O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) justificou a proibição das bets com relatos que colheu pessoalmente de apostadores endividados e comparou o efeito das plataformas ao início da epidemia de crack no país. "Isso é como um câncer. Ou a gente tira o tumor, ou esse tumor vai matar a gente", disse ao assinar, nesta sexta-feira (25), a medida provisória que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa em todo o território nacional. Na mesma cerimônia, Lula assinou a MP do Desenrola Brasil 3.0, programa de renegociação de dívidas de pessoas físicas, e a mensagem que envia ao Congresso o projeto de lei que tipifica como crime a operação de bets.
Lula contou que a decisão amadureceu depois de um encontro casual no Palácio da Alvorada. Durante uma reunião com ministros, ele disse ter parado dois jovens que passavam e perguntado se apostavam. "Um estava devendo 10 mil reais. Ele ganha 4 mil. E o outro estava devendo, mas já tinha desistido", relatou. A partir daí, pediu para reunir oito pessoas endividadas com apostas. "Tem coisa que é estarrecedora. Me lembrou um pouco o começo do crack nesse país", afirmou, lembrando de mães que, em atos públicos, contavam que os filhos vendiam botijão de gás, comida e colchão para comprar a droga. "As bets estão fazendo exatamente a mesma coisa, num grau muito maior, porque é digital. O cara está com o celular na mão."
Entre os casos citados pelo presidente estão um pequeno empresário que acumulou dívida de R$ 2,2 milhões, vendeu o comércio e bens do pai e mentiu para a família até buscar tratamento, e uma comerciante de 27 anos do interior de Minas Gerais que deve R$ 630 mil. "Jamais vai poder pagar, jamais", disse Lula. Segundo ele, o empresário chegou a transferir mais de R$ 1 milhão em dois meses para a mesma plataforma "e ninguém alertou que ele não podia fazer aquilo", porque o Banco Central não controla o fluxo de dinheiro para apostas. Lula também relatou ter ouvido de mulheres histórias de tentativas de suicídio e de um filho de 26 anos que tirou a própria vida por causa de dívidas com apostas.
O presidente criticou a publicidade do setor e citou uma propaganda em que uma mulher, sem dinheiro para pagar a compra no supermercado, aposta, ganha e quita a conta. "Isso é mentir descaradamente para induzir as pessoas humildes e mais necessitadas de que vão resolver a sua vida jogando", disse. Para ele, o país que "era contra o cassino, contra a briga de galo, contra a rinha" trouxe o cassino para dentro de casa. "O cassino está na cozinha, está na sala. O cassino está com o aposentado, está com a criança de 13, 14 anos. Pega o cartão do pai e faz o que quiser."
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Lula também sinalizou que quer restringir o crédito rotativo. Afirmou ter conversado com pessoas que pagavam apostas com o quarto cartão de crédito do mesmo banco e defendeu impedir que uma pessoa receba "quatro, cinco, seis cartões". Sobre o Desenrola 3.0, apresentado pelo ministro Bruno Moretti, disse que a nova versão é melhor que as anteriores porque, em vez de o devedor procurar o banco, "agora é o governo que vai comprar a dívida e vai acertar a vida das pessoas".
O presidente reservou parte do discurso para responder ao argumento dos clubes de futebol, que dependem de patrocínio das casas de apostas. Torcedor do Corinthians, contou ter doado R$ 1.013 à vaquinha organizada pela Gaviões da Fiel para pagar a dívida do clube com a Caixa. "Não sei como é que um time contrai uma dívida, parece que jogou na bet", ironizou, citando que o clube contratou R$ 400 milhões, já pagou R$ 1,75 bilhão e ainda deve R$ 600 milhões. Segundo ele, as bets representam entre 6% e 7% do orçamento dos clubes, e o torcedor já sustenta o time com ingresso e consumo no estádio. "O Santos era o melhor time do mundo e não tinha bets. O Flamengo foi campeão do mundo. O Internacional, o Grêmio, o São Paulo três vezes, o Corinthians duas vezes. O Brasil foi campeão do mundo sem bets", afirmou, antes de provocar: "E com as bets, o Palmeiras não ganhou."
Ao encerrar, Lula disse que o governo discutiu fazer a proibição "pela metade" e optou pela medida integral. "Já que tem que fazer, vamos fazer o que tem que ser feito. Acabar com as bets." Ele deixou o local sem responder a perguntas e delegou as entrevistas ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, e ao restante da equipe econômica.
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