O presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso, conselheiro Sérgio Ricardo de Almeida, preso desde quinta-feira (29) na Operação Tomada de Contas, foi filmado no dia 30 de setembro de 2025 no caixa do posto do Sicoob que funciona dentro do próprio tribunal, ao lado da chefe de gabinete, Roseli Loss, e do ex-cunhado Adriangelo Barros Antunes, durante o saque de R$ 500 mil em espécie. No pedido feito ao banco para separar o dinheiro, o motivo declarado foi “para utilização pessoal”. A cena está na representação da Polícia Federal que levou o ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça, a decretar a prisão preventiva do conselheiro e de outras cinco pessoas.
Dois dias depois, as câmeras registraram o presidente de novo no guichê. Segundo a PF, em 2 de outubro ele digitou a senha, assinou um comprovante e, “aparentemente”, fez reconhecimento facial num celular que estava nas mãos de Roseli. Em 8 de outubro, seis dias depois, ela passou a constar no Sicoob como procuradora das duas contas do conselheiro. Para os investigadores, a procuração apenas formalizou o que já acontecia: relatórios do Coaf mostram Roseli como sacadora de R$ 200 mil em fevereiro de 2024 e de R$ 340 mil em abril de 2024 nas contas do chefe. No saque de fevereiro, ela “se recusou a informar a finalidade”, segundo a Procuradoria-Geral da República.
Os números levantados com a quebra de sigilo bancário ajudam a dimensionar a rotina. Entre 1º de janeiro e 22 de outubro de 2025, foram 150 saques em dinheiro vivo nas duas contas do conselheiro no Sicoob, que somam R$ 15.645.502. Desse total, 64 retiradas foram feitas na boca do caixa e respondem por R$ 15,47 milhões. As outras 86, quase todas de R$ 2 mil, saíram de caixas eletrônicos. Houve 13 saques de exatos R$ 370 mil, oito de R$ 400 mil, quatro de R$ 490 mil e um de R$ 500 mil. O mês mais movimentado foi setembro, com R$ 2,55 milhões retirados.
No mesmo período, segundo a PF, o TCE creditou R$ 15.991.918,64 nas contas do presidente, o equivalente a R$ 54,4 mil por dia, ou mais de R$ 1,6 milhão por mês. O teto do funcionalismo é de R$ 46.366,19 mensais. A conclusão da polícia é de que 97,8% do que entrou vindo do tribunal “abasteceram as operações de saques de valores em espécie”.
As justificativas apresentadas ao banco também constam do processo. Em pelo menos 46 comunicações, o motivo informado ao caixa foi “verba indenizatória do TCE” ou “proventos do TCE”. Em 7 de janeiro de 2025, ao provisionar R$ 500 mil em espécie, o próprio titular escreveu como finalidade: “CONTA SEMPRE TEM BLOQUEIO JUDICIAL”.
Há ainda um padrão que a PGR chama de segundo regime de saques. Além das retiradas grandes, sempre avisadas ao Coaf, o presidente fez 21 saques entre R$ 49 mil e R$ 49,9 mil, sem nenhum de exatos R$ 50 mil no período. Esse é o valor a partir do qual o banco é obrigado a comunicar a operação automaticamente e exigir provisionamento. Em seis datas, houve saques nessa faixa nas duas contas no mesmo dia.
O destino do dinheiro ainda é uma lacuna da investigação. A análise patrimonial da PF não encontrou aumento de bens em nome do conselheiro. Segundo a PGR, entre janeiro de 2025 e maio de 2026 as contas receberam cerca de R$ 20,4 milhões do TCE, e ele sacou em espécie cerca de R$ 18,95 milhões, valor que “não reapareceu” em contas ou bens conhecidos. A PF trabalha com a hipótese de peculato “seja em benefício próprio ou alheio”, e cita entre parênteses a palavra “rachadinha”.
O que aparecia para o público era outra coisa. No mesmo período, o Portal da Transparência do tribunal informou R$ 288.501,05 pagos a Sérgio Ricardo, contra R$ 15.442.211,65 efetivamente creditados pelo TCE, segundo a tabela feita a partir da quebra de sigilo.
Ex-presidente da Assembleia Legislativa, Sérgio Ricardo chegou ao TCE em 2012. Ficou afastado de janeiro de 2017 a outubro de 2021, primeiro por decisão da Justiça estadual em ação de improbidade e depois pela 12ª fase da Operação Ararath, investigação arquivada mais tarde por falta de provas. Assumiu a presidência em 2024 e, em junho de 2025, foi reconduzido para o biênio 2026-2027 depois de uma mudança no regimento que antecipou a eleição, recondução que a PF classifica como “antecipada e inédita”.
Ao manter as prisões, o ministro Og Fernandes também mandou o Sicoob cancelar todas as procurações sobre as contas dos investigados, em especial a de Roseli, proibir saques em espécie por procurador e avisar a Polícia Federal, em até 24 horas, de qualquer saque ou provisionamento igual ou superior a R$ 10 mil. Os advogados Valber Melo, Saulo Gahyva, Thiago Carajoinas e Amanda Kozievitch pediram habilitação no processo em nome do conselheiro na quinta-feira. A defesa ainda não se manifestou sobre o conteúdo das acusações.
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