia durante a qual Lurdes Maria de Lima Pessoa Padilha, de 24 anos, morreu na sexta-feira (16), no Hospital Geral e Maternidade, em Cuiabá. A reportagem teve acesso aos documentos. Nenhum deles corresponde à residência médica ou ao título de especialista exigidos para o Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em cirurgia plástica, que o médico não possui.

O curso mais extenso foi feito no Centro Universitário de Araras Dr. Edmundo Ulson (Unar), no interior de São Paulo. Pelo certificado, emitido pela coordenação de pós-graduação em abril de 2013, Euller concluiu o Curso de Aperfeiçoamento em Medicina e Cirurgia Plástica e Estética, realizado de janeiro de 2010 a dezembro de 2011. O histórico registra 2.880 horas. Metade corresponde a prática cirúrgica, e o restante a disciplinas como anestesia em cirurgia plástica, abdominoplastia, rinoplastia, mamoplastia de aumento com próteses e lipoescultura. O trabalho de conclusão foi sobre mastoplastia de aumento.

Uma declaração mais antiga, de fevereiro de 2007, informa que ele estava matriculado em uma pós-graduação lato sensu em medicina estética no Colégio Brasileiro de Medicina e Cirurgia Estética, em São Paulo. As aulas eram mensais, de janeiro de 2007 a dezembro de 2008. O documento atesta a matrícula, e não a conclusão do curso.

O CBCP assinou nesta segunda-feira (19) uma declaração segundo a qual Euller entrou na entidade em 2011, como membro efetivo, e passou a membro titular em 2018. O texto diz ainda que ele participa de eventos, sessões clínicas e congressos promovidos pelo colégio. Os certificados de membro titular têm validade anual, e o mais recente vale até março de 2027. No domingo (18), a entidade já havia divulgado comunicado em que diz acompanhar o caso e afirma que uma complicação, por si só, não caracteriza erro médico.

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A certidão de antecedentes éticos do CRM-MT foi emitida em 18 de setembro, quase um mês antes da morte de Lurdes. Segundo o documento, não há registro que desabone a conduta do médico desde fevereiro de 2005, data de sua inscrição no conselho. Como foi emitida antes do caso, a certidão não alcança a sindicância que o CRM-MT abriu depois da morte da paciente. Ele também tem inscrição no conselho da Bahia.

O título de especialista que dá direito ao RQE só pode ser obtido de duas formas, segundo a legislação que regula a residência médica e o decreto que criou o Cadastro Nacional de Especialistas. A primeira é concluir residência médica credenciada pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM). A segunda é ser aprovado no exame da sociedade de especialidade vinculada à Associação Médica Brasileira (AMB), que em cirurgia plástica é a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). O CBCP é uma associação diferente da SBCP. Certificados de pós-graduação lato sensu, mesmo reconhecidos pelo Ministério da Educação, não dão direito ao registro, conforme decisões do Tribunal Regional Federal da 2ª Região.

Sem o RQE, o médico não pode se anunciar como especialista. Pode, no entanto, fazer cirurgias: a Lei 3.268/1957 garante a quem tem inscrição regular no conselho o exercício de atos médicos, inclusive cirúrgicos. É esse o argumento da defesa, conduzida pelo advogado Alex Cardoso. Em vídeo, ele afirmou que Euller não usa o título de especialista, mas se especializou pela prática, por cursos e por pós-graduação.

Lurdes passava por uma lipoescultura e pela colocação de próteses mamárias quando sofreu uma parada cardiorrespiratória. A equipe tentou reanimá-la por cerca de duas horas. Casada, ela deixou dois filhos.

A morte é investigada pela Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que registrou o caso como morte a esclarecer e aguarda os laudos da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec). A sindicância do CRM-MT corre em sigilo.

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