O Tribunal do Júri de Cuiabá retomou nesta terça-feira, 29, às 9h, o julgamento dos três primeiros acusados pelo assassinato do advogado Roberto Zampieri, morto com dez tiros em 5 de dezembro de 2023 dentro do próprio carro, em frente ao escritório onde trabalhava, no bairro Bosque da Saúde. Antônio Gomes da Silva, que confessou os disparos, Hedilerson Fialho Martins Barbosa, militar do Exército e instrutor de tiro apontado como intermediário e fornecedor da arma, e o coronel da reserva Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, acusado de integrar a estrutura de contratação e financiamento, respondem por homicídio triplamente qualificado, por promessa de recompensa, recurso que dificultou a defesa da vítima e uso de arma de fogo de uso restrito. Os três estão presos. O julgamento é presidido pelo juiz José Mauro Nagib Jorge, da 11ª Vara Criminal, Justiça Militar e Tribunal do Júri, e a acusação está a cargo dos promotores Samuel Frungilo e Vinícius Gahyva, do Núcleo de Defesa da Vida do Ministério Público.
Antônio Gomes da Silva deixou a Defensoria Pública às vésperas do júri e voltou a ser representado por uma banca particular formada por Neyman Augusto Monteiro, Nilton Ribeiro de Souza e Paulo Fabrinny. Antes de entrar no plenário, Nilton Ribeiro afirmou que a defesa não vai discutir a autoria dos tiros, já admitida, mas pretende apresentar informações ainda não expostas sobre quem mandou matar o advogado e por quê. Ele não antecipou nomes. O interrogatório do réu poderá abordar contatos, negociação de valores e o papel dos demais acusados.
A defesa de Caçadini atacou a investigação. O advogado Jaime Rodrigues Carvalho disse temer que os verdadeiros autores intelectuais do crime estejam fora do plenário, classificou a apuração como feita às pressas e pediu que os jurados absolvam o coronel. No inquérito inicial da Delegacia de Homicídios, Caçadini chegou a ser apontado como possível mandante e financiador. Com o avanço das diligências, o Ministério Público modificou a acusação.
O promotor Samuel Frungilo afirmou, antes da sessão, que as investigações da Polícia Civil e da Polícia Federal, estas conduzidas no âmbito do Supremo Tribunal Federal, apontam que Caçadini integrava e chefiava uma organização de pistolagem em Minas Gerais, contratada para executar Zampieri. Segundo ele, neste júri são julgados apenas o executor, o intermediário e o coronel. Os mandantes e demais integrantes do grupo, já denunciados e em sua maioria presos, serão julgados posteriormente.
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Para o Ministério Público, o casal de fazendeiros Aníbal Manoel Laurindo e Elenice Ballarotti Laurindo, de Rondonópolis, encomendou o crime. Um inquérito complementar, aberto a pedido da própria promotoria, apura se há outros mandantes. Segundo Frungilo, se os jurados reconhecerem as três qualificadoras, a pena deve se aproximar do máximo de 30 anos, sem prejuízo de eventual condenação em processo separado por organização criminosa.
A denúncia relaciona o assassinato a uma disputa judicial pela Fazenda Lagoa Azul, propriedade rural avaliada em cerca de R$ 100 milhões, na qual Zampieri defendia interesses contrários aos do casal Laurindo. Segundo a acusação, a execução teria sido contratada por R$ 124.250 pagos antes do crime e mais R$ 60 mil depois.
Em maio deste ano, o Ministério Público denunciou nove pessoas, distribuídas em quatro núcleos, do mandante ao encarregado de ocultar informações, e passou a investigar pagamentos destinados a impedir que participantes revelassem quem estava por trás da contratação. Essa ação tramita separadamente.
O delegado Nilson André Farias de Oliveira, da Polícia Civil, disse no júri de julho que o plano teria começado em 9 de outubro de 2023, quando o advogado pediu à Justiça a apresentação de provas no processo da fazenda. No mesmo dia, segundo o delegado, o celular apreendido do coronel registrou uma busca pelo endereço do escritório de Zampieri.
O primeiro júri começou em 28 de julho e ouviu seis testemunhas, entre elas os delegados Nilson Farias e Edison Ricardo Pick, da Polícia Civil, e Marco Bontempo, da Polícia Federal, responsável pela extração dos dados do celular da vítima. Também prestou depoimento José Marcos Marini, amigo do advogado, que ouviu os disparos e foi o primeiro a abrir a porta do carro.
Na madrugada do dia seguinte, um jurado passou mal, com quadro inicialmente tratado como viral e necessidade de tomografia, e o juiz dissolveu o Conselho de Sentença. Com a formação de um novo conselho, os atos de plenário precisam ser refeitos, embora os depoimentos anteriores permaneçam nos autos.
O caso ganhou dimensão nacional depois que a perícia no telefone de Zampieri revelou indícios de um suposto esquema de negociação de decisões judiciais envolvendo tribunais estaduais e o Superior Tribunal de Justiça. A apuração é conduzida pela Polícia Federal e tramita no STF, sob relatoria do ministro Cristiano Zanin, mas não é objeto deste julgamento.
Até o início da tarde, a sessão prosseguia com a oitiva de testemunhas, sem previsão de encerramento.







